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MITO & REALIDADE . 53 – Terror e Morte em Lisboa – 53 -por José Brandão

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E quanto ao sidonismo e à morte de Sidónio? O que pode ser dito?

Antes de tudo, porque a ele estiveram ligados personagens que vêm do tempo da Carbonária regicida de 1908 e que passarão ainda ao capítulo seguinte, o da noite trágica de 1921. Machado Santos, o chefe carbonário, heroico revolucionário de 5 de Outubro de 1910, e José Carlos da Maia, também carbonário, também herói célebre da Revolução Republicana, apenas alcançaram ser ministros após a revolta de dezembro de 1917 chefiada por Sidónio Pais. Acabarão por se desiludir e abandonar o presidencialismo sidonista, passando à oposição ao mesmo.

No que respeita ao homem que assassinou Sidónio País as coisas também não serão muito claras. Libertado, em 19 de outubro de 1921, por um grupo ligado à revolta da Noite Sangrenta, só muito mais tarde José Júlio da Costa voltará a ser preso, e desta vez para sempre. Um indivíduo chamado António Maria Fernandes, morador no Bairro de Alfama, decidira dar caça ao matador de Sidónio Pais. Na posse de um salvo-conduto passado pelo Ministério do Interior, que lhe permitia, se necessário, requisitar o auxílio da Guarda Republicana, este ignorado funcionário público pôs-se a percorrer o País e, depois de ter estado em Garvão e no Algarve, consegue saber que José Júlio da Costa se encontrava numa pensão para os lados de Matosinhos, para onde se dirige, acompanhado de um irmão de Júlio da Costa.

Na sexta-feira, 14 de janeiro de 1927, o prédio onde se situa o Hotel e Café Central de Matosinhos está cercado pela Guarda Republicana e o proprietário, Alberto Midões, não terá muitas dúvidas em resolver o assunto, entregando José Júlio da Costa aos seus captores.

Na manhã de sábado, Júlio da Costa segue preso para Lisboa num compartimento reservado numa carruagem de segunda classe, e, ao chegar à Estação de Entrecampos, deixa tudo espantado com o seu aspeto trôpego e extravagante. Curvado, pálido, com uma mão no bolso, vestindo um sobretudo engelhado, por detrás do qual se vê um colete branco e uma camisa alaranjada, a completar com um chapéu alvadio amarrotado e umas botas amarelas, José Júlio da Costa é metido num carro celular, que segue em direção à Avenida Duque de Ávila, para depois tomar o caminho do quartel de Caçadores, em Campolide. À frente vai uma companhia da GNR a cavalo e atrás segue outra. O homem que comanda esta operação chama-se Agostinho Lourenço. Fora governador civil de Leiria no tempo de Sidónio e era agora chefe da Polícia Política que a ditadura do Estado Novo começava a ensaiar.

Às oito horas da noite de 28 de janeiro de 1927, José Júlio da Costa dá novamente entrada na Penitenciária de Lisboa, vindo a morrer louco, 19 anos depois, no dia 16 de março de 1946, no manicómio Miguel Bombarda, em Lisboa, referindo a sua certidão de óbito que se tratou de morte por «esquizofrenia».

Como se comportou durante esses anos? Que conversas teve com carcereiros e enfermeiros? Que impressões guardaram dele os companheiros de cárcere ou das horas de passeio na cerca do Miguel Bombarda? Não se sabe. Guardas e enfermeiros, presos e loucos todos morreram, entretanto. E os que não morreram esqueceram-se. A morte e o esquecimento são as duas grandes notas dominantes na história do carrasco do presidente Sidónio Pais. O homem que, na noite de 14 de dezembro de 1918, conseguiu a celebridade que procurava não a pagou com a vida, como seria de esperar, como ele próprio esperava. Pagou-a com o aniquilamento da sua personalidade e do seu nome e com a dúvida que deixou para sempre a seu respeito. Alguém quis que assim fosse. Mas quem?

Diz-se que Júlio da Costa foi durante muito tempo protegido e amparado por Ana de Castro Osório, ilustre republicana, colaboradora de Afonso Costa e fundadora da «Liga Republicana das Mulheres Portuguesas».

Outros, como Rocha Martins, acusam destacadas figuras do Partido Democrático de estarem por detrás da cobertura que durante longos anos protege o assassino de Sidónio Pais.

Sidónio Pais está morto; com ele morreu muito do que era o sidonismo, mas nem tudo acabou com a sua morte.

«Tornará feito qualquer outro» – escrevia, em 1920, o poeta Fernando Pessoa, numa série de poemas dedicados «À Memória do Presidente-Rei Sidónio Pais».

A ideia do sidonismo continuaria presente no pensamento de muitos que nunca esqueceram D. Sebastião.

«Súcia de imbecis que somos (perdoem que o diga), súcia de feiticistas das palavras a quem as palavras bastam, súcia de adoradores do Verbo que se não fez carne nem peixe mas que se pode fazer peixe-espada, súcia de escravos vis sobre que os aventureiros trepam, às escaladas inconfessáveis e às torpezas sem nome!», dirá Raul Proença, março de 1924. «E assim estamos preparando inconscientemente, por um processo psicológico, no mais íntimo recesso das nossas almas sebastianistas, o ambiente para aquela ditadura desconhecida, para aquela tirania ainda anónima de Encoberto, para o mistério, o inominado, a grande sombra e pesadelo do dia de amanhã. Estamos chocando todos, mais ou menos, o grande aventureiro».

Como dirá mais tarde António Granjo: «O Sidonismo baldeou a Nação como uma tempestade baldeia uma folha.

«As prisões atulharam-se; fez-se o espírito de ódio e retaliação; reduziu-se a opinião pública ao critério policial; consagrou-se a delação; cultivou-se a violência; animaram-se os sentimentos de cobardia e defeção; e, quando está vamos em guerra com país estrangeiro, refreou-se a impulsividade heroica da raça. O sidonismo foi, sob o ponto de vista interno, a aliança com os monárquicos; sob o ponto de vista da guerra, a aliança com os germanófilos.»

Como sucede com a Noite Sangrenta, também no sidonismo não faltam versões da mais variada índole. Republicanos afonsistas, monárquicos restauracionistas, Maçonaria, regular ou carbonária, existe de tudo um pouco na análise do sidonismo e do assassinato do seu chefe.

O Presidente seguia para o Norte naquela noite de 14 de dezembro. O Porto agitava-se entre o extremismo das Juntas Militares do Norte, que pensavam já na sucessão de Sidónio, e o extremismo de quantos em redor do derrotado Partido Democrático conspirava para o derrubar. Ou seja; monárquicos e republicanos na mesma onda.

Da parte dos primeiros fala-se de um telegrama cifrado, expedido do Porto, mas ninguém o consegue decifrar; está completamente ininteligível. O telegrama chegou indecifrável e não pôde ser entendido. Nunca se soube como puderam alterá-lo depois de expedido da estação do Porto e enviado no próprio dia 14. Se alguém pudesse nos dias que se seguem, descobrir quem alterou o texto da cifra do telegrama, talvez fosse menos misterioso o que vai passar-se em Lisboa, nesse sábado, 14 de dezembro de 1918.

Quanto aos republicanos aponta-se a criação de uma loja maçónica precisamente para combater Sidónio. Essa loja, denominada «Portugal», funcionava na rua Cadet, em Paris, e alguém ia pondo o Coronel Vasco de Carvalho, que estava colocado na Legação local, a par do que se passava na referida loja.

Uma das acusações mais badaladas pelos sidonistas sobre a responsabilidade direta da Maçonaria na morte do presidente Sidónio é a que cita o depoimento de filiados naquela associação secreta e que vem contada pelo escritor inglês N. H. Webster, em Secret Societies and Subversive Movements. Segundo ele, vários maçãos portugueses moderados declararam em 1919, a um seu «irmão» da loja inglesa, que haviam cortado todas as relações com a Maçonaria portuguesa, «por esta estar controlada por assassinos e implicada na morte de Sidónio Pais». É do capitão Teófilo Duarte esta alusão. (Teófilo Duarte, Sidónio Pais e o Seu Consulado, p. 266.)

De um filho de outro capitão sidonista, Solari Alegro, surgem alusões idênticas. Num livro editado recentemente pode ler-se:

«Também no número do dia 10 de janeiro de 1919 do jornal espanhol El Debate transcreve-se um longo artigo da publicação francesa La Croix, de Paris, sobre o acontecimento.

Aí se dá conta da existência de uma «Venta Suprema» dos carbonários da Península Ibérica, presidida por um dos altos dignatários do grande Oriente de Madrid, mas mais eficiente do que este último. Refere o mesmo artigo de La Croix que já em março de 1918 a «Venta Suprema» tinha condenado à morte Sidónio Pais e mais cento e quarenta e seis dos seus colaboradores, designados como seus «cúmplices» na defesa do catolicismo em Portugal e na severa repressão dos marinheiros revolucionários.

Não foi fixada data para a execução nem designado ninguém para a prática do ato, ficando esses pormenores para decidir em momento oportuno.

Em 30 de novembro de 1918 teve lugar nova reunião da «Venta Suprema» numa casa na rua Santa Brígida em Madrid. Nessa reunião foi ponderado que, depois do fracasso da revolução de 12 de outubro e da greve revolucionária de novembro, seria inútil qualquer tentativa para derrubar o regime através duma revolução, dada a enorme popularidade de Sidónio Pais. Em face disso decidiu-se alterar a ordem: havia que matar primeiro o Presidente e fazer depois a revolução.

Foram enviadas as convenientes ordens secretas para Lisboa mas algo transpirou no sentido de que seria aproveitada a ida de Sidónio Pais ao Porto.» (José Luciano Solari Alegro, Para a História da Monarquia do Norte, Lisboa, 1988, p. 67).

Novamente muita opinião, poucas certezas.

 

 

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