A QUANTITATIVE EASING DE DRAGHI: UMA SAÍDA DA CRISE OU O ÚLTIMO PREGO NO CAIXÃO DA EUROPA? – 8. PIOR DO QUE NOS ANOS 30: A RECESSÃO EUROPEIA É NA VERDADE, UMA RECESSÃO, por MATT O’ BRIEN.
joaompmachado
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
A quantitative easing de Draghi: uma saída da crise ou o último prego no caixão da Europa?
8. Pior do que nos anos 30: a recessão europeia é na verdade, uma recessão
Matt O’Brien, Worse than the 1930s: Europe’s recession is really a depression
The Washington Post/Wonkblog, 20 de Agosto de 2014
Fontes: Maddison Project, Eurostat
Como defendi anteriormente está na hora de chamar à zona euro o que ela é: uma das maiores catástrofes na história económica.
Tem havido muitos desses desastres ultimamente. E não é só a grande recessão. É a maneira como lutamos para recuperar o terreno que já perdemos. Os Estados Unidos, por exemplo, tiveram a sua mais lenta recuperação desde o pós-guerra. A Grã-Bretanha teve também o seu período mais lento. Mas, seis anos e meio mais tarde, a Europa distinguiu-se ela própria por ter ainda muito pouco do que se poderá chamar verdadeiramente retoma, seja como for. E, como se pode ver acima, estamos em riscos de estar pior que o pior da década de 1930.
O gráfico acima é retomado de Nicholas Crafts, e alargado um pouco para aí colocar a depressão da Europa, bem, até na pior perspectiva deprimente. O PIB da zona euro ainda não regressou ao seu valor de 2007 e parece que não será assim tão cedo. Na verdade, já não é nada claro se a sua última recessão acabou mesmo antes de termos descoberto que a zona euro tinha novamente deixado de crescer no segundo trimestre. E nem mesmo a Alemanha tem estado a ficar imune: o PIB caiu 0,2% no trimestre anterior.
Este é um verdadeiro desastre induzido pelos políticos. Demasiada austeridade orçamental e muito estímulo monetário deram cabo do crescimento como praticamente nunca antes. A Europa está a fazer pior do que o Japão durante a “década perdida”, pior do que o bloco esterlino durante a Grande Depressão e claramente melhor que o bloco do padrão-ouro de então — embora este aspecto positivo não nos sirva de grande coisa. Isso é assim porque, a este ritmo, só vai haver mais um ano até que a zona euro venha a ficar bem atrás do bloco do padrão-ouro, também.
Então, como é Europa anda a querer ver a Grande Depressão e fazer com que esta se pareça como os bons velhos tempos de crescimento?
Fácil: ignorando tudo o que nós aprendemos com isso.
Naquela época, existiam dois tipos de países: os que tinham deixado o padrão-ouro e aqueles que estavam prestes a fazê-lo. Mas “o estavam prestes a ” pode levar o seu tempo. Isso é porque os governos estavam sentimentalmente ligados ao ouro, mesmo que, como demonstrou Barry Eichengreen, a saída lhes viesse a permitir a recuperação económica. Eles simplesmente consideravam equivalente padrão-ouro e civilização e, desta forma, estavam dispostos a sacrificarem-lhes as suas economias. E sacrificá-las, foi o que eles fizeram. Embora houvesse limites “in extremis”.
A Grã-Bretanha, por exemplo, recusou-se a aumentar as suas taxas para defender o padrão-ouro em 1931, porque o desemprego já era de 20 por cento. E desvalorizou em vez disso e o restante do bloco”esterlino” — Suécia, Finlândia, Noruega, Dinamarca, Portugal e Canadá — seguiram a mesma linha de esperança . A ironia, é claro, é de que esta fragilidade da economia foi bem mais forte. Abandonar o ouro, passar a praticar estímulos orçamentais e monetários que permitiram partir rapidamente a caminho da retoma económica forte e sustentada.
Então também havia os obstinados. Países que tinham muito ouro, como a França, podem ficar no padrão-ouro se quiserem ficar — e foi essa a sua opção. Eles defenderam então a aplicação de orçamentos de austeridade, um após outro, como uma espécie de oferendas ao ouro todo-poderoso e, por isso, pagaram o preço económico. Agora, eles nunca caíram como os EUA caíram fez, mas por outro lado, eles também nunca recuperaram, ambos (linha amarela). O círculo vicioso da queda dos preços, do aumento do desemprego e cortes orçamentais cada vez maiores mantinha-os numa queda sem fim. Até que, ou seja, a França e os restantes membros do bloco “ouro,” que, no seu auge, incluía também a Bélgica, Polónia, Itália, Holanda e Suíça, acabaram finalmente por abandonar as suas ilusões de Midas em Outubro de 1936. Depois, seguiu-se a retoma.
Como eu defendi anteriormente, o euro é o padrão-ouro com autoridade moral. E essa última parte é, na verdade, o problema. Os europeus não pensam que o euro representa a civilização, mas sobretudo a defesa da mesma. É um monumento de papel para a paz e a prosperidade, o que torna esta última impossível. Assim, os eurocratas que passaram as suas vidas a construírem-no nunca foram capazes de o demolir , apesar do facto de que, como está actualmente construído, o euro está de pé entre eles e a retoma das suas economias.
Tal como a década de 1930, a Europa está prisioneira de um sistema de câmbio fixos [entre os seus Estados-membros] que não os deixa imprimir papel moeda, gastar ou desvalorizar a sua saída para poderem sair da crise. Mas, ao contrário de então, a Europa talvez nunca queira desistir. É de uma fidelidade sem falha que nem mesmo o bloco do padrão-ouro nunca poderia ter imaginado. E isso deixa o BCE como sendo a única esperança da Europa — o que significa que eles estão provavelmente condenados.
Agora, para ser justo, o BCE conduzido por Draghi terá feito tanto quanto lhe foi possível dadas os seus condicionamentos jurídicos e políticos. Mas ninguém avalia o desemprego só por uma curva. E estes condicionamentos não estão para desaparecerem mas sim antes para ficarem, pelo menos não o suficiente para evitarem uma ou duas décadas perdida. Em vez disso, o BCE irá provavelmente continuar a fazer o mínimo: um pouco de uma muito tímida quantitative easing que irá imediatamente acabar desde que a Alemanha começar a crescer mais rapidamente.
Eles fizeram um deserto e chamaram-lhe então A Zona Euro.
Matt O’Brien é um repórter do Wonkblog que se ocupa dos assuntos económicos. Anteriormente era um senior associate editor em The Atlantic.