Pois meu amigo, após aquelas festas tão animadas, lá voltámosao trabalho. A Maria da Luz e eu. Recomeçámos as aulas e, ontem, imagine, fiz uma frequência. Descanse que não o vou maçar com pormenores técnicos. Apenas lhe vou contar que tive de a fazer por ter notas baixas nas frequências anteriores, e precisar de obter positiva desta vez para poder ir ao exame final. A Maria da Luz ficou dispensada de a fazer, pois tem tido sempre notas altas. Mas esteve sempre a estudar comigo, tal como se fosse fazer a frequência. Disse que, assim, ficava com o exame final já preparado.
O professor que esteve a tomar conta da prova foi meu colega de ano. É bastante mais novo do que eu. Como cheguei à sala antes da hora de começar, quis meter conversa comigo. Pôs um ar amigável e foi perguntando:
– Porque te tens atrasado tanto com o curso? Pensei que tinhas desistido.
– Não. – respondi com um ar muito sério. – Fui obrigado a interromper por problemas de saúde de uma pessoa de família. Não tive outro remédio.
Ele olhou para mim com um ar grave. Cheguei a pensar que me ia perguntar quem tinha estado doente. Mas começaram a chegar outros examinandos, e ele mandou-nos entrar e sentarmo-nos. Distribuiu uma folha a cada um, com um tema da matériapara desenvolver, e foi sentar-se numa secretária. Durante a frequência olhou todo o tempo para mim. Não me importei, porque conhecia bem o tema.Na véspera tinha-o estado a repetir com a Maria da Luz. Escrevi imenso. O meu antigo colega, de tão absorvido que estava a mirar-me, não reparou numa colega sentada noutro lado da sala que, a meia da prova, trocou a folha em que estava a escrever por outra que tirou disfarçadamente da pasta que tinha pousado ao seu lado, quando se sentara. Também tinha acertado no tema, pensei eu.
Hoje ao princípio da tarde saíram as notas. Consegui um treze, o que não foi mau. Os outros colegas também conseguiram positiva. Mas a da folha trocada teve dezoito.
– Assim dispensa da final! – disse a Maria da Luz, quando vimos a pauta.
Depois fomos para casa dela lanchar. Contei-lhe a troca de folhas. Ela foi de opinião que o meu ex-colega sabia perfeitamente o que se estava a passar. Disse achar que ele fingiu que não reparava. Por isso se concentrou em mim. A pergunta ao princípio da prova tinha sido feita para preparar o cenário.
Diga-me uma coisa, acha que a Maria da Luz tem razão?
Não gosto de pensar em coisas tão complicadas. O copianço acontece muitas vezes, e eu próprio já o fiz. Agora, uma aluna ter a prova feita de antemão, nunca tinha visto. Hesitantemente, disse à minha amiga:
– Ela se calhar, em casa, tinha preparado vários temas. Teve sorte e acertou no que saiu.
Não lhe sei descrever o ar que a Maria da Luz pôs. Deu uma risadinha, encolheu os ombros, e fez-me uma festa na cara. Pusemo-nos a tratar de outros assuntos, aliás muito mais interessantes, e que têm andado um pouco atrasados, devido à preparação das frequências.
Deixei a Maria da Luz em casa dela, e voltei para a Rua de Santo Ambrósio. Sentia-me satisfeito, até por a frequência me ter corrido bem. Contudo, não me saia da cabeça o ar da Maria da Luz, quando levantei a hipótese de a colega da folha trocada ter acertado por sorte no tema do exame. E assaltou-me uma dúvida:
– Será que a Maria da Luz me acha um nabo?
O meu amigo dirá que sou um bocado exagerado. E que ter dúvidas destas sobre a Maria da Luz, não me fica bem. Mas estou a ser totalmente sincero consigo, veio-me esta dúvida á cabeça. Fiquei mesmo um tanto atabalhoado, de tal modo que não me apercebi que já estava à porta de casa. E quem vem a sair, sempre toda desempoeirada, olha para mim, desata-se a rir e põe um ar mesmo tal e qual como o da Maria da Luz. Já percebeu, não é verdade? Claro. A Maria Antónia!
– Mauricinho, que lhe aconteceu? A serigaita pôs-lhe os palitos? Apareça lá em cima, às onze e cinco em ponto, que lhe aplico um curativo.
Pois meu caro, são quase onze horas. Tenho de interromper, para não fazer esperar a Maria Antónia.