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BISCATES – Os jovens herdeiros – por Carlos de Matos Gomes

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Numa carta ao seu jovem herdeiro, o avô escrevia ao neto que a herança não levava livro de instruções. Lembrava que ele trabalhara para criar a empresa, que o seu filho desenvolvera o negócio e, pelo que conhecia da experiência, o neto iria espatifar o que fora criado. O neto era um playboy – um rapaz de boa figura de melhor vida.

Vem a introdução a propósito da recente visita de Manuel Valls, o primeiro ministro francês a Portugal. O governo português e a sua comunicação social embandeiraram em arco com as palavras da nova vedeta mediática francesa de parabéns pelos excelentes resultados da política de austeridade dos últimos e anos e com o pedido que ele fez, sem se rir, de os portugueses investirem em França. Um gozo evidente do dandy francês, que devia fazer corar qualquer cidadão ou cidadã com um pingo de vergonha.

Há uns dias o governo português tinha-se pegado numa peixeirada com os números do Instituto Nacional de Estatística que contrariavam a propaganda oficial feita de manipuladas taxas de desemprego, de risco de pobreza, de aumento de desigualdade. Felizmente o francês salvava a honra dos aldrabões. Por outro lado, anda o governo num virote em carros de som a anunciar pelo mundo vendas ao desbarato e vistos gold, sem sucesso a não ser uns chineses vigarizados e vem um francês pedir para os portugueses investirem em França, onde Portugal desde a década de 60 já investiu mais de um milhão de cidadãos! Manuel Valls vai entrar em guerra com a Alemanha e o BCE e desenvolver por sua conta uma política de grandes investimentos, que criam emprego, mas violam os limites do défice, ou estava a pensar em coisas mais conforme à ideologia dos tempos, em especulação, no Banco Privée Espirito Santo, no BPN, dois exemplares investidores nacionais?

Os aplausos do governo português a Manuel Valls funcionam como um programa ideológico traduzido e com desenhos. Valls é o Sarkozy do momento, dizem os fazedores de opinião franceses de direita e de esquerda. Para o governo de Passos Coelho ele é um Sarkozy com a vantagem de pertencer ao Partido Socialista Francês, o que coloca em dificuldades o Partido Socialista Português. Valls é o cruzamento de um Carlos Moedas com charme com um Francisco Assis elegante. Um mau perfume numa embalagem sofisticada. Valls é o tal neto playboy que está a rebentar com o património familiar do socialismo, o que para Passos Coelho é pimenta no traseiro de António Costa. Aliás,Valls começou por propor a alteração do nome do Partido Socialista. O que os socialistas franceses deviam ter aprovado, para evitar as confusões e separar as águas. Foi o que Blair e amigos fizeram ao Partido Trabalhista Inglês, que sofreu uma operação de renaming: Terceira Via. O Labour foi à vida com a coroa de flores que Blair enviou ao funeral de Margareth Thatcher.

Manuel Valls é um produtor ideológico que tem obra com títulos elucidativos: «Os novos comportamentos da esquerda»; «Para acabar com o velho socialismo e ser, enfim, de esquerda». Pertence a uma espécie de políticos liberais resistentes como as baratas, que enrolam os excrementos e os apresentam como produto da última moda: os capazes de tudo, que agem no vazio de princípios, afirmando que estes limitam a liberdade! Na realidade querem dizer que os princípios dos verdadeiros conservadores limitam a sua imoralidade e os princípios dos verdadeiros socialistas limitam a sua ambição e cupidez.

A decadência dos partidos socialistas, sociais-democratas e trabalhistas na Europa tem a ver com a percepção que a sociedade foi tendo das práticas dos netos do socialismo. Estes netos playboys– hoje diz-se “famosos” – que tomaram conta da empresa rebentaram com ela. Basta ver a história dos partidos socialistas, ou desapareceram, como em Itália e na Grécia, ou não se distinguem dos liberais/conservadores, como aconteceu em Portugal e Espanha com Sócrates e Zapatero, na Holanda, ou estão em queda livre, como acontece em França com a dupla gaiteira de Hollande e Valls ao leme.

O governo francês está em grandes dificuldades, como se viu nas últimas eleições regionais, com baixíssimas cotas de popularidade, suplantado pela direita certificada de Sarkozy (o original é sempre melhor que o pechisbeque) e pela FN, que propõe mudanças, sejam elas quais forem. Manuel Valls, como uma vedeta decadente, veio fazer uma tournée pela “província”. E, como qualquer entretainer que perdeu a graça, diz piadas velhas e que agradem à parca assistência que se ri de qualquer coisa que lhe faça esquecer a realidade, como fizeram Passos Coelho e os seus animadores de pista. Os custos do espectáculo devem ter sido contabilizados nos programas de animação cultural da junta de freguesia da Estrela/Lapa.

Sobra o papel de António Costa. Cumpriu os mínimos: petit déjeuner num hotel, com croissants et café noir. Conversa de família: Como está a tua nova mulher? Excelente violinista. Au revoir.

Quanto a política dos herdeiros do socialismo parece que ficámos conversados. Estamos arruinados. Espera-nos une galére – uma escravidão, um tempo de trabalhos forçados. Ou uma rutura.

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