Evolução na continuidade foi a expressão que Marcelo Caetano encontrou para tipificar a gestão que iria fazer da herança salazarista. Depois de ter alimentado a esperança numa “primavera marcelista” que viesse suavizar o rigor do inverno do Estado Novo, anunciou a tal evolução na continuidade, ou seja, cedendo aos falcões do regime, com o almirante Tomás como figura de proa, Caetano fez algumas mudanças cosméticas, mudando por exemplo a designação da polícia política e mudando também o nome do partido único – a polícia com a nova sigla continuou a prender arbitrariamente, a torturar e a matar; o partido, com o novo nome, continuou a ser o único reduto onde os salazaristas tentavam compatibilizar um corporativismo com ressonâncias fascistas com os anos 60 – coisa tão fácil de conseguir como procurar transformar o chumbo em ouro.
O marcelismo teve no entanto a vantagem de desequilibrar a máquina do poder – o salazarismo só era possível com Salazar.
Na Madeira, após quase 40 anos de governo liderado por Alberto João Jardim, sucede-lhe um Miguel Albuquerque sem brilho, sem qualquer outra qualidade que não seja a sabujice com que seguiu o grande timoneiro e com que recolhe os louros de um triunfo que premeia quarenta anos de chantagem que o seu padrinho levou a cabo com eficiência.
Alberto João Jardim, é um político sem a postura que até mesmo uma profissão desprestigiada como é a carreira política exige, ocupou o cargo de presidente arrotando as suas cogitações boçais, sendo um catálogo completo de como um político não deve ser – claro que, algumas das suas diatribes nos faziam rir. Fomos por diversas vezes apanhados de surpresa pela audácia com que Jardim se adentrava no território do insólito, da violação de todas as regras do «jogo democrático». Num país onde as leis fossem para cumprir, teria sido demitido e talvez mesmo encarcerado.
No fundo Miguel Albuquerque vai colher os frutos de uma governação baseada na chantagem, no insulto, numa incontinência verbal que parecia estar à mercê do maior ou menor consumo de álcool que o presidente tivesse feito antes de anunciar medidas.
Promete-se evolução na continuidade, mas “governar” como Jardim, só Jardim sabe e pode.