“A IDEIA” – CARLOS LOURES, A PIRÂMIDE E O GRUPO SURREALISTA DO CAFÉ GELO (1) – por Manuel G. Simões

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A situação contextual que marca sempre a existência e formação do indivíduo é, no caso de Carlos Loures, mais do que pertinente. Nascido no coração de Lisboa, na pessoana Rua dos Douradores, cresceu deambulando pela baixa      pombalina, frequentando as “tertúlias” dos cafés   de muitas conversas e projectos de revoluções,  até que, na Primavera de 1958, acabaria por ser     aceite no que ficou conhecido como grupo do“Café Gelo”, e que ali se reunia diariamente.

Serviu-lhe como cartão de ingresso o poemamanifesto O Menino que não Saltou a Cancela,   que acabara de publicar (com Máximo Lisboa) naquele ano, opúsculo que reflectia as leituras ávidas de juventude – no caso específico textos de Marx, Sartre ou Breton –, o suficiente para  impressionar as exigências de um grupo que era simultaneamente elitista e permissivo.

Ali pontificava, sem dúvida, Mário Cesariny de Vasconcelos, elemento aglutinador de personalidades tão diversificadas como Luiz Pacheco, Herberto Helder, Raul Leal, Manuel de Castro, António José Forte, Ernesto Sampaio, João Rodrigues, entre outros. Mas a figura de referência, uma espécie de “deus tutelar”, era com certeza António Maria Lisboa, que tinha morrido em 1953, deixando uma obra reduzida mas consensualmente considerada exemplar e paradigmática da chamada primeira geração surrealista. Foi também ali, no âmbito do grupo, que nasceu o projecto de   Pirâmide, cadernos organizados por Carlos Loures e Máximo Lisboa (n.º 1, Fev.º 1959; n.º 2,Junho 1959; n.º 3, Dezembro 1960), publicação que contribuiu para a divulgação das posições da que viria a ser designada por segunda geração surrealista (1). A este respeito é fundamental o testemunho do próprio Carlos Loures: nós, os recémchegados ao grupo, entendemos que era importante que aquela reunião quotidiana de talentos se traduzisse em algo de concreto – uma revista. A ideia foi acolhida com alguma ironia pelos elementos mais parasitários do grupo e com entusiasmo pelos mais valiosos, nomeadamente por Cesariny, que sugeriu o título e que organizou verdadeiramente o primeiro número, o mais ortodoxo dos três que se publicaram (2).

O primeiro número da Pirâmide foi, portanto, organizado por Mário Cesariny, certamente com o decisivo contributo dos coordenadores, pelo menos no que respeita à parte executiva. Reunia colaboração de autores já consagrados: Mário Cesariny de Vasconcelos, Pedro Oom, Antonin Artaud (traduzido por Ernesto Sampaio), Raul Leal, António Maria Lisboa, Luiz Pacheco e Petrus Ivanovitch Zagoriansky (aliás Mário de Sá-Carneiro, como explicitamente se inscreve no final do seu poema). E no pórtico da revista é bem clara a homenagem a António Maria Lisboa, visto que se evidencia a sua colaboração, isto é, o seu manifesto (Aviso a Tempo por Causa do Tempo, p. 12),considerado imperioso, agreste, justo, natural […] um documento da maior gravidade, duma inacessível figura de herói, hoje colocado na primeira fila da poesia europeia (n.º1, “Notícia”).

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Com o n.º 2 alarga-se a escolha dos autores antologiados, sem repetições relativamente ao primeiro número: Máximo Lisboa, Herberto Helder, José Carlos González, Sena Camacho, Amadeo de Sousa-Cardoso, Virgílio Martinho, António Pinheiro Guimarães, Saldanha da Gama, Manuel de Castro, António José Forte, José Sebag e D’Assumpção. Carlos Loures colabora com um poema-colagem, género que atravessou todo o movimento surrealista, tendo como fundo um conjunto de corpos esqueléticos (mortos de Auschwitz) e, sobreposto, o texto organizado a partir de recortes de jornal:Regardez bien/ Chaque nuit/ l’échec du demi-dieu/ sur la route de la lune/ la securité est une/ question de solidarité/ Voilà ce que vous garantit/ La chanson éternelle/ mais surtout/ il est urgent/ Le massacre des innocents/ Télégramme de victoire:/ Squelette entier trouvé (n.º 2, p. 23). É evidente a ironia deste breve poema, aspecto que, como se sabe, acabaria por ser transversal a todo o movimento.

Quase no final deste número, e na secção “A Pirâmide & a Crítica”, Luiz Pacheco refere-se ao primeiro com estas considerações: Nesse 1º caderno, a Pirâmide fala, com respeito, num Poeta, mas é dum Morto que ela fala; publica, sem medo, um inédito de Raul Leal […] um perseguido, que só os “malucos do Gelo” se atrevem a homenagear com a polícia à vista (p. 35). Mas é ainda Carlos Loures quem esclarece como foi organizado este segundo número: Dadas as vicissitudes de um grupo tão heterogéneo como aquele, onde a intriga representava um papel determinante, o segundo número, surgido em Junho de 1959 (quatro meses depois do primeiro), representava já uma contestação à ‘liderança’ de Cesariny.(3)

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Notas:

1-Fernando J. B. Martinho, Tendências Dominantes da Poesia Portuguesa da Década de 50, Lisboa, Edições Colibri, 1996, p. 79. 2 in Daniel Pires,

3 – Dicionário da Imprensa Periódica Literária Portuguesa do Século XX(1941-1974), vol. II, 1º tomo, Lisboa, Grifo, 1999, p. 46.

3 – Idem, ibidem, p. 1.

(Conclui amanhã)

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