Um outro tema bastante caro aos afeiçoados do despotismo sidonista tem a ver com a actuação da Censura durante o consulado do Presidente Sidónio Pais.
Sidónio, logo a seguir ao seu golpe de Estado, aboliu a censura de guerra, com o objectivo de conquistar as simpatias dos jornais para a sua causa, ainda a dar os primeiros passos.
Na realidade, tal «benesse» foi sol de pouca dura e passadas poucas semanas a censura volta, mas agora não só para assuntos referentes à guerra como alargada a tudo o que possa incomodar a estabilidade sidonista.
Bem vistas as coisas, nunca a imprensa e a liberdade de expressão encontraram qualquer candura nos propósitos sidonistas.
Os polícias de Sidónio não paravam de descobrir conspirações. Qualquer encontro menos ortodoxo para os janízaros do Presidente era logo tido como uma perigosa conspiração contra a sua vida ou contra o seu regime de salvação nacional.
Nos primeiros dias de Setembro, Sollari Allegro diz ter descoberto uma intentona em Lamego e atulha as prisões de gente considerada suspeita.
Em Lisboa, o chefe da Polícia política sidonista, José Duarte Costa, monárquico e antigo colaborador de Rocha Martins no Jornal da Noite, proclama, igualmente, ter desmontado uma outra marosca contra o regime.
Através do polícia n.º 1610, que Duarte Costa conseguira infiltrar no grupo conspirador, a Polícia preventiva diz ter descoberto um esconderijo de bombas, punhais e latas de pólvora, que um tal africanista, de nome Joseph Brandão, se afoitara a guardar numa quinta de sua propriedade, para os lados do Alto da Caparica.
Rocha Martins diz ter sido um filho mulato do Brandão quem indicou à Polícia o local onde se encontrava enterrado o «material».
A Preventiva alega tratar-se de um vasto plano insurreccional para rebentar a 15 de Setembro, chegando os conjurados a reunir-se na Quinta dos Capuchos, na Caparica, e na sobreloja do n.º 88 da Rua da Madalena, em Lisboa.
Não havia qualquer hipótese de fazer o ninho atrás da orelha aos eficientes polícias de Sidónio.
Glosando a repressão sidonista, o Manifesto que o Partido Democrático publica no dia 5 de Outubro de 1918 dizia:
«As prisões regurgitam de cidadãos, que são soltos por que estão presos, e que voltam a ser presos porque estão soltos.»
Às sete da manhã do dia 12 de Outubro, a cidade de Coimbra acorda debaixo de uma revolução constitucionalista, que trazia para a rua o Regimento 35, disposto a bater-se contra a autocracia do presidencialismo sidonista.
O general Jaime de Castro, comandante da Divisão, é preso pelos revoltosos e o alferes Sidónio Pais, filho do Presidente, é corrido a tiro pelas ruas da cidade.
Sidónio contacta por telefone com o chefe militar da revolta, coronel Alexandre Mourão, e ordena-lhe que mande imediatamente regressar os soldados do 35 aos quartéis e que se apresente sem demora em Lisboa.
O coronel Mourão ignora o Presidente e continua com o seu pessoal na rua, indiferente às ameaças de Sidónio, que o intimida com o envio de tropas de Lisboa, do Porto e de Penafiel.
Entretanto, em Lisboa e no Porto a revolta coimbrã não consegue encontrar a adesão que esperava. Apenas em Évora se vê secundada pela movimentação das tropas locais. Aqui, o comandante da Divisão, general Mouzinho de Albuquerque, é preso e o coronel Pereira da Silva, comandante de Cavalaria 5, encontra a morte ao querer resistir aos revoltosos.
A cidade encontrava-se toda nas mãos dos revolucionários, capitaneados por Estêvão Pimentel, um republicano do 5 de Outubro. Os operários estavam armados; mas, inesperadamente, recusam-se a seguir os chefes políticos da revolta, afirmando-se dispostos a promover unicamente um «movimento sindicalista de tipo sovietista» e mandam à fava a revolução política.
As tropas leais ao Governo, comandadas pelo tenente-coronel Silva Reis, acabariam por entrar em Évora sem encontrar resistência de maior.
Em Coimbra, quando as forças do coronel monárquico João de Almeida chegam aos arredores da cidade, já o coronel Mourão tinha parlamentado com o comandante de Infantaria 23 e desaparecido durante a noite.