O surrealismo em tempos do café Gelo ou o Gelo em tempos de surrealismo, eis o tema deste novo número da revista A Ideia. Pretendemos com ele dar um contributo de fundo ao conhecimento dum nicho desconhecido, mas de rara pertinência, da cultura portuguesa da segunda metade do século XX, a furiosa geração que se reuniu no café Gelo entre 1956 e 1962. Reputamos esta geração a mais irreverente do seu tempo português. O desinteresse provocatório que mostrou pela cultura dominante tornou-a, não obstante o dinamismo da sua criação poético-pictórica, na mais marginalizada e silenciada das gerações portuguesas da segunda metade do século XX. A nossa intenção é resgatar neste volume a sua memória e se possível servir de pretexto a que outros sigam pelo mesmo trilho. Deixamos nas páginas que se seguem um largo contributo, em que registamos as colaborações de Manuel de Castro, Helder Macedo, Carlos Loures, Raul Leal, Manuel D’Assumpção, António Salvado, Luiz Pacheco, Virgílio Martinho, António Barahona, todos membros dos grupos que se reuniram no Gelo, para o conhecimento desta geração e das sucessivas acções que promoveu no seu período de vida, em que privilegiamos, não escondemos, o genuíno desenvolvimento que deu ao surrealismo que vinha da geração imediatamente anterior, a do grupo “Os Surrealistas”, que entre 1949 e 1952 interveio na sociedade portuguesa pela mão de Artur Cruzeiro Seixas, Mário Cesariny, António Maria Lisboa, Pedro Oom, Carlos Eurico da Costa, Mário Henrique Leiria, Fernando Alves dos Santos e Risques Pereira. Algumas destas figuras associaram-se aos grupos que passaram pelo café Gelo, acabando Cesariny por se tornar a figura tutelar do período. Assinalamos ainda neste número a pasta dedicada ao Brasil, em que destacamos os trabalhos do Grupo Surrealista de São Paulo (Sérgio Lima) e os do grupo DeCollage (Alex Januário e Marcus Rogério Salgado), com os quais contamos estreitar relações nos próximos números.
A quem se interrogue por que motivo uma revista com o passado como a nossa, que nasceu há 40 anos como órgão específico de propaganda, se interessa por aspectos da vida portuguesa e internacional tão marcados pela criação poética e artística, lembramos que a revista não rompeu com o seu passado, mesmo mais antigo, mas elegeu um conceito próprio para nele se situar, o anarquismo cultural. A geração que passou pelo café Gelo é, entre as que se afirmaram na segunda metade do século XX, a que melhor expressou um entendimento libertário da cultura. Trata-se pois para nós dum imperativo de consciência estudar um tal momento, resgantando-o do esquecimento e apontando-o como exemplar às gerações do século XXI. Este número dá seguimento, com idêntico figurino, ao número anterior, aparecido no Outono de 2013. São dois números duplos, monográficos, feitos a partir do mesmo modelo, perseguindo o mesmo propósito, que se continuam um ao outro e que devem ser encarados como uma unidade.
A IDEIA
Maio de 2014
/Verão de 1963, pp. 34-35]


