O representante dos «Complicadores» arreganhou os dentes, olhou para o mundo que o rodeava e disse: – «Estamos fartos de perguntas! Estamos cansados de prestar esclarecimentos! Estamos esgotados com tanta interrogação! O que é que leva a sociedade a questionar-nos constantemente?».
Um dos jornalistas presentes na conferência de imprensa respondeu: – «Curiosidade! Simples curiosidade!». Mas as palavras deste denunciavam alguma contenção… Dir-se-ia que tinha receio de ser mais explícito na afirmação.
Aos «Complicadores» atacava-os uma actividade intelectual estranha quando viam as questões sociais, económicas, de saúde e ensino público, bem como outras da mesma escala colectiva, desanuviarem-se e resolverem-se por si e pela actividade empenhada dos que delas se ocupavam profissionalmente, sem necessitarem dos “carinhos especiais” de agentes estranhos ao seu mundo. Nestas alturas, os «Complicadores», como o diabo quando vê a Cruz, davam saltos incríveis, de baixo para cima e da esquerda para a direita, procurando maneiras agressivas e cruéis de encetar a actividade que, segundo os seus estudos e prática, lhes havia dado o nome que ostentavam.
Os «Complicadores» consideravam-se a si próprios como fundamentais para a aquisição de uma autêntica consciência do bem-estar social, e estavam cientes da sua inteligente utilidade pública, podemos mesmo dizer, patriótica. Sem o seu desempenho, sem as enormes dificuldades que colocavam minuciosa e sistematicamente na vida de todos e cada um, o número de conhecimentos que hoje podem abarcar os serviços públicos do País, e os cidadãos em particular, seria bem menor… Sem o estímulo dos impedimentos, das dificuldades, da burocracia minuciosa, do excesso de zelo, das inumeráveis listas de espera, das falhas no sistema de comunicação, das complicações e entraves sobre a simplificação da vida religiosa, cultural, social e económica, como se teriam conseguido encontrar os verdadeiros valores, descobrindo, assim, o significado da vida humana neste Planeta?
Sem a escrupulosa desarmonia fabricada pelos «Complicadores», como se poderiam realizar tantas hipóteses de harmonia?
Os «Complicadores» não constituíam um partido, uma seita política com uma doutrina própria, uma “associação” de interesses corporativos com registo e sede social, nem tão pouco uma cooperativa ou uma instituição mutualista, eram pelo contrário uma federação sigilosa. Federação sigilosa, constituída por gente de ambos os sexos que se debruçava sobre as simplicidades societárias e, entretanto, já completamente mecanizada, introduzia em tudo os seus fantásticos «recursos da complicação». Os «Complicadores» eram antes de mais um «estado de espírito», um ordenado e oculto poder de influência social, político e económico, parasitando a alma e o corpo dos seres humanos, peregrinando de recanto social em recanto social, com a finalidade de tornar a realidade dolorosa, com a intenção de semear enigmas na organização social, de provocar, com a dúvida sistemática, uma vivência amarga para o País, repleta de enormes dificuldades espirituais, culturais, mentais e materiais.
Em vez de uma acção exigente, rigorosa e disciplinada, os «Complicadores» conseguiram introduzir na sociedade portuguesa o laxismo, a fraqueza no momento das grandes decisões nacionais e a fragilidade mental (e psicológica!) nos hábitos dos agentes da governação geral do País. De resto, no momento em que se deve notícia do aparecimento da actual crise, existem provas evidentes da actividade dos «Complicadores» para a cavarem mais fundo. Poderemos dizer mesmo que parte da sua origem tem raízes na existência dos «Complicadores».
No meio dos problemas para a recuperação económica do País, os «Complicadores» conseguiram introduzir um conjunto de dificuldades de subsistência económica dirigidas ao grande número dos mais pobres. Para estes últimos foram criados vários engodos, mas na prática a sua carga fiscal, os custos dos géneros de primeira necessidade, os transportes públicos, o número de medicamentos não comparticipados pelo Estado aumentaram paulatinamente, tornando-os, portanto, ainda mais pobres e desgraçados. Isto é, no meio da crise, os «Complicadores» vieram introduzir inúmeros factores que levam a enormes custos sociais, ao aparecimento da instabilidade social, aos movimentos grevistas em cadeia e, talvez a médio prazo, à revolta de imprevisíveis consequências: – Isto é, os «Complicadores», como lhes competia, vieram complicar tudo!
Os «Complicadores» também têm vindo a proporcionar aos partidos um número crescente de políticos que nunca exerceram verdadeiramente uma profissão na “vida civil”, que nunca estudaram obras de mérito (filosófico, literário ou cientifico), que alcançaram licenciaturas (quando alcançaram!) papagueando vacuidades em Universidades e Institutos de mau porte e péssima referência e, depois, vieram a ser paulatinamente promovidos pelos partidos e, naturalmente, também se auto-promoveram através de uma sabedoria difusa. Estes batalhões de homens e mulheres, raquíticos de ideias sobre as melhores soluções, inundam hoje o espectro político-partidário do País, tendo-se pegado aos grandes caixotes de prendas que são os Bancos e as empresas públicas ou privadas, acrescentando com o seu modo de estar e de subsistir mais uns quantos procedimentos avariados, escândalos em cadeia, corrupções e desmazelamentos sem conta, o que vem dificultar o viver já de si ruidoso e ruinoso do País.
Além de muitas outras e minuciosas dificuldades diárias que seria fastidioso descrever, Portugal, natural habitat dos «Complicadores», tem vindo a assistir a um fenómeno de todo desconjuntado, que cheira a esturro e gordura seca como uma torradeira cheia de ferrugem, prova do excelente coeficiente de inteligência desta classe de gente: – Os «Complicadores» conseguiram influenciar todas ou quase todas as figuras institucionais, incluindo os circunspectos juízes, procuradores e advogados, fazendo de todos grafonolas enfadonhas que se exibem na televisão, mostrando as rasgadas “cortinas de musselina” das instituições, bem como as paredes dos sistemas organizativos a cair aos bocados… Tudo isto, enorme suplemento de confusão a balancear no cabide da actual crise, é sempre diariamente aquecido com outras peças de roupa suja, perdão, de pessoas (dirigentes de vários níveis, jornalistas e meios de comunicação social) prontas a confundir e baralhar, que aparecem pelos cantos governamentais ou bancários, debaixo das cadeiras das instituições regionais, pelos nichos municipais, a falar de forma chocante como quem quer projectar um aborrecido filme sobre estudos político-sociais, mas não consegue adaptar os buracos da fita aos pequenos dentes do projector!
Já no fim da conferência de imprensa, alguém do público assistente perguntou a um velhote a seu lado, apontando o representante dos «Complicadores»: – «O que se há-de fazer? Quem nos vai aconselhar? Como vamos conseguir livrar-nos dos “Complicadores?”». O velho ao lado, tal e qual chefe de escuteiros experimentado, respondeu: – «Então querem livrar-se deles? Vocês são ingénuos! Agarram os problemas, com casca e tudo, como se fossem uma banana… Pergunta-me o que havemos de fazer? – Meter-se em sarilhos! A única maneira de uma pessoa se livrar de um sarilho, como o são os “Complicadores”, é meter-se noutro! Toda a gente esquece o primeiro sarilho e, assim, ele fica no desemprego, sem que alguém lhe sopre o pó do fato e o queira de volta! … Portugal precisa de um 2º sarilho! É preciso encontrar apenas um “sarilho a dias” uma vez por ano… Alguma coisa parecida com a “descoberta do caminho marítimo para a Índia”!».

