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VOTAR PS, NUNCA MAIS! MEMÓRIAS DE UM ELEITOR COMUNISTA – por JÉRÔME LEROY

Falareconomia1 Selecção, tradução e nota introdutória de Júlio Marques Mota

Votar PS, nunca mais! Memórias de um eleitor comunista

Jérôme Leroy, Voter PS, plus jamais ça! – Mémoires d’un électeur communiste

Revista Causeur.fr, 21 de Maio de 2015

Durante muito tempo, pensei que se apenas houvesse um, esse um seria eu: o eleitor comunista que vê o seu candidato eliminado à primeira volta e que vota socialista na segunda volta. A este comportamento chamava-se disciplina republicana. Devemos confessá-lo e de imediato: para mim, esa disciplina acabou definitivamente. Em 2017, independentemente do que for a situação na altura, na segunda volta das eleições presidenciais, não votarei socialista – supondo que isso seja possível, o que não é garantido.

A disciplina republicana, era recíproca. O eleitor socialista votava pelo candidato comunista se era este que passava à segunda volta contra a direita. Se, se, isso acontecesse, de acordo, nas legislativas mas não para as Presidenciais. Certas pessoas mal-intencionadas consideravam que as transferências de votos da primeira volta para a segunda se faziam muito bem nos votos comunistas para os socialistas, o mesmo não se passaria muitas fezes na transferência de votos dos socialistas para os comunistas. Não importa, o sistema não funcionou tão mal como isso, nos anos que se seguiram à assinatura do Programa comum, em 1972, que teria funcionado como uma tentativa de esquecer a ferida original do congresso de Tours, em 1920, quando a grande família se dividiu entre comunistas e socialistas. Mesmo depois do choque térmico de 1977, quando os conflitos entre Mitterrand, Marchais e Fabre (recordemos para os mais jovens que Fabre dirigia os radicais de esquerda) fez com que a esquerda quase que falhasse as legislativas de 1978, a aliança de facto perdurará e permitiu a vitória de 1981, com a eleição de Mitterrand.

A vida era então simples: a Quinta República era ideologicamente bipolar e politicamente quadripartida: à esquerda, o PS e o PCF; à direita, o RPR e UDF. Lutava‑se ferozmente em cada campo, mas na maior parte do tempo apertavam-se os cotovelos, unidos contra o inimigo – bom, sobre este ponto, Giscard teria talvez algumas reservas. Certamente, nos comunistas, mesmo que ligeiramente, sempre se desconfiou dos socialistas. Não que se fosse ao ponto de dizer como Lenine que era necessário dependurá-los primeiro, mas havia más lembranças. Como Jules Moch, socialista, ministro do Interior,  que tinha mandado disparar sobre os mineiros grevistas em 1947, ou como Guy Mollet, o homem que enviou o contingente para a Argélia e que embarcou desastrosamente na expedição do Suez. Tudo isto, era já passado. Em 1981, só os velhos cocos, que não tinham esquecido o tempo em que Mitterrand estava no Ministério do Interior e dirigia a repressão contra a FLN, não explodiam de alegria à notícia da sua vitória.

Pela minha parte, votava socialista sem levantar nenhuma questão, porque, os socialistas, sempre eram a esquerda. E, depois, os socialistas franceses não tinham feito o seu BAD-Godesberg social-democrata (dos alemães) e ainda menos a sua mudança social-liberal. Ouviam-se ainda vagamente os ecos do Congresso de Epinay de 1971, que foi em síntese, o Le Bourget de Mitterrand: “O que não aceita a ruptura com a sociedade capitalista, esse, afirmo-o, não tem lugar no Partido socialista. ” Na verdade, a única ruptura que operaram os socialistas foi, em 1983, o seu alinhamento, ou antes a sua capitulação, ao mercado-rei e que então se chamava ainda a mundialização.

Pessoalmente, eu começava então a interessar-me de muito perto pela política, um tipo de vírus familiar. De resto, a primeira vez que votei, foi nas municipais de 1983, e estava a votar pela minha mãe. Esta fazia parte da lista saída de União da esquerda à direcção comunista que ganhou ainda a câmara municipal nessa altura. Sentia vagamente que havia água no gás, sentia que algo não estava bem, que entre os socialistas e nós, não era apenas uma diferença de método, que nós não queríamos verdadeiramente a mesma coisa. Contudo, estava cheio de esperança – ingénuo, diziam-me os meus camaradas. A esquerda no poder desiludia, mas era ainda a esquerda, e a direita, era a direita.

Recordo-me dos cartazes para as legislativas de 1986 que representavam um lobo de desenho animado com a seguinte legenda: “ Socorro, a direita está de volta!” E depois, na primeira volta das presidenciais de 1988, enquanto fazia o meu serviço militar em Coëtquidan, fui votar André Lajoinie, fiel ao PCF, negligenciando a dissidência mais que simpática, de resto, de Pierre Juquin. Preparava-me sem entusiasmo a votar por Mitterrand na segunda volta contra Chirac. O pânico, certamente exagerado, transformou a resignação em alívio quando Mitterrand ganhou por larga diferença. É necessário dizer que na primeira volta Le Pen tinha feito mais de 14%, já…

Mas, em verdade, o perigo facho não tinha  ainda a função de cimentar, de unir, o eleitorado. Pela boa razão de que a direita clássica metia medo, e metia-me medo. De acordo, funcionava-se já em política com o medo. Chirac como facho, era muito exagero quando se pensa nisso. Enquanto se aguardava, acreditava-se um pouco, e isso explica em parte porque é que a União da esquerda perdurou, pelo menos nas urnas: já tinha deixado de ser a bela disciplina republicana que orientava o meu sentido de voto, mas sim a procura do mal menor.

No que me diz respeito, a guerra das esquerdas começou verdadeiramente com o referendo sobre Maastricht, em 1992. O famoso debate entre Mitterrand e Séguin revelou-me que eu poderia sentir-me infinitamente mais próximo de um deputado gaulista do que de um presidente socialista. Para mim, a clivagem direita-esquerda morreu esta noite, como para uma grande parte da direita, que preferia, ela, o presidente socialista. A minha perturbação não se modificou quando Robert Hue chegou à direcção do partido, trazendo na sua bagagem o excelente Beigbeder (Frédéric) como porta-voz. Tenho razão em gostar de Beigbeder, não o imaginava. Nas eleições europeias de 1994, pela primeira vez da minha vida, não votei comunista mas Chevènement. E segui-o até 2002. Um mal por um bem, esta infidelidade ao PCF permitiu-me encontrar Élisabeth Lévy, que se agitava para conseguir a adesão de intelectuais e escritores à causa “do Che”. Esta bonita aventura terminada, muitos viraram as costas à política activa, eu, eu entrei no curral.

Penso que já mostrei ter tido uma paciência infinita no que diz respeito ao PS. Votei mesmo Hollande na segunda volta de 2012, diga-se. Ainda uma vez mais, por medo. Ter sarkozysmo por cinco anos, estava  acima das minhas forças. Se não tivesse nenhuma ilusão sobre a política económica, sobre a segurança ou sobre a imigração, podia ao menos esperar discursos menos vingativos e menos demagógicos. Fiquei rapidamente desencantado. A finança é sempre uma amiga, a submissão a Bruxelas e à Alemanha assumiu proporções humilhantes. Rebsamen quer submeter à vigilância policial os desempregados e Macron quer destruir o Direito do Trabalho.

Então está decidido. Uma segunda volta Marine Le Pen-Hollande? Voto branco. Uma segunda volta Marine Le Pen-Sarkozy? Voto branco. Há apenas uma segunda volta Marine Le Pen-Juppé onde iria talvez votar Juppé. Não para barrar o caminho à FN, mas porque é um aluno vindo da Normal, leu novelas e gosta do vinho. Isto é dizer o que penso. Enfim, com tudo bem analisado, opto pela indisciplina republicana.

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Para ler o original vá a:

http://www.causeur.fr/hollande-maastricht-seguin-mitterrand-juppe-32929.html

 

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