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CONTOS & CRÓNICAS – “O Diabo no desemprego” – por Joaquim Palminha Silva

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O Diabo no desemprego

Um dia encontrei o senhor Diabo no “Centro de Emprego”…

Chamo a atenção para o facto de que ele não tirou senha de atendimento, pois sabia que não podia solicitar emprego, dada a sua intermitente invisibilidade. Pretendia apenas compreender o que se passava com a alma dos desempregados em Portugal e, dando-se o caso, recolher para o seu infernal armazém algumas centenas de milhar de desesperados… Na realidade, esta ideia surgiu-lhe por pensar que também estava desempregado, pelo menos com pouco trabalho, no que respeita à sua única, exclusiva e maléfica actividade que desde tempos imemoriais, diga-se de passagem, nunca o tinha deixado de mãos a abanar…

Como sei isto? – Sei, porque o senhor Diabo, com benévola condescendência, deixou que o visse ou, para dizer melhor, que o pressentisse. E, da mesma forma, mostrando-se mais manso e tranquilo do que eu imaginava, deixou-me escutar as suas confissões.

Falou-me em antenas parabólicas da alma, revelou-me como cada nuvem negra pode desempenhar o mesmo papel que um satélite-espião e, portanto, como estava ao corrente do que se passava entre os humanos deste planeta e, muito particularmente, num território chamado Portugal.

Uma vez que estou a falar do senhor Diabo, tal qual o vi, interessa dizer como se me apresentou. Fisicamente é claro… A distinção bíblica da luz e das trevas estava impressa no seu vestuário e em mil pormenores que agora não posso precisar… Primeiro que tudo, a sua figura não tinha nada fora do comum. Materializava-se com a altura, envergadura muscular e óssea idêntica a todos aqueles que o circundam no momento em que aparecia. Pareceu-me bastante pálido, embora o aspecto fosse de um homem jovem, havia nele as rugas de quem viveu demasiado e está eternamente triste, à margem de qualquer velhice. Vagamente, apercebi-me que a sua boca era um traço subtil, mas a cor dos olhos e dos cabelos, bem como o seu próprio rosto foram-me escondidos por completo, pois nunca consegui olhá-lo mais do que algumas fracções de segundo. Trajava correctamente como qualquer empregado de escritório, funcionário da administração pública ou burocrata desempregado em busca de colocação. Ninguém na verdade notava a sua presença, nem os que passam ao seu lado o reconheciam. Ao pé dele respirava-se uma atmosfera de segurança que não podia deixar de causar espanto, considerando que próximo de certas personagens institucionais e governamentais da sociedade actual respiramos um ambiente de insegurança psíquica, física, económica e cultural: – Valha-nos Deus!

Segundo o senhor Diabo me confessou tristemente, nestes tempos que correm a vida tornou-se difícil para todos e, como ele é todo dado às coisas materiais, a sua actividade acabou transformada numa verdadeira miséria. Razão pela qual veio até ao nosso desolado País.

Disse-me: “Agora os homens pouco me interessam. Compram-se as suas almas por pouco e, mesmo assim, desvalorizam-se todos os dias como as acções da vossa pobre Bolsa. De resto, já não resistem às minhas tentações. Não têm nem medula, nem coragem, nem o vosso velho orgulho lusíada… Quanto à sua alma… Bem, nem preciso de a sujar, pois quando me aproximo dela, já está tão podre que fede à distância, como as mais sujas cloacas dos vossos jardins públicos. Estou em crer que esta gente nem deve ter sangue suficientemente vermelho para firmar o contrato!”.

Devo confessar que a conversação com o senhor Diabo foi mais proveitosa e pedagógica do que se pode imaginar. Ele é daquelas personagens que, embora não nos fazendo compreender o Mundo de hoje, conseguem mostrar-nos o que de mundialmente hediondo e cruel reside concentrado dentro de nós, muito mais do que os

pequenos e grandes tratados de moral nos conseguem transmitir. Efectivamente, nunca vi ninguém mais conhecedor da mesquinhez, da velhacaria, da sujidade, da crueldade, da bestialidade humanas… Na espécie humana já nada o espantava nem o aborrecia, disse-me… Pacífico e sorridente, como se não fosse o senhor Diabo, o eterno mestre da dissimulação…

Finalmente, disse-me que compreendia muito bem Aquele que o condenou e precipitou no abismo e nas trevas. Disse-me que o Omnipotente, ao arrojá-lo para fora do seu seio e, assim, ao lançá-lo para local indeterminado no paralelo mundo dos espíritos, qualquer coisa parecido com a anti-matéria e os buracos negros do cosmos, havia procedido com toda a justiça, visto que o Verdadeiro Senhor do Universo, não poderia autorizar na sua proximidade celestial alguém possuído pela soberba e pela indisciplina.

Mostrou-se muito pouco animado a respeito da Humanidade e, com habilidosa e pesada ironia, demonstrou-me o seu convicto desprezo pelo Homem! Sendo por definição e meio de vida, o tentador da Humanidade, graças à demonstrada e feia natureza humana, pareceu-me menos terrível e feroz que o senhor Diabo da Idade Média, muito peludo, com o seu rabo de macaco e os seus cornos retorcidos, acariciador de virgens e madres, apoquentador de santos, excitador de penitentes e eremitas,  teimoso dissimulador junto dos “Doutor Fausto” de todas as épocas. Enfim, com a estúpida sociedade de consumo, assim como a cruel globalização económica e cultural (trituradora de povos), o senhor Diabo viu que a sua sabedoria e técnica de sedução se tornou obsoleta. Desde o “livre arbítrio” há muito existente, mas só descoberto por S. Tomás de Aquino no século XIII (Summa Theologica), que o Homem peca por si mesmo, espontânea e entusiasticamente. O senhor Diabo quase o deixa em paz, quando o vê partir a caminho do pecado e da malvadez, com uma precipitação e velocidade tal que parece as 275 quedas de água de Iguaçu, na fronteira do Brasil com a Argentina.

Quase acredito que o senhor Diabo já não considera o Homem como inimigo a seduzir, mas como fiel súbdito, disposto a pagar toda a espécie de tributo ao “maléfico” sem se fazer rogado, desde que consiga o seu egoísta e desumano objectivo material. Disse-me que neste último século, sobretudo após 1945 e o termo da II guerra mundial, com o massacre de cerca de 20 a 30 milhões de seres humanos, determinado pelo seu estimado discípulo Adolfo Hitler, começou a simpatizar com o Homem, embora esta simpatia não destrua o desprezo que lhe vota nem atenue o ódio que lhe tem, visto estar a dar cabo do seu papel no mundo e de toda a malvadez do que ele é por inspiração própria, como tal reconhecido pelo próprio Criador, o legítimo e único proprietário. A certa altura

Disse-me: « – Algumas das minhas melhores empresas estão a mergulhar na obscuridade, face aos plágios de que tenho sido vítima! Estou a abrir falência, um após outro, os meus melhores negócios neste mundo estão a ser penhorados, em favor dos humanos!».

            Depois de se deter por instantes, acentuando um tom de voz mefistofélico, o senhor Diabo continuou: “Acredito que Deus, com a paciência e a perseverança que tenho demonstrado, logo que entenda, há-de notar como a minha missão está praticamente cumprida e, só Ele sabe, talvez me reclame para o pé de Si, perdoando-me por fim, face à glorificação do mal praticada pelo Homem! E enaltecida pelo Homem sem a minha ajuda”.

Escutei-o aterrado! Vi a sua figura debruçar-se sobre mim e dizer-me: «- Vejo nos teus olhos o terror pelo que acabei de pronunciar, mas também vejo a tua vontade de me perguntar alguma coisa sobre a maldade humana… Não notas que os frutos da árvore do mal humano são tantos e tais que fazem de mim um pobre amador, um diletante! E que, portanto, dispensam o meu trabalho! Fazem de mim um autêntico desempregado?!».

Com entoação profética, disse-me numa voz cava e dorida: “- E virá o dia do pranto e do ranger de dentes de que fala o Apocalipse! O dia do grande, profundo, silencioso pranto! O dia do descobrimento do deserto de alma! O Homem saberá então que toda a alma está sozinha face a Deus!”.

Foi curioso constatar o facto de o senhor Diabo não celebrar esta vitória (temporária?) do mal sobre o Homem, mas pelo contrário. ficar triste e sentir-se roubado… As suas negras redes e os seus estranhos adornos nada eram comparados às sujas “capas” do Homem dos nossos dias… Efectivamente zangado, fez questão em me mostrar as horríveis cinzas maléficas, depositadas no coração do mundo, pelo Homem actual…

Depois disto, a tua alma será como uma cidade devastada, como uma torre destruída… Ora escuta, e sê o teu próprio prisioneiro, ó Homem!”… Para acalmar a minha impaciência, o senhor Diabo  começou em voz alta a dar-me os registos da lista negra da Humanidade…

Extermínio de 7 milhões de ucranianos (1932-1933), pela “nomenclatura” comunista russa, acção de genocídio conhecida sob a designação de “grande fome”; República Popular da China (1949-1976), período sob o autoritarismo de Mao-Tsé-Tung, cerca de 48 milhões de mortos; no Ruanda, em apenas 100 dias, o ódio racial dos negros contra os negros, leva uma etnia a assassinar (1994) 800 mil tutsis; entre 1992 e 1996 os sérvios assassinaram 200 mil pessoas; de 1975 a 1983, foram assassinadas 900 mil pessoas no Uganda…

Supliquei-lhe que se detivesse: “- Senhor Diabo, poupe-me!… Essa espécie de estatística sobre a “virilidade” do mal, com as suas marcas características, há muito que está disponível na Internet, através do motor de busca denominado “google”! Por isso, senhor Diabo, estou informado desse filão… Não leve a mal, está bem?”.

Enfim, esta Humanidade mutilada havia deitado fora todas as aparências de fraternidade e de “amor ao próximo”… O senhor Diabo via como as antíteses da paz e da confraternização entre os povos me deixavam agoniado…  Então disse-me: “ – A voz da vileza servirá para acompanhar as novas prostituições da paz e do amor, que se perfilam já no horizonte… Em vão procurarás abrir uma saída de emergência para o teu espírito… Tremes entre as paredes da tua alma, mas não podes correr com o inimigo, pois o teu adversário, ó Homem, é a própria Humanidade…”.

Directamente para a minha figura: “ – Como vê, isto explica a minha inutilidade, o meu presente desemprego! Assim, como vê, o Homem veio para a segunda metade do século XX cavalgando orgulhoso o mal, como só eu o deveria fazer. Veio para a 2ª metade do século XX, sorridente como um demónio, pródigo em guerras, como um bobo da minha negra corte, plagiando-me e imitando-me embriagado de malvadez.”.

Então, despojado do seu trabalho quotidiano pelo Homem, o senhor Diabo começou a enumerar as guerras: – 1ª guerra da Indochina (1946-1949); guerra na Caxemira (1948-1949); guerra da Coreia (1950-1953); guerra da Argélia (1954-1962); guerra do Suez (1956): guerra colonial portuguesa (1961-1974); guerra do Vietname (1964-1973); guerra israelita dos seis dias (1967); guerra Irão-Iraque (1980-1988); guerra do Kosovo (1996-1999); invasão do Afeganistão pelas tropas norte-americanas (2001-2002)… Mais uma vez, tive de lhe dizer que, na “Internet”, se encontrava toda a lista…

Como eu poderia verificar (dizia-me), o Homem rebaixava-se para destronar os seus demónios e, por conseguinte, de forma a conhecer esta imensa acção de rebaixamento humano, devia escutá-lo… Não estava eu a ver como até a memória do mal lhe haviam roubado, inventando a “Internet”?!

O “maligno” dirigiu-me a palavra mais uma vez: «- Olhe os enigmáticos fantasmas da podridão: sabe que o narcotráfico é o maior negócio imperialista do mundo, com um movimento anual de cerca de 750 biliões de dólares, e lucros que chegam aos 3. 000% ! ».

O “imposto” que eu estava a pagar por escutar o senhor Diabo, começava a pesar-me… Estava prestes a considerar o “maligno” um grande chato!

“Sabe, o Homem teve tudo e perdeu tudo! O sol já não o aquece, a água não acalma a sua sede, o ar parece que lhe foge do peito! Posso encontrar-me no desemprego, ter descoberto com a acção do Homem actual a inutilidade da minha eterna missão, mas (terrível coisa!) é preciso que o Homem saiba que ao expulsar-me do território do mal,  não me está a vender a sua alma, está a despojar-se dela a troco de nada, ficando um trapo imundo! ”.

Fiquei a saber que o Homem já não se lembrava do caminho para o Paraíso Terrestre… E, desde a invenção da electricidade, começou a aborrecer o cintilar das estrelas no lânguido céu da noite…

O “Centro de Emprego” vai fechar… Olho em volta… O empregado do serviço de segurança dirige-me a palavra: “ O senhor passou a tarde toda a dormir na cadeira… O número da sua senha deve ter sido chamado várias vezes… Tenha paciência, vamos fechar, são 18 horas da tarde…Terá de que ir dormir para outro lado”.

Vejam lá o malcriado do funcionário! Terei cara de “sem-abrigo”?! Olhei a minha senha de atendimento, tinha o número 6, número atómico, símbolo da transição, do excesso, do perigo…

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