Site icon A Viagem dos Argonautas

UMA CARTA DE JÚLIO MARQUES MOTA À PRESIDENTE DA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA SOBRE A GRÉCIA, SOBRE A ALEMANHA, SOBRE A EUROPA – III

Falareconomia1

(conclusão)

Chegados aqui, vale a  pena  lembrar uma intervenção  de  Franklin Delano Roosevelt dirigindo-se aos lideres republicanos, num seu discurso proferido em Ohio, em 1932. Nessa sua intervenção em Columbus, Roosevelt afirmou:

Dirijo as minhas  observações aos dirigentes  republicanos e questiono-me porque é que foram tão imprudentes na condução dos destinos do país. Temos de saber quais as causas que fizeram entrar toda a nossa estrutura económica e social em colapso.

E numa nota de um extraordinário humor, tomando como base Lewis Carrol e o seu livro Alice no País das Maravilhas, diz-nos então:

A puzzled, somewhat skeptical Alice asked the Republican leadership some simple questions:

“Will not the printing and selling of more stocks and bonds, the building of new plants “No,” shouted Humpty Dumpty. “The more we produce the more we can buy.”

“What if we produce a surplus?”

“Oh, we can sell it to foreign consumers.

“How can the foreigners pay for it?”

“Why, we will lend them the money.”and the increase of efficiency produce more goods than we can buy?”

“I see.” said little Alice, “they will buy our surplus with our money. Of course, these foreigners will pay us back by selling us their goods?”

“Oh, not at all,” said Humpty Dumpty. “We set up a high wall called the tariff.”[1]

“And, said Alice at last, “how will the foreigners pay off these loans?”

That is easy,” said Humpty Dumpty, “did you ever hear of a moratorium?

E a rematar este exemplo, diz-nos Roosevelt:

E assim, meus amigos, nós alcançámos o coração da formula mágica de 1928. A absorção do excedente deve ser feita como eu disse anteriormente, alargando a nossa base produtiva em vez de o destruirmos pelos créditos concedidos[2],[3].”

A fórmula mágica de 1928, que levou à crise  de 1933, é evidentemente equivalente ao que está a ser praticado pela União Europeia, a partir de 2010  e que Munchau, do Financial Times,  chegou a classificar de esquema de Ponzi, uma vez que se tem estado a criar  um castelo de dívidas que não para de aumentar.

Como assinala Michael Pettis, a visão de  Humpty  sobre a  balança de pagamentos, afinal, não é mais ingénua do que a de  muitos políticos europeus e eu suponho que a Alemanha vai seguir o precedente histórico definido pelos EUA – e por  tantos outros países que confundem excedentes comerciais com rigor, com vigor e com  moral . Recusando-se a tomar medidas que superficialmente  parecem  estar a minar  a sua credibilidade, Berlim só poderá vir a garantir  a moratória da dívida que de toda a maneira  demolirá  a sua credibilidade. Ninguém poderá pagar! Sentada numa montanha de dívidas  agora incobráveis  e a exigir que os outros sejam todos eles e ao mesmo tempo virtuosos em termos da balança de pagamentos, todos  eles a terem que ter excedentes comerciais para lhe pagarem,  ou seja, a exigir  a quadratura do círculo. Desta forma,  a Alemanha nada mais faz que degradar a situação económica de todos os seus parceiros, sejam eles seus criados de quarto ou não, seus valetes de primeira ou segunda categoria e, simultaneamente, está a conduzir à  criação por toda a Europa de uma vaga de anti-germanismo e de anti-euro que pode levar à destruição[4] do que foi uma grande construção da segunda metade do século XX: o ter-se aberto  o caminho, mesmo que não tenha sido da melhor maneira,  para uma Europa de paz e de  cidadania, a UEM.

Parece pessimismo a mais, dir-me-ão, mas parece também que esse pessimismo  começa a entrar pelas caves do Bundesbank adentro, como ilustra o diagrama  abaixo onde se mostra para a maioria destes países o peso que assumem os partidos anti-euro, anti-Alemanha.  Com efeito, conforme se assinala  num site americano (ZeroHedge):

“A posição aparentemente  ‘de não-negociação’ do Eurogrupo com a Grécia reflecte uma grande preocupação de que já se  suspeitava – as concessões feitas à Grécia  aumentariam o risco político em vez de o reduzir, encorajando  a anti-austeridade ressurgente e os partidos extremistas anti-euro por toda a  Europa. Com as sondagens em  Espanha e na  França a posicionarem os partidos extremistas à frente nas sondagens, o diagrama  seguinte é provavelmente a visão que  Dijsselbloem mantém na sua cabeça ao longo da noite”., diagrama este que podemos considerar ter sido oferecido, como um aviso, pelo Bundesbank:

O trabalho do Bundesbank mostra bem que pesadas nuvens pairam pois sobre a Europa. Possivelmente face ao crescendo de popularidade de Syriza e ao efeito de contágio sobre os outros partidos anti-euro, os alemães poderão ser levados a pensar que o melhor seria, e concordo plenamente com a hipótese avançada por Michael Pettis anteriormente exposta, então levar à prática a destruição de Syriza. Isto dá sentido ao que se passou de violento na penúltima semana mas estes comportamentos abusivos levar-nos-ão  como consequência quase que  imediata  à  fascização total da Europa e à contra-reacção por parte das populações já saturadas com estas políticas. Como assinala Paul Craig Roberts, antigo subsecretário de Estado do Tesouro nos Estados Unidos, uma  tal situação seria regressar à idade das trevas:

“Esta é “a Nova Democracia” [da Europa]. É uma ressurreição da velha ordem feudal. Uns poucos aristocratas super-ricos e todos os outros a serem seus servos e totalmente obrigados a apoiar a ordem reinante. A pilhagem que começou a ser feita na Grécia espalhou-se para a Ucrânia, e quem se lhes segue?

Poderá a Grécia escapar a uma situação comparável à idade das trevas que se verificou na Europa em que as populações eram devastadas por invasores que as assaltavam? “

E a pergunta a fazer é então: Qual o Parlamento que se manda então incendiar? O Europeu?

Poderemos afirmar que se as Instituições europeias resistirem e conseguirem manter o mesmo modelo que tem sido aplicado desde o rebentar da crise, com a ajuda do BCE e do efeito Draghi, então se a Grécia sair, teremos depois a Espanha a substituir a Grécia, depois a Itália a substituir a Espanha, depois a França a substituir a Itália e (…) porque não Portugal a seguir ou mesmo antes de todos estes? Um modelo que assim funciona também não durará muito tempo. Neste processo, com a Europa a ficar completamente arrasada económica e socialmente e feita pois em pedaços, mostrar-se-á então toda a fragilidade da própria Alemanha. Portanto, em boa lógica a tese do nosso germanófilo está errada e está errada a posição do próprio executivo português, uma vergonha, face ao drama que se debateu e se estava a criar nesse fim-de-semana. Tudo isto a apontar para saídas selvagens que ficam a pairar no ar quando, como mostra Domenico Mario Nuti, a saída seria simples, possível imediatamente e não humilhante para ninguém, ou melhor, dignificante para todos nós, europeus convictos mas que não hesitamos em afirmar que com esta Europa, com estes comportamentos suicidas ou assassinos mais vale estar fora, fora do Euro, fora da vassalagem à loucura alemã. Demência alemã, é do que fala Nuti.

Se não se tratasse de dois dramas, por um lado, o da destruição da Europa pelas políticas coletivas suicidas que a Troika vem impondo aos países em dificuldade na zona euro e, por outro lado, o do silêncio político “ensurdecedor” que face a essa realidade a maioria dos partidos apresenta, mesmo os ditos de esquerda oficial, diríamos que se trata de dois textos que se leriam de um folgo só, e com muito prazer da primeira à última linha. Mas, porque assim não é, diremos que é com muita ansiedade que procuramos chegar à última linha, porque somos levados a reflectir  sobre cada proposição feita por cada um destes dois  autores.

Trata-se pois de dois textos profundamente sérios que se situam nos antípodas do que se vai ouvindo nos canais de televisão e lendo nos nossos jornais. São pois o oposto  da desonestidade intelectual que campeia por essa Europa  e que impede que esta se levante em peso contra  a  destruição massiva que lhe   está a ser imposta em nome da soberania dos mercados e  da verdade que estes produzem na sua fome pelo valor acionista e que a seguir  nos impõem. Essa desonestidade é assumida a dois níveis, primeiramente, por aqueles que recusam o conhecimento científico para se situarem na pura ideologia, a direita pura, diríamos, no segundo, pelos que tendo conhecimento do que se está a fazer, tudo mistificam para se continuar a fazer o mesmo, silenciando também eles a destruição que se está a manter à escala europeia. Por essa via procuram organizar a passividade e o silêncio de povos inteiros. E nessa missão, desviando-nos do essencial cai muita gente, como a maioria dos nossos eleitos. Um exemplo disso, são as reportagens organizadas sobre a Grécia por José Rodrigues dos Santos, em que Atenas parece afinal, uma cidade cheia de piscinas por tudo o que é sítio. O frio chegou, as geadas caíram, e o céu, sempre o Céu, a mostrar que em Atenas se passava o oposto do que afirma o nosso insignificante aprendiz de valete na RTP 1, a mostrar que as pessoas tinham frio e não tinham dinheiro para o aquecimento.

Trata-se pois de dois textos que não deixarão nenhum dos seus leitores insensíveis e nenhum dos nossos eleitos deixará utilmente de ficar incomodado com a respetiva leitura. Aos que se opõem à politica da Troika e aos seguidismos oficiais, terão aqui sólidos argumentos a alimentar as suas convicções, aos outros, aos que se colocam no outro extremo, garantidamente levá-los-ão a terem dúvidas sobre as suas terríveis certezas. E aos restantes, aos que não têm posição, se os houver, como eleitos direi apenas que são em si-mesmos uma contradição, e a não merecerem nenhuma consideração, pelo que politicamente são inexistentes neste nosso objectivo, não fazem parte da nossa equação, ou seja, não cabem nas nossas intenções tê-los como leitores.

Pedindo desculpa pela liberdade tomada, queira aceitar as minhas mais cordiais saudações académicas.

Atenciosamente

 

Júlio Marques Mota

_______

[1] Note-se a semelhança entre a posição de Humpty Dumpty relativamente aos Estados Unidos  e a posição da Alemanha com a sua politica mercantilista, é a seguinte: é necessário criar excedentes na balança comercial. Mas a semelhança vai mais longe: nos Estados criam-se tarifas para importar menos e a rendimento dado , importar menos significa aumentar o excedente. Na Alemanha, a precariedade e a baixa dos salários relativos e reais para grande parte da população, derivadas das leis Hartz cumprem a mesma função:  a rendimento dado consome-se menos, importa-se relativamente menos e aumenta o excedente.

[2] Destruição do excedente pelos créditos concedidos a que se refere Roosevelt, representa no caso da Europa e da Alemanha as dívidas que não poderão ser pagas.

[3] Franklin Delano Roosevelt, Works of Franklin D. Roosevelt, Campaign Address at Columbus, Ohio. Texto disponível em: http://newdeal.feri.org/speeches/1932e.htm

[4] Como assinala Michael Pettis num outro texto : “Por agora, eu diria que o maior obstáculo para a sobrevivência da União Europeia é a dívida. Os economistas são notoriamente incapazes de  compreender  como é que as estruturas de balanços funcionam como um sistema dinâmico, e é precisamente por esta razão que nós não colocamos a resolução da crise da dívida europeia no centro do debate. Mas a Europa não irá  crescer, as reformas não irão “funcionar”, e o desemprego não irá  cair,  até que os custos do excessivo serviço da dívida sejam tratados.

Fonte: Michael Pettis, When do we decide that Europe must restructure much of its debt, texto disponível em:  http://blog.mpettis.com/2015/02/when-do-we-decide-that-europe-must-restructure-much-of-its-debt/

________

Para ler a parte II desta carta de Júlio Marques Mota à presidente da assembleia da república, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

UMA CARTA DE JÚLIO MARQUES MOTA À PRESIDENTE DA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA SOBRE A GRÉCIA, SOBRE A ALEMANHA, SOBRE A EUROPA – II

Exit mobile version