SALAZAR E A I REPÚBLICA – 39 – por José Brandão

António de Oliveira Salazar era um nome cada vez mais badalado nas diversas instâncias relacionadas com o Poder. Diz-se que, durante o consulado de Sidónio Pais, alguém teria falado de Salazar ao Presidente. Sidónio, antigo professor de Coimbra, antigo ministro das Finanças, teria pedido a um amigo de Viseu que sondasse o novo professor sobre a possibilidade da sua ida para ministro daquela mesma pasta. Esse amigo escrevera a Salazar e, em resposta, ele agradeceu muito a honra do convite, mas não se sentia ainda suficientemente preparado para poder aceitar tal encargo. Ninguém viu tal carta, mas sabe-se que ela existe em poder de herdeiros do destinatário.

Ainda em princípios de 1918, estando o país envolvido na Grande Guerra, fica Salazar isento do serviço militar com «baixa por incapacidade física» não se sabendo qual o problema alegado. Opinião diversa tem Franco Nogueira para quem: «Na altura, Salazar tinha mais uma ocupação: o serviço militar. Havendo pedido no ano anterior o adiamento da sua incorporação, frequentava agora (Janeiro de 1918) a escola prática de oficiais milicianos.»

Entretanto, Salazar tomou posse do lugar de professor catedrático de Ciências Económicas, da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. E a 6 Julho é anunciado pelo semanário Ilustração Católica como «um dos mais ilustres professores» de Coimbra, «que dentro em breve o será do país»

Em Junho de 1918 Xavier Esteves e Machado Santos abandonam o executivo sidonista. São substituídos por Mendes do Amaral e Fernandes de Oliveira. A questão prende-se com o escândalo da compra das 33 500 acções da companhia dos caminhos-de-ferro. Xavier Esteves, alvo de críticas a propósito do preço estabelecido pelo Estado, por sua determinação, decide a aquisição de um lote de acções dos caminhos-de-ferro. Machado Santos, com o concurso de Cunha Leal, pretendia submeter as empresas ferroviárias a uma disciplina mais eficaz, reorganizando os serviços estatais de fiscalização, tendo, por isso, uma viva oposição da administração da CP. Machado Santos tem a ideia de prender os administradores da CP, até que Cunha Leal restabelecesse a normalidade ferroviária. Os administradores, avisados do que ia acontecer, dirigem-se ao Presidente. Muito ligados ao unionismo, e apesar dos homens de Brito Camacho estarem já em rota de colisão com o sidonismo, Sidónio Pais desautoriza Machado Santos, o que acarreta a sua demissão.

Por esta altura, Machado dos Santos entrava abertamente na contestação ao sidonismo. A excessiva abertura que Sidónio estava a conceder aos monárquicos levava o promotor da República a ficar preocupado.

Ultimamente, defendia a opinião de que era necessário estabelecer urgentemente relações com os verdadeiros republicanos.

Vasconcelos e Sá acusava-o, então, de estar a querer pactuar com o regime que o havia levado à prisão em tempos atrás.

«Sim, senhor! Estou pronto ainda a pactuar com ele; eu que fui preso… O senhor é que não está, apesar de nunca ter conseguido que o prendessem!», responderá Machado Santos.

O homem da República já não podia suportar mais o que se estava a passar. Lamentava-se das ingerências do Conselho Económico, organismo todo-poderoso que Sidónio criara para contento de meia dúzia de super-ricaços, entre os quais se contavam o industrial Alfredo da Silva, o poderoso lavrador António Cidrais, o visconde Ferreira Lima e o antigo ministro da Fazenda do último Governo monárquico, Anselmo de Andrade.

Machado Santos desligar-se-á de tudo o que o prende ao Governo sidonista e abandonará, até, o partido de Sidónio, recolhendo-se a uma pequena casa que conseguira para os lados do Estoril.

Estávamos, então, em Julho de 1918. Quando o Verão se fazia sentir na tranquilidade dos seus dias, Sidónio estava intranquilo na sua aventura. Ao fim e ao cabo, talvez a quisesse republicana, mas, na verdade, só os monárquicos a apoiavam. Estava rodeado de monárquicos por todos os lados e já poucos eram os republicanos que se queriam ver com ele.

José Carlos da Maia, republicano da primeira hora, abandonara a pasta da Marinha. Desgostoso com determinados aspectos da política seguida pela nova situação que ele ajudara a fundar, mas que não via levar o caminho que sonhara, escrevera uma carta a Sidónio, pedindo que o dispensasse, e afastou-se.

Para o seu lugar entraria um monárquico que publicamente declarava nunca vir a abdicar destas convicções. Chamava-se João de Canto e Castro Silva Antunes e seria Presidente da República dois dias depois de Sidónio Pais ser assassinado.

Mas não era só Canto e Castro que fazia o sidonismo defumar a realeza.

Da pasta da Guerra tinha saído Vasconcelos e Sá, outro republicano histórico, para dar entrada ao tenente-coronel de Cavalaria, Álvaro César de Mendonça, filho de um ajudante do rei D. Carlos e partidário declarado do antigo regime. Igual filiação política caracterizava o secretário de Estado do Comércio, Azevedo Neves, professor da Faculdade de Medicina de Lisboa, e Fernando de Oliveira, que mantinha a pasta da Agricultura.

O rol dos monárquicos ocupando altos cargos no aparelho de Estado sidonista era, de facto, impressionante.

Alfredo Pimenta, ex-anarquista, ex-republicano, ex-evolucionista, virado monárquico ao tempo da ditadura de Pimenta de Castro, podia vangloriar-se, dizendo, sem receio de ser desmentido: «Isto que está, já não é República, não sendo ainda Monarquia. Já não é República, porque lhe falta Afonso Costa. Ainda não é Monarquia, porque lhe falta o rei.»

O Presidencialismo estava a sair caro a Sidónio Pais e à República que o fizera Presidente.

É ainda o mesmo Alfredo Pimenta quem, a propósito da nova situação criada pelo sidonismo, diz o seguinte:

«Quero acreditar que estejamos numa nova República e, pela minha parte, confesso que contra esta nova República não senti ainda a mais pequena animosidade ou oposição.

Há quem se queixe. […] Eu aplaudo.»

Os monárquicos, como era de esperar, inclinar-se-iam para a posição que lhes parecesse mais anti-republicana e essa era, para eles, a defesa pública do presidencialismo.

Na conferência realizada no Salão Nobre da Liga Naval Portuguesa, na noite de 26 de Fevereiro de 1918, Alfredo Pimenta, ao tempo um dos teóricos mais evidentes dos realistas colocara a questão do seguinte modo: «Entendo que os monárquicos devem individualmente dar todo o apoio e aplauso, escrito e falado, ao princípio presidencialista.»

«É preciso», diria ainda Pimenta, «impedir que o Sr. Sidónio Pais saia do Poder, concorramos individualmente a dar-lhe a força precisa.».

«A República ou é parlamentar […] ou é presidencialista e, então, deixa de ser autêntica República. Os presidencialistas não são republicanos puros, são republicanos monarquizados.

Oxalá triunfe o princípio presidencialista!»

27 de Junho de 1918. Sidónio Pais, num clima de descompressão nas relações entre o Estado e a Igreja Católica, recebe o enviado papal, Monsenhor Ragonesi. Francesco Ragonesi (1850-1931) era o núncio apostólico de Espanha. Quarta-feira, 10 de Julho. Continuando uma política de aproximação entre o Estado Português e a Igreja Católica, é restabelecida a Legação de Portugal junto da Santa Sé.

25 de Julho. Monsenhor Aloísio Mazella assume as funções de Encarregado de Negócios da Santa Sé em Lisboa.

3 de Agosto. Debate no Parlamento sobre o problema religioso, que provocou grande agitação, e o seu encerramento três dias depois.

Entretanto, a situação no Porto tornava-se cada vez mais confusa. Sidónio decide ir ele próprio à capital do Norte e tentar resolver pessoalmente os problemas levantados pelas Juntas Militares.

Em apenas um ano, Sidónio virara dos pés à cabeça toda a vida política portuguesa. Se é República ou Monarquia, pouco importa para o presidente-rei , que governa o País conforme entende e lhe apetece. Mas vai ser por pouco tempo.

– «Mataram o Sidónio! Mataram o Sidónio!»

Um homem de capa alentejana, que umas horas antes jantara no Restaurante Silva, tinha acabado de disparar contra o presidente Sidónio Pais.

Limitara-se a empurrar um dos polícias da dupla fila do cordão de segurança e a disparar a sua arma sobre o presidente, que mal tem tempo de reagir. Sidónio Pais ainda faz um gesto, na intenção de sacar o revólver que trazia no bolso esquerdo do capote militar. Porém, um segundo tiro acerta-lhe em cheio e fá-lo cair no limiar da porta que procurava transpor.

É tudo tão rápido que só por mero acaso o autor dos disparos foi preso no local. Na infernal confusão, a Polícia e a Guarda acometem o justo e o pecador, distribuindo coronhadas ao acaso e desencadeando um furioso tiroteio, que atinge tudo o que está perto.

Fugia-se em todas as direcções, para escapar às espadas e aos sabres que não diferenciam ninguém na sua fúria vingadora. Uns refugiam-se nos comboios, outros escondem-se dentro do túnel da estação e outros, ainda, metem-se entre os fardos de bagagens e de mercadorias acumulados no cais. O próprio irmão do presidente é acutilado, no meio de todo este pandemónio.

No chão, Sidónio Pais agonizava, perante os esforços infrutíferos do capitão Carneira, que tenta, a todo o custo, salvar a vida do presidente, protegendo-o com o seu corpo do tiroteio a que se assiste.

Tal como há oito anos sucedera com o rei D. Manuel, que, no dia da Revolução de 5 de Outubro de 1910, se preparava também para seguir com destino ao Porto, Sidónio Pais já não chega a iniciar a sua viagem para a capital do Norte.

A D. Manuel II, último rei de uma dinastia que vê culminar o seu tempo na História de Portugal, restar-lhe-á um exílio de tranquilidade, que nas praias da Ericeira tem o seu princípio.

A Sidónio Pais, primeiro presidente de um autoritarismo que começou com ele e continuou para além dele, o destino garante-lhe a frieza de um túmulo que as balas de um desconhecido lhe reservam nessa noite de 14 de Dezembro de 1918.

O assassinato do mais espectacular e carismático presidente saído de um movimento revolucionário militar vem pôr a nu as incertezas de um regime que nos momentos decisivos não sabe para que lado se virar. É o drama de uma Nação que faz da morte um exercício cabalístico que obnubila para a eternidade os grandes crimes da história lusíada.

Morto Sidónio, saltam imediatamente para a grande parada das conspirações todos os propósitos de tomada do poder. Paredes-meias com a câmara mortuária onde repousa o cadáver de Sidónio, realiza-se uma reunião dos chefes militares, com o fim de deliberar sobre os destinos a dar à Nação, órfã. do seu mais recente protector supremo. Alguns reclamam pela constituição imediata de um Governo militar. Outros pronunciam-se pela restauração da Monarquia.

Canto e Castro, ministro da Marinha no Governo de Sidónio, é o novo presidente escolhido. Monárquico, que não esconde as suas convicções, não satisfaz, porém, os sonhos dos realistas mais fanáticos no regresso de Sua Alteza ao trono real.

A maioria dos monárquicos parecia acreditar numa espécie de oportunidade histórica que lhes animava a alma coroada. As juntas militares formadas no Porto, e que já causaram algumas dores de cabeça a Sidónio Pais, representavam certamente uma das razões que trazia os realistas a sonhar alto.

Com os seus heróis lendários à cabeça, não demorou muito que a reacção monárquica viesse para a rua tentar voltar a sentar o rei na cadeira abandonada à pressa em 5 de Outubro de 1910. Paiva Couceiro, João de Almeida, Solari Alegro, o visconde do Banho, o conde de Azevedo, e tudo o que jamais esqueceu o fausto da realeza, empenha-se denodadamente na mais ousada de todas as tentativas de pôr ponto final ao «reinado republicano».

Mas se por um lado os monárquicos tratavam de dar melhor curso à sua vida, por outro, os republicanos não estavam de modo algum a dormir como uns anjos.

Antes mesmo de ter rebentado a grande ofensiva nortista dos seguidores da Coroa, apareceu na confusão uma série de acções de grupos republicanos, que pretendiam deste modo contrariar o que parecia estar iminente para as bandas dos monárquicos.

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