CARTA DO RIO – 77 por Rachel Gutiérrez

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    Mais uma vez preciso adiar minha visita ao século XIX e aos personagens da história de amor que a escritora Ana Maria Machado narrou em seu último romance. Minha simpatia pela França e o horror ao mal absoluto que o terrorismo parece encarnar falam mais alto. Simpatia é a palavra justa porque considero que, de acordo com sua origem grega, significa sofrer semelhante ou sentir junto. Por isso, “minhas simpatias” em inglês quer dizer: minhas condolências.

     O mundo inteiro, mais uma vez, precisou enviar condolências e a solidariedade que agora se chama Je suis Paris. Obama disse que os ataques não foram apenas contra Paris e a França, foram contra a humanidade e os valores que todos respeitamos; Cameron disse em bom francês “estamos todos juntos” (nous sommes tous ensemble); o presidente da Tunísia disse que a Cidade Luz foi  atacada pelo obscurantismo; e falaram Angela Merkel, pela Alemanha, Renzi, pela Itália, Rajoy, pela Espanha. Em todo o planeta as torres de televisão, teatros e monumentos e, entre eles, a ópera de Sidney e o nosso Cristo Redentor se vestiram de Bleu, Blanc, Rouge.  A França está de luto, o mundo está de luto.

     Não pensei que voltaria a esse tema terrível apenas dez meses depois daquele domingo, 11 de janeiro, quando em grandes passeatas “não só na França, (…) em Roma, em Madri, em Nova York e em Londres …” gente do mundo todo havia dito Je suis Charlie, após os assassinatos dos jornalistas do Charlie Hebdo. Foi então que ao lembrar a famosa frase de Thomas Jefferson segundo a qual “todo homem tem duas pátrias, a sua  e a França” antecipei o que disse agora Barack Obama sobre os valores da humanidade inteira: liberté, égalité, fraternité. Valores ou ideais muito difíceis de serem respeitados pelos próprios norte-americanos, que interferiram no Iraque ( tão desastradamente ), na Líbia e no Afeganistão, sem esquecermos a Jordânia, a Turquia etc., questões por demais complexas de sua emaranhada política externa, que não cabem numa simples Carta do Rio.

     Para justificar os massacres da sexta-feira 13, o “Estado Islâmico” afirmou estar respondendo aos recentes ataques da França na Síria. Não Importa! Atos terroristas são a face mais diabólica do mal, do mal absoluto, de um imprevisível poder maligno total. Como evitá-lo ou combatê-lo?

     Quando na Carta do Rio 33, escrevi sobre o 11 de janeiro em Paris, evoquei o pensador palestino Edward Said e sua valiosa análise dos preconceitos e da arrogância do Ocidente em seu magnífico livro Orientalism. Também registrei o que havia dito Cohn Bendit, o inesquecível herói de maio de 1968 e ex-deputado do Parlamento Europeu, sobre a necessidade da França criar escolas de cidadania para os estrangeiros marginalizados nas periferias de Paris. pois tudo indica que é nessas periferias e na situação de marginalizados que se formam os novos adeptos dos extremismos do chamado “Estado Islâmico”, Isis ou Daesh.

     Neste domingo, 15 de novembro, Merval Pereira, Membro da Academia Brasileira de Letras e jornalista, que assina uma coluna quase diária na quarta página do Globo, cita um escritor francês, Gilles kepel ( autor do livro Terror e martírio ) quando este diz que ” a Europa é fundamental na estratégia do Estado Islâmico de ganhar as mentes das sociedades árabes e europeias, a fim de estabelecer conflitos sociais que levem a uma guerra civil, até que o poder total seja conquistado.” E´ o sonho do califado universal. Senti um assustador arrepio ao imaginar todas as mulheres do mundo usando burcas. Mas não é hora de brincadeiras.

     Leio no excelente editorial –  O inimigo é o fanatismo – do Globo de hoje:

          Entre a derrubada das torres gêmeas de Nova York de 2001, e o massacre de sexta-feira em Paris, passaram-se 14 anos. A novidade pós Osama bin Laden é a emergência de uma nova geração do terror. Hoje, múltiplas facções disputam, em sucessivos banhos de sangue, a liderança na condução da bandeira da luta comum, por um novo Califado muçulmano sob a interpretação mais rígida e obscura da Sharia, a lei islâmica.

     A frase seguinte, porém, nos acalma um pouco porque confirma que eles “compõem absoluta minoria extremista do Islã”. Apesar disso, Merval Pereira aponta o moderno papel das redes sociais na cooptação de jovens como esses que atacaram a Casa de Espetáculos Bataclan e vários bistrôs, na noite da última sexta-feira que, segundo testemunhas, falavam francês sem sotaque. Aliás, também não tinha sotaque em seu inglês perfeito, o carrasco Jihad John, que decapitou tantos reféns diante de câmaras de TV, possivelmente morto por recente ataque aéreo norte-americano.

     Revela Merval:

     Por meio do facebook, do youtube e do Twitter, eles cooptam jovens para matar em suas próprias cidades, ou recrutam “soldados” para enviar à Síria e ao Iraque. Textos de doutrina, sobre escolha de alvos e os métodos são enviados pelas redes sociais, e os jovens têm autonomia para escolher onde atacar.

     Angela Merkel disse que eles têm ódio à liberdade. E definiu os bistrôs de Paris como símbolos da vida livre e feliz dos franceses. Também ouvi o elogio do bistrô no depoimento de um escritor francês que se encontra em Berlim e foi entrevistado pela RAI, televisão italiana. Vai-se ao bistrô, disse Marc Augé, para encontrar a namorada ou um amigo, pour prendre un verre (para tomar um copo de vinho), ou simplesmente para ficar sozinho e observar a rua, ou ler ou escrever, para fruir a vida, não mais que isso. Para tudo isso! E foi a simples alegria de viver tão parisiense, tão civilizada, que os terroristas escolheram atacar assassinando inúmeros frequentadores de bistrôs na última sexta-feira, 13.

     De novo vimos velas e flores, colocadas delicadamente diante das portas dos locais atingidos. Vimos pessoas abraçadas, consternadas, assustadas e ouvimos a Marselhesa cantada pelos que saíam do Estádio de Futebol. Ficamos sabendo que entre os gestos de solidariedade, muitas famílias abriram suas portas para abrigar os que não podiam voltar para suas casas e vimos, no dia seguinte, filas imensas de doadores de sangue que correram para acudir os feridos.

     E uma das cenas mais comoventes foi a do pianista amador que levou um pequeno piano de cauda, um estranho crapeau ( sapo, como é chamado na França) no qual tocou várias vezesImagine,  o hino pacifista de John Lennon.

     Em seu depoimento, Marc Augé, aquele francês em Berlim, havia dito que segundo Giordano Bruno, cada lugar do mundo, para o filósofo, é uma pátria. Mais uma vez tivemos de juntar às da pátria francesa as nossas lágrimas.

 

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