CONTOS & CRÓNICAS – MAURÍCIO VILAR OUVE CONVERSAS DE CAFÉ – por João Machado
carlosloures
Esta semana tenho ficado por casa. São férias de Natal e não há aulas. A Maria da Luz está para a Covilhã e só vem depois do Natal. Disse-me que quer passar o Ano Novo comigo. Portanto, vai ter que o passar cá em casa, pois nunca deixei a Heloísa sozinha na passagem de ano. Entretanto, tenho estudado bastante. Meu caro amigo, a verdade é que nunca estudei tanto na minha vida. Duvida? É verdade. Houve alturas em que pensei que nunca ia acabar o curso. Como nunca fui capaz de falar sobre isso com a minha mãe, de lhe dizer que não me sentia capaz de estudar o suficiente para passar nos exames, tive de desistir. Desistir de desistir do curso. Não se ria, por favor. Mas foi isso mesmo que senti. E quando desisti mesmo de desistir do curso, senti um alívio enorme. Pude continuar a fazer a vontade à minha mãe, que me quer doutor. Ela só uma vez repontou com os meus maus resultados. E foi precisamente quando namorava a Natália. Já lá vão uns bons anos. Acusou-a de me distrair do estudo. Acredite que a Natália nunca me impediu de estudar. Pelo contrário. Ela estava ansiosa de que eu acabasse o curso. Queria casar e ter uma casa só para nós dois. Hoje acho que ela resolveu deixar-me quando se convenceu que isso não ia acontecer. Eu também queria acabar o curso e casar com ela. Nunca quis foi deixar a minha mãe.
Realmente quando comecei a andar com a Maria da Luz comecei a estudar muito mais. E a passar nos exames. De tal modo qua agora estudo todos os dias, de manhã e de tarde. Mas agora deixe-me contar-lhe uma conversa estranha que hoje de tarde ouvi no café. Depois de almoçar, pensei em vir com o livro para o café. Se me metesse no quarto, adormecia pela certa. De modo que resolvi fazer companhia à Heloísa que, como todos os dias, foi passar a tarde à Esplendorosa adebater com as amigas sobre as telenovelasque decorrem nos vários canais, e sobre como deveriam ter sido encaminhadas as participações dos vários personagens que entram nas histórias, mais as respectivas qualidades pessoais. E assim arranjei não ter de pagar o café e o bolinho que comi a acompanhar. Um pastel de nata com muita canela, um dos meus bolos preferidos. Parece que tivemos já há algum tempo um ministro da economia que queria promover a exportação dos pastéis de nata. Eu não ligo a política. Só vou votar quando a Heloísa me diz. Mas por mim, podem exportar os pastéis de nata que quiserem, desde que deixem cá alguns para eu comer. Não me preocupo com essas coisas. Quero é ter o que comer, de preferênciacoisas de que gosto.
Elas sentaram-se numa mesa do lado direito de quem entra, e eu noutra mesmoao lado, a uma esquina, para ter espaço para poisar o livro e abri-lo para ler. E foi o que fiz durante bastante tempo, talvez mais de uma hora. Para mim, uma hora de estudo sem interrupção é bastante, sobretudo quando não tenho a Maria da Luz a puxar por mim. E hoje, já me sentia cansado. Confesso que adormeci, mais de uma vez. A certa altura comecei a prestar atenção a umas pessoas que discutiam, numa mesa do outro lado da esquina em que estava. Recostei-me e comecei a ouvi-los mais claramente. E pareceu-me que eram a Otacília (ou Otilinda), a tal senhora que dizem ser assistente social ou psicóloga, e que mora aqui na rua, mesmo ao meu lado, e o marido. Ele ralhava com ela, e dizia-lhe insistentemente para não se preocupar tanto com a vida dos outros. Que tratasse sim da vida dela, e já agora da família, mas a Otacília (?)insistia em contar uma história terrível sobre uma idosa, que ao que entendi mora ali para o Alto de Santo António, e terá sido encontrada na sua casa num estado deplorável, com um morto deitado na cama dela, e não sabe dizer se é o marido ou o filho. A nossa vizinha acha que é o marido, mas a polícia insiste em que é o filho, até porque é bastante mais novo. O caso terá causado uma certa celeuma, até porque ele, quanto o encontraram, já estaria morto há bastante tempo. A esposa, ou mãe, seja lá o que for, não quer deixar que levem o corpo de casa para o enterrarem, e diz que lhe faz companhia, mesmo morto e tudo, apesar de o cadáver já estar em putrefacção avançada. E os serviços acham que precisam que seja um juiz a autorizar que levem o corpo, sem autorização da senhora, que estará senil de todo. Como vê, meu caro, uma história terrível. Olhei para a Heloísa e fiquei a pensar. Não lhe digo em quê. Não fui capaz de continuar a estudar. Faz-me falta a Maria da Luz.