Permita, meu caro amigo, que insista nisto. Eu não estou inquieto. Diz, e eu tenho toda a certeza de que o diz com boa intenção e sinceridade, que anda outra vez muito preocupado comigo. Diz também que me tem sentido melhor, muito melhor, mas apercebeu-se de que, afinal, a minha mãe não se encontra bem. Não percebo como tirou essa conclusão. Terá sido alguma coisa que eu lhe tenha dito? Refere-se àquelas recordações de infância que ela me contou e que lhe descrevi na última carta. Sinceramente, penso que ela queria pôr-me á vontade, por ter passado a noite em casa da Maria da Luz. Realmente, aquilo tinha pouco sentido. Mas foi com certeza uma conversa dela para eu não ficar preocupado, a pensar que ela estava zangada comigo. Não acha? É verdade que, ainda não há muito tempo, ela teria ficado fula comigo.
Diz o meu amigo que anda a reler toda a nossa correspondência, e a rever as suas notas, para tentar perceber o que lhe tem escapado. Mas porquê? Escapado o quê? Estou muito lisonjeado por ter tido o trabalho de conservar as minhas mensagens, nunca pensei que lhes desse tanta importância. E, ainda por cima, tem tirado notas sobre a minha pessoa? Porquê? Sei que é muito meu amigo, mas ter assim tanto trabalho por minha causa, isso é que me deixa preocupado. Ainda se fosse um médico a quem eu pagasse, para me tratar de alguma doença… Não sei bem qual é a sua profissão, sei que trata dos assuntos de muita gente, ajuda-me imenso falar consigo, e escrever-lhe estas cartas tem-me feito muito bem, asseguro-lhe. De qualquer modo, eu não estou doente, não preciso de ir ao médico.
Para amenizar a nossa conversa, deixe-me contar-lhe que a minha vida na faculdade corre muito bem. Já concluí uma das cadeiras que tinha para fazer, e com uma nota das melhores que alguma vez tive. A Maria da Luz (querida Luzinha!) também a fez, com melhor nota que eu, já se sabe, mas ela é mesmo barra. Para a semana tenho outra frequência, e tenho estudado imenso para a preparar. Estou muito optimista. E acho que a minha mãe anda também muito contente por me ver quase a acabar o curso. Quando chego a casa, pergunta-me sempre como me correu o dia, como está a Maria da Luz, e ainda ontem me disse para a convidar novamente para jantar.
Entretanto, na faculdade imagine que os nossos colegas fizeram uma greve há dias. Estava eu a chegar logo de manhã, na quinta-feira passada, e encontrei muitos dos meus colegas reunidos à entrada. No átrio estava um deles, de pé em cima de um banco, a dizer aos outros uma série de coisas, de que só percebi parte. Parece que querem aumentar as propinas para o ano, e que isso vai obrigar muitos estudantes a abandonar o curso. E também querem pôr um numerus clausus na faculdade, para admitirem menos gente, porque há muitos licenciados sem emprego, ao que dizem. A mim, como conto acabar o curso em breve, o aumento de propinas já não me vai incomodar. O numerus clausus (fica bem assim em itálico, não acha?), de que já ouvi falar várias vezes, incluindo à D. Suzete Baião da secretaria quando ralha comigo por nunca mais acabar o curso, é que eu acho muito bem. Quanto menos licenciados houver, melhor, que assim terei mais facilidade em arranjar emprego. A D. Suzete disse-me que não devia pensar assim (ela é um bocado para as esquerdas, sei lá porquê, veja lá, uma senhora tão simpática, e com boa idade para ter juízo), que todas as pessoas deviam ter o direito de estudar o que querem, e que há falta de licenciados no país, e não o contrário. É verdade que ela também me avisou várias vezes que tinha de acabar o curso mais depressa, que um dia ainda me vinham dizer que não tinha mais lugar, sempre a desistir e a chumbar. Bom, este ano estou a tentar, e vou conseguir. Entretanto, uma colega tomou o lugar do que tinha estado a falar e informou sobre a greve, que ia durar o dia todo, com um plenário à tarde. Era toda jeitosa, mas eu não fiquei ali a olhar para ela, porque vi a Maria da Luz a chegar. Contei-lhe o que se passava, e ela propôs logo irmos para casa dela. Assim fizemos, depois de darmos uma volta pelo Campo Grande. A Maria da Luz, em matéria de greves, é como eu. Não se interessa pelo assunto. E também acha bem o numerus clausus. Bem, o facto é que tivemos uma quinta-feira muito agradável. E olhe que até estudámos bastante.