A IDEIA – Textos e escolhas de António Cândido Franco: ENTREVISTA A HELDER MACEDO:A REVISTA FOLHAS POESIA E O CAFÉ GELO

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Hélder Macedo

Em 1951, aos 16 anos, Helder Macedo frequentava em Lisboa o liceu Pedro Nunes, onde era colega de Gonçalo Duarte e de Fernando Gil. No mesmo ano, nas imediações dessa escola, conheceu Manuel de Castro. Por volta de 1953/54, Gonçalo Duarte está na Escola de Belas Artes de Lisboa, onde conhece Lourdes Castro, René Bertholo, João Vieira e José Escada, que alugam em 1955 um sótão do prédio da Beira Gare, perto da estação do Rossio. Com o grupo da ESBAL e amigos, começam os encontros no café Gelo, donde saíram duas publicações, Folhas de Poesia (1957-59) e Pirâmide (1959-60). A história das duas está quase por fazer. Conversámos em 2014 com Carlos Loures, coordenador de Pirâmide; neste número falamos com Helder Macedo, coordenador de Folhas de Poesia. No próximo contamos falar com António Salvado, outro coordenador das folhas, de quem recuperamos já neste volume um texto do Jornal do Fundão sobre a publicação. Cabe aqui lembrar o que Luiz Pacheco assinalou como marca desta geração (O Uivo do Coiote, 1996: 89): essa geração, a do café Gelo, éramos muito maus uns para os outros. Dizíamos coisas danadas na cara uns dos outros, escrevíamos coisas uns contra os outros… [A.C.F.]

Em Janeiro de 1957 saiu o primeiro número da revista Folhas de Poesia, com coordenação de António Salvado e capa de René Bertholo. A parte principal da colaboração poética deve-se a pessoas ligadas ao café Gelo: Helder Macedo, Herberto Helder, José Carlos González. Observando esse número de estreia, a revista parece ser fruto da primeira vaga de jovens que fez poiso no café Gelo na segunda metade da década de 50. Como surgiu a ideia de fazer uma revista com o nome de Folhas de Poesia? Além da colaboração poética (dois longos poemas “5 Legendas para a Desesperança” e “Bacante nocturna”) coube ao Helder Macedo algum outro papel nesse primeiro número?

Ŕ A revista foi uma ideia algo preguiçosamente partilhada por mim, pelo José Sebag, o José Carlos González e o António Salvado. Mas outros dos habituais no Gelo, como o Herberto Helder, o Manuel de Castro e o José Manuel Simões, também participaram. E a escolha da capa naturalmente recaiu num dos pintores que vinham ao Gelo do atelier ao virar da esquina. Neste caso, o René. O problema é que a certa altura havia mais coordenadores do que colaboradores. O Salvado era o menos habitual frequentador do Gelo e um cumpridor estudante de Letras. Para evitar melindres dos outros, sugeri que o primeiro número tivesse apenas o nome dele como coordenador e que, nos subsequentes, nos revezássemos. O Sebag e o González aceitaram, mas creio que não gostaram da ideia. Sendo assim, para o segundo número ficámos só o Salvado e eu.

Távola Redonda, que tinha como subtítulo folhas de poesia, foi uma publicação de poesia em fascículos, que viu a luz entre Janeiro de 1950 e Julho de 1954, com direcção de Couto Viana, Mourão-Ferreira e Luís de Macedo (Alberto Lacerda, ligado de início, afastou-se). Caracterizou-a o ecletismo, a ausência de qualquer propósito programático que não fosse o de dar testemunho da poesia dos novos, a que se juntou a intenção de homenagear as gerações mais velhas. Este modelo influenciou Folhas de Poesia?

Ŕ A intenção, pelo menos a minha, não era essa. A Távola Redonda era uma publicação que visava à qualidade literária (o que acho muito bem) mas se desejava politicamente neutra (o que, nesse tempo, podia ser entendido como uma forma ambígua de pactuação). Como também a revista Graal, que dela derivou. E esta, não por acaso, veio a desaguar na revista Tempo Presente (era assim que se chamava?), de conotação fascista. Não estou a usar o termo como insulto, mas como a designação da opção ideológica expressa por alguns dos seus principais colaboradores. Significativamente, o David Mourão-Ferreira não alinhou na Tempo Presente e o Alberto de Lacerda já se tinha afastado. E esses são, sem dúvida, os dois melhores poetas associados à Távola Redonda. A propósito: é importante tirar o Alberto de Lacerda do esquecimento em que caiu. Temos uma cultura de memórias curtas… Mas voltando à Távola e à Graal. O David Mourão-Ferreira, que eu ao tempo mal conhecia mas que tinha lido as Folhas de Poesia, 92 convidou-me a colaborar na Graal, como também convidou o Herberto Helder. Hesitei e, algo provocatoriamente, sugeri fazer a resenha de uma pequena colectânea de poemas do José Gomes Ferreira que tinha acabado de sair Ŕ Eléctrico Ŕ cuja perspectiva ideológica era claramente de oposição ao regime. Escrevi um texto altamente elogioso, é claro. O David (de quem mais tarde fui amigo) aceitou imediatamente. Foi o primeiro texto de crítica literária que publiquei.

O segundo número de Folhas de Poesia saiu em Julho de 1957, com mais meio caderno, passando de 16 pp. para 24, com coordenação de António Salvado e Helder Macedo. Seguiu figurino próximo do anterior: juntar poetas mais velhos, no caso do primeiro número Edmundo Bettencourt e Ângelo de Lima, com a geração nova que circulava no café Gelo. Desta vez os mais velhos foram Branquinho da Fonseca, Mourão-Ferreira, Carlos de Oliveira, José Régio (com um desenho) e Teixeira de Pascoaes; os novos os seguintes: José Sebag, Herberto Helder, Helder Macedo, Maria Manuela Margarido, Eurico de Sousa, a que se junta Alfredo Margarido com um ensaio, “Orfeu Despedaçado”, talvez o único texto programático da revista. Qual a parte que lhe coube na organização do número e como perspectivou então a vida futura da publicação?

Ŕ Esse foi um número de transição para o que eu teria desejado publicar num número subsequente. A escolha do Alfredo Margarido certamente foi minha.

Em 1957 dá-se a sua estreia em livro com a publicação de Vesperal, nas edições Folhas de Poesia. Como apareceu a chancela e como se desenvolveu ela? Uma folha da época, de promoção, apontava, depois da publicação do seu livro, para a publicação próxima de livros de Edmundo Bettencourt, Ligação, de Herberto Helder, Dicionário de Rimas, de Alfredo Margarido, Ilhas Paralelas, de Fernando (Mendes) Gil, Os Caminhos da Razão e da poesia reunida de Ângelo de Lima.

Ŕ Tudo isso era parte de um plano editorial que não chegou a realizar-se. Ou realizou-se parcialmente na própria revista, depois de cautelosamente neutralizado. A minha atitude era polémica e interveniente. As Folhas de Poesia nunca chegaram a sê-lo.

O terceiro número da publicação surge em Setembro de 1958 e o quarto e derradeiro em Junho de 1959. Este, com capa de José Escada, cumpre o anúncio relativo à edição dos poemas de Ângelo de Lima (é a primeira reunião que temos da sua poesia Ŕ 22 textos em verso e prosa). O terceiro, coordenado por António Salvado e Herberto Helder, com capa de Lurdes Castro, renova o modelo anterior, juntando consagrados (Afonso Duarte, Jorge de Sena, António Maria Lisboa e Fernando Pessoa) com novos [António Salvado, Herberto Helder (com um comentário em prosa sobre Afonso Duarte), Fernanda Botelho, Fernando Echevarria e João Rui de Sousa]. O Helder Macedo ficou ausente Ŕ de resto como grande parte dos colaboradores anteriores ligados ao Gelo (J. Sebag, J. Carlos González, A. Margarido), com excepção do Herberto. A que se deveu a ausência?

Ŕ As Folhas de Poesia tornaram-se numa versão em via reduzida da Távola Redonda… Nada a ver comigo. Mas a pergunta merece uma resposta mais pormenorizada. Vou portanto contar, pela primeira vez, o que aconteceu. Antes de ir passar uns tempos em Londres, nos fins de 1957, deixei um terceiro número organizado e um quarto número planeado. Teriam sido muito maiores do que os anteriores e teriam constituído uma espécie de Ŗmanifestoŗ de uma atitude por nñs partilhada. Que afinal não era ou, pelo menos, não foi pelo António Salvado, que me escreveu para Londres a dizer que não queria ser confundido com os Ŗirracionaisŗ surrealistas. Encontrei recentemente essa carta, datada de 13 de Janeiro de 1958, entre papéis que julgava perdidos. Transcrevo algumas passagens significativas. Depois de vários rapapés de circunstância, o António Salvado diz o seguinte: […] Ainda bem, Helder, que não enviámos para a tipografia o 3.º número das Folhas tal como o havíamos organizado! Destruiríamos com isso uma posição 93 que está a dar que falar! Eu explico-me melhor, e com factos. Tenho recebido várias cartas onde se fala da coragem do nosso estilo denso, poético, exclusivamente poético. Entre elas, saliento a do prof. Jacinto do Prado Coelho que é, inclusivamente, uma crítica longa aos seus e meus poemas. Diz este professor que a seriedade das nossas posições, juntamente com a linha equilibrada, racional, que espalhamos nos nossos versos dão-nos uma posição deveras original. […] Evidentemente que a colaboração considerada surrealista será publicada nas Folhas. Mas Ŕ e peço-lhe que pense nisto Ŕ colocada em segundo plano, como meio, processo e nunca como fim! (Esta carta, caro Helder, pode levá-lo a interpretar mal as minhas (aliás nossas!!) intenções. Não julgue que estou à mercê de qualquer influência…amical! Sou sincero, como julgo tê-lo sido sempre, e confio em si. E agora, Helder, eis o sumário elaborado por mim para o 3.º número: […] Mas escreva-me, Helder, e diga-me o que pensa de tudo isto. De qualquer maneira, prepare colaboração Ŕ como organizador, você tem obrigação de estar presente.

Fiquei, naturalmente, perplexo. O assunto tinha sido amplamente discutido, o Salvado parecera ter concordado com a minha orientação, o número estava pronto para a tipografia… e aproveitara a minha ausência para implementar, à socapa, uma orientação diferente. Além do mais, a vasta colaboração que eu tinha recolhido (começando com um anúncio publicitário de Fernando Pessoa às ŖTintas Robilñideŗ, um inédito de Mário de Sá-Carneiro que me iria ser facultado pelo Luís de Sousa Rebelo em Londres e um desenho do Almada Negreiros que desapareceu) não reflectia apenas uma herança surrealista que fosse nossa mas também uma mais ampla tradição em que o próprio surrealismo se integrava. Incluía, por exemplo, lado a lado com o Mário Cesariny, o Alexandre OřNeill, o Mário Henrique Leiria e o Manuel de Castro, poetas esteticamente tão diferentes como Teixeira de Pascoaes e Jorge de Sena. Alguma dessa colaboração (com especial destaque para o Ângelo de Lima) veio a ser publicada em subsequentes números das Folhas de Poesia com os quais já nada tive a ver. Mas não toda e, a que foi publicada, descontextualizada de qualquer perspectiva crítica. Seja como for, também encontrei recentemente o rascunho da minha (aliás amigável) resposta à carta do António Salvado, que torna clara a essência do nosso desacordo. Dizia o seguinte: Londres, 21-1-58 / Meu caro Salvado:/ Foi com muita alegria que recebi a sua carta, há muito, e confesso que com impaciência, esperada. À parte o prazer grande em receber notícias suas e a satisfação de poder manter consigo, ainda que de longe, um convívio que sempre me agradou, surpreendeu-me o que você diz. Supunha estar suficientemente esclarecida a organização das Folhas 3 e o que com ela se pretendia. Pelo menos isso tentei, discutindo consigo largamente o carácter do número, o que ele ia significar e, se bem me lembro, nunca se pretendeu encarar o surrealismo como um fim. Antes você concordou que, sendo a linha Orpheu-surrealismo a única coerente que existiu na nossa poesia dita moderna, importava estabelecê-la, esclarecendo a partir daí a nossa posição, achando nós preferível esse esclarecimento no 4.º número, cujo conteúdo ficou, de resto, mais ou menos determinado. Tudo isto foi pensado e decidido antes de se tomarem quaisquer compromissos, digo, antes de eu ter obtido colaboração. / Quanto a irmos destruir uma posição, pergunto-lhe: qual é ela, a das Folhas? Pode-se legitimamente falar numa sua e minha, concordantes que somos nalguns pontos fundamentais. Mas das Folhas? Releia-as você e se, sem pré-aviso, encontrar alguma definida, dou-lhe um doce. A única possibilidade de transformar a revista no que nós temos em comum Ŕ e é nisso que você parece estar a pensar ao referir-se a uma “posição” Ŕ é precisamente fazer sair o 3.º e o 4.º número quanto antes. Ou estará você, triste hipótese, a querer acomodar-se com uma posição que só por engano nos podem atribuir, só porque é uma Ŕ e ainda que fosse ajustada, de acaso Ŕ porque a única coisa que, em consciência, se pode dizer das Folhas, tal como até agora têm sido, é que são uns cadernitos onde se publicaram uns novos e uns velhos, sem se poder dizer mais para não se cair em exageros. Veja bem, meu caro, até agora ainda não fizemos mais do que publicar uns jovens e uns velhos, com algum critério de gosto, diga-se, mas isso é tão pouco para se poder falar numa “posição”! Teremos nós de esclarecê-la, explicando-a. E que isso venha depois de, ao 94 menos, termos estabelecido a única tradição moderna da poesia em Portugal e onde Ŕ e essa é a nossa maior originalidade Ŕ a nossa posição “racional” tem origem e só a partir da qual faz sentido. Repare bem nisto, que é importante: não são os surrealistas que se vão utilizar de nós (é de resto absurdo falar em surrealismo a propósito de um número onde sai colaboração de um Pessoa ou de um Almada) mas nós que beneficiamos deles. / Não queira, Salvado, ser definido à pressa como Isto ou Aquilo. Qualquer que fosse o nome, ainda é cedo. Nem você se definiu ainda inteiramente nem essa classificação de “racional” (a que você mais acentua) sofre alguma coisa em ser alargada, definindo-se-lhe a substrutura. “Racionais” eram os poetas do século XVIII e pouco mais temos a ver com eles do que, salvo erro, com o Amenófis IV. E, por favor, não receie que se possam enganar a seu respeito. Quantas mais vezes se enganarem, melhor poderão vir algum dia a acertar. Felizmente que você não é assim tão fácil! Agora, estar a moldar-se ao que supõe que os outros acham, só porque é “mais ou menos isso”, é que não! E descanse, nunca o tomarão por surrealista. Se, no entanto, você continua a achar que arrisca a sua posição assinando este 3.º número das Folhas, estou disposto a figurar sozinho na sua organização (o que nada teria de inédito, com o precedente do 1.º, em que eu, por motivos diferentes, é claro, não figurei). Creia, no entanto, que não terei prazer nisso.

O que aconteceu, é claro, foi que, aproveitando a minha ausência, o António Salvado foi avante com o seu plano Ŗracionalŗ…

Ao que sei, Folhas de Poesia chegou a pensar um número alternativo que nunca viu a luz do dia, em que o Helder Macedo regressava como colaborador e até como coordenador. Que pode dizer sobre os conteúdos, as colaborações e a orientação desse número?

Ŕ A ter havido, teria sido um retomar do que tinha sido planeado para o terceiro e quarto número da revista. Mas era tarde. As Folhas de Poesia já tinham adquirido uma identidade própria, que consistia em não ter uma identidade própria. O que eu de facto tentei, ainda de Londres, em 1958, foi ir avante com o projecto inicial, a despeito do António Salvado. Creio que ele nunca respondeu à minha carta, fazendo, na minha ausência, o que obviamente já tinha decidido fazer. Mas encontrei duas cartas do Alfredo Margarido, que se empenhou a ajudar-me a recuperar o projecto inicial. Os seus comentários (com característica ironia e alguma violência) ajudam a entender o que aconteceu, ou melhor, não aconteceu. Numa delas (sem data, mas certamente do fim de Fevereiro de 1958), diz o seguinte: […] Passando a outra direcção, isto é, às folhas: não me foi possível falar com o Salvado. Desapareceu completamente de circulação […]. O Herberto Helder, que se tem mantido em contacto com o moço poeta beirão, diz-me que o número 3 está pronto, de acordo com a orientação que o Salvado lhe quis imprimir. De concreto sei, apenas, que devolveu ao Bettencourt os poemas que tinham sido escolhidos para publicação, que não publicará o Cesariny e, naturalmente, o Oom está também afastado. E, também naturalmente, a minha poesia será afastada e suponho que a gentileza do Salvado não chegará ao ponto de me devolver os papeizinhos tão honestamente dactilografados. No fundo, talvez o acidente não valha a pena: o Salvado é demasiadamente reaccionário para se poder ter com ele uma conversa esclarecedora: tem horas próprias para ser poeta e horas impróprias para ser tudo o mais. O que me satisfaz, pois sempre lhe disse que o moço não prestava, era reles. É. Pronto. Espero, contudo, poder encontrá-lo para que ele ponha o seu esclarecimento, isto é, para melhor escrito, que diga que V. abandona por não estar de acordo com a orientação imprimida a este número. […]

O Ŗesclarecimentoŗ, é claro, não foi incluído no 3.º número publicado pelo Antñnio Salvado. Mas, antes desse número sair, o Alfredo Margarido voltou ao assunto noutra carta (sem data, como era seu hábito, mas, porque menciona nela o meu convívio com o Mário Henrique Leiria em Londres, certamente de Março de 1958). A passagem relevante é a seguinte: […] Tive uma ideia, o que vai sendo raro (ou já era raro): porque não lançar, paralelamente ao n.º 3 das “folhas” organizado pelo Salvado, um n.º 3 das mesmas folhas organizado por Helder Macedo 95 (o poeta, o ausente, o que contempla interessado, como não sendo o que é)? Punha-se uma cinta: “este é o autêntico n.º 3 das folhas de poesia. Cuidado com as imitações”. […] Bolas, é claro. Bolas. Diga V. o que pensa. O Edmundo de Bettencourt acha a ideia muito válida, mas precisa ser manejada em silêncio. […]

O que terei pensado ficou por ser feito. Voltei para Portugal, envolvi-me em políticas de outra ordem e tive de sair de Portugal sem possibilidade de regresso até Salazar ter caído da cadeira.

Em que medida se pode afirmar que Folhas de Poesia são uma das publicações da geração que deu vida ao café Gelo na segunda metade da década de 50 do século XX, isto atendendo a que alguns do Gelo, que então publicaram em livro, como Manuel de Castro, Luiz Pacheco, Mário Cesariny, António José Forte, Virgílio Martinho, Ernesto Sampaio, para não falar de Raul Leal, ficaram de fora, não colaboraram na publicação?

Ŕ As ausências são significativas, não acha? E significam que, como acabaram por ser, as Folhas de Poesia foram um produto da vida associada ao Café Gelo, mas não deram vida ao Café Gelo.

O último número de Folhas de Poesia saiu em Junho de 1959. No mesmo ano, um pouco antes, em Fevereiro de 1959, apareceu, com forte presença do surrealismo, o primeiro caderno de Pirâmide, coordenado por Carlos Loures e Máximo Lisboa, logo seguido em Junho pelo segundo, onde surgem alguns dos que já haviam prestado colaboração às Folhas Ŕ José Carlos González, Herberto Helder e José Sebag. Do seu ponto de vista que relações se devem estabelecer entre as duas publicações?

Ŕ Pirâmide foi significativa sobretudo da tendência surrealista (ou surrealizante) que havia no Gelo. Teve portanto o grande mérito de ter uma identidade definida. Mas ajudou ao equívoco de que o Gelo foi apenas uma expressão tardia do já de si tardio surrealismo português. A importância do Gelo estava na diferença e não na semelhança.

Formule-se a pergunta doutro modo: Folhas de Poesia, como um todo, da colaboração de Herberto Helder à edição de Ângelo de Lima, passando pelos colaboradores do café Gelo mas também por Régio, Bettencourt, Sena, Carlos de Oliveira, David Mourão-Ferreira e Fernanda Botelho, referindo ainda Teixeira de Pascoaes, que virá depois a ser a grande “descoberta” de Mário Cesariny, está mais próxima ou de Pirâmide ou de Távola Redonda, já que dificilmente, mau grado sinais tão contraditórios, estará a meio caminho entre as duas?

Ŕ Creio que as Folhas de Poesia ficaram a meio caminho entre o que foram e o que poderiam ter sido. O que não era nem a Pirâmide, por ser demasiadamente restritiva, nem a Távola Redonda, por ser demasiadamente indefinida.

A IDEIA

Abril de 2015

 

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