Todo homem tem duas pátrias, a sua e a França, disse Thomas Jefferson. Neste domingo, 11 de janeiro de 2015, Paris foi a capital do mundo. E os olhos do mundo viram o inimaginável: multidões nas ruas não só da França, também em Roma, em Madrid, em Berlim, em Moscou, em Nova York e em Londres, onde a National Gallery foi pintada de Bleu, Blanc, Rouge num belo gesto de solidariedade aos franceses. E Solidariedade foi a palavra que muitas vezes apareceu iluminada no meio do povo parisiense, unificado e irmanado numa demonstração de cidadania jamais vista ou sequer sonhada. Quase dois milhões de pessoas sem nenhum incidente, ora em silêncio, ora cantando a Marselhesa, com milhares de cartazes que diziam Je suis Charlie, ou Somos Todos Charlie, ou ainda: Eu sou Judeu, Sou Muçulmano, Sou Polícia e Sou Charlie. Vi um cartaz que trazia os versos do poeta Paul Éluard: Nasci para te conhecer / Para te nomear / Liberdade.
E de tudo que se ouviu e viu é possível concluir que essa liberdade não aceita censura, não admite limites. A liberdade da cultura francesa é um poderoso Absoluto. No mundo em que nada mais é sagrado e até mesmo o que é sagrado para alguns pode ser desmitificado e ridicularizado pelos caricaturistas do tabloide Charlie Hebdo, só é sagrada a liberdade de opinião e de expressão. Irreverentes, provocadores, muitas vezes de mau gosto ou exagerados, eles exerciam e continuarão a exercer o direito antiquíssimo de criticar pelo riso. Um riso sem ódio, porém, como se afirmou tantas vezes. Riso demolidor, é verdade, desrespeitoso e desmoralizador de tudo o que é rígido, empedernido, pomposo e talvez falso. Mas desrespeito não é ódio. Lápis e canetas não matam. Nada justifica, absolutamente nada justifica o assassinato dos desenhistas e artistas que, na reunião de pauta da última quarta-feira, programavam um número do jornal contra o racismo!
Aristófanes, comediógrafo grego, encenou em 423 A C, uma peça satírica, intitulada As Nuvens, na qual ridicularizava Sócrates identificando-o injustamente com os sofistas. Ninguém o puniu. Os bufões ou bobos da corte sempre tiveram total liberdade para fazer troça de seus próprios amos e reis. Nenhum foi assassinado.
Mais tarde, na celebração da Maison de la Radio, que se seguiu ao congraçamento das ruas, Cohn Bendit, o herói de maio de 68 e ex deputado do Parlamento Europeu citou um provérbio judeu segundo o qual “se você precisa escolher entre duas coisas, por exemplo, o ódio e o medo, escolha uma terceira” para dizer que Paris escolheu a terceira que podemos reconhecer naquela esplendorosa manifestação de união, naquela consagração da força moral da liberdade. E a grande preocupação foi sempre a de distinguir o terrorismo de distorcida e doentia inspiração islâmica do islamismo. Um pesquisador e estudioso do Islã, Olivier Roy, declarou numa entrevista ao Le monde, de 9 de janeiro, o que é importante esclarecer: “Não existe comunidade muçulmana, mas uma população muçulmana. Admitir essa simples constatação já seria um bom antídoto contra a histeria do presente e do futuro.” Há muçulmanos laicos e há muçulmanos religiosos, mas nenhuma religião incita ao ódio. Na passeata gigantesca, dizia outro cartaz: Deus é Amor e Humor. E alguém gritou: a religião existe para que nos amemos todos!
Mas também sabemos que amar o diferente não é tarefa fácil. Há uma arraigada desconfiança entre o Ocidente e o Oriente. O livro indispensável a uma compreensão maior desse problema foi publicado pelo palestino Edward Said, em 1978 e republicado em 1994. Chama-se Orientalism e revela o quanto o Ocidente, ao longo dos séculos, foi preconceituoso e arrogante em relação ao Oriente e o quanto somos todos responsáveis pelas dificuldades que enfrentamos ainda hoje no que se convencionou chamar de choque de culturas. Said diz que na moderna teoria da cultura, um dos maiores avanços foi a tomada de consciência de que as culturas são híbridas e heterogêneas, todas estão inter-relacionadas e são todas interdependentes. Dá como exemplo os Estados Unidos, esse “enorme palimpsesto de diferentes raças e culturas compartilhando uma problemática história de conquistas, extermínios e certamente um maior desenvolvimento político e cultural.” Nem precisamos falar do desenvolvimento tecnológico diretamente responsável pelas mobilizações que a comunicação das redes é capaz de desencadear.
No entanto, apesar da globalização, ou por causa dela, temos de enfrentar os excluídos e revoltados, os que se transformam em terroristas. E a vigilância e a repressão tem-se mostrado ineficazes para combatê-los ou vencê-los. Que podemos fazer? – Criar escolas de cidadania, diz Cohn Bendit. Acabar com o isolamento nas periferias, criar condições para que os jovens muçulmanos da França, por exemplo, convivam com todos os outros, com os ateus, com os católicos e com os judeus. Precisamos educar para a fraternidade e a solidariedade. Precisamos aprender e ensinar a conviver.
Edward Said também disse que usava teimosamente a palavra Humanismo, apesar do desprezo com que a crítica pós-moderna havia tentado eliminá-la. Pois bem, que a lição de humanismo e sabedoria dada pela França e pela Europa no domingo, 11 de janeiro, frutifique em medidas reais e eficazes de aproximação entre as culturas e os cidadãos.