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A IDEIA – Novos Instrumentos de Manipulação e Tortura – por Joaquim Palminha Silva

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A radiotelevisão nasceu para ser um veículo de informação e formação de massas. O telemóvel surgiu para facilitar a comunicação imediata (e urgente) entre as pessoas. A primeira transformou-se num instrumento de tortura soft, produtora da manipulação e estupidificação das mentalidades correntes. O segundo acabou por tiranizar o indivíduo, tornar-se inconveniente ao facilitar a criação de hábitos de fútil tagarelice e, além de meio de marketing direccionado individualmente, transformou-se num serviço intoxicante do homo democraticus, colocando este numa dependência escusada e fazendo dele uma conta corrente contínua, além de possibilitar ao Poder a espionagem das suas conversas privadas.

Televisão e telemóvel tornaram-se instrumentos auxiliares da organização disciplinar-coerciva do capitalismo moderno e seus serventuários da política profissional, destinados a ocultar a abjecção das relações comerciais orientadas para o lucro desmesurado e a alienação.

A despolitização e o embrutecimento das massas ganham proporções nunca antes atingidas com estes novos instrumentos de tortura, possibilitando ao capitalismo uma contra-cultura “democrática”. Televisão e telemóvel alcançam o colectivo e o individual: – raras são as causas fundamentais capazes de lhe resistirem e, depois, voltarem a galvanizar a longo prazo as energias dos cidadãos.

Na época em que o crescimento económico sofre colapso, no momento em que a crise de valores éticos assalta o quotidiano lusitano barbaramente, a televisão e o telemóvel multiplicam as suas possibilidades de anestesia continuada, dando garantias aos grandes grupos do Kapital multinacional de que “o povo é sereno”!

A televisão, omnipresente em todos os locais, até nas enfermarias dos Hospitais, centros de dor e repouso de pessoas fragilizadas, de modo agressivo e autoritário, espalha as suas mensagens através de inúmeros programas e concursos de futilidade exacerbada; a informação que nos é transmitida produz-se com tal rapidez que os acontecimentos se expulsam uns aos outros, impedindo toda e qualquer tomada de consciência, dificultando uma emoção duradoura. Podemos mesmo dizer que se por acaso há um programa de nível cultural razoável, este é exibido nos intervalos da publicidade, tal a vassalagem da televisão (indesculpável quando pública) ao despotismo dos grupos económicos.

Entretanto, o telemóvel original já não é mais o telemóvel, uma vez “mass-mediatizado” começou a albergar uma panóplia de serviços de utilização que, podemos acreditar, não foram solicitados por ninguém, antes impostos pela necessidade de aumento dos lucros através da incentivação ao consumo permanente.

E, assim, o consumo das habilidades tecnológicas anestesiadoras da consciência, canalizando os vagos impulsos de racionalidade que ainda poderiam existir nas massas, tornando-as vazias, mergulhadas num caos psicopatológico, vai garantindo pouco a pouco o alheamento dos indivíduos, a hibernação dos cidadãos e, finalmente, o esvaziamento de qualquer eventual perspectiva revolucionária.

Televisão e telemóvel tornaram-se criadores de uma nova forma de apatia, feita de profunda indiferença pelos acontecimentos mais trágicos, convencendo simultaneamente os indivíduos de que estão na posse de uma constelação avulsa de informações. Paradoxalmente, estes dois instrumentos supostamente fomentadores de maior liberdade de escolha, roubam ao indivíduo o espaço e o tempo da liberdade, embora o mesmo individuo já se tenha transformado num viciado, num efectivo “toxicodependente”. Poderemos dizer, pois, que o uso da “liberdade” tecnológica troça da Liberdade humana!

Simultaneamente à esterilização da política, à sua teatralidade kitsch, sofremos o desassossego contínuo… Porque o Kapital precisa neutralizar o silêncio raciocinador, inutilizar os curtos momentos de paz individual que possibilitem uma reflexão mais cuidada: – Entramos, assim, na época do hi-fi, da febre disco! Nada é poupado, nem os locais da cultura nem os locais domésticos e muito menos os locais de acesso público.

À força de compacto, a mini aparelhagem entra pelos ouvidos, o walkman, os jogos electrónicos em miniatura instalados no telemóvel, as músicas ao nível do indivíduo, anexam aos dois instrumentos de manipulação um suplemento de banda sonora e ficção científica soft… Um mundo sem ideal cresce, espalha-se por todos os recantos, ensurdecedor, absoluto. Depois da fase heróica dos ideais democráticos e da revolução socialista, entrou-se na tentativa de desvalorização do social. Com a proliferação de acessórios electrónicos pensados para fingir heterogeneidades, fizeram o indivíduo prisioneiro de uma apatia ridícula, hipertrofiada. Transformaram-se as massas anónimas em multidão pasmada, que pouco a pouco se descrispa, para tombar no vazio colectivo, anestesiante.

A grande época das rupturas radicais, do militantismo revolucionário, desmorona-se ante os nossos olhos, emergindo um Poder supostamente democrático, suave, “benevolente”, que podemos interpretar como uma nova forma de autoritarismo gestionário, entre o “respeito” formal pela democracia moderada e a crueldade acomodada aos efeitos especiais, como num filme hollywoodiano, série B.

O Kapital aposta cada vez mais nas técnicas da apatia, que conduzam à criação de multidões desideologizadas! Por ora, parece ter ganho a batalha… Mas o seu autismo, dado o carácter do seu próprio processo de desenvolvimento exclusivista, está desconectado de toda a relação com a luta de classes que, sempre em movimento, é de seu natural imprevisível.

A guerra não está ganha: – os trabalhadores têm a última palavra a dizer!

Joaquim Palminha Silva

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