Like it or not, austerity is here to stay. (Petros Karadjias/AP)
Os próximos meses serão meses muito difíceis para as economias que estão em situação mais difícil na Europa. A Grécia, numa forma um pouco extraordinária, concordou em aceitar uma longa lista de reformas altamente punitivas depois de um impasse de mais de uma semana que tinha forçado os seus bancos a fecharem e a sua economia a ficar paralisada. O acordo foi concluído em troca de um pacote de ajuda, que poderia chegar aos $100 mil milhões, e de um prolongamento da sua permanência como um membro da zona Euro.
As reformas não serão nada bonitas. A Grécia tem resistido contra mais austeridade e mais que qualquer outra economia europeia economicamente agitada, deslocou-se de um défice de 18 por cento para um excedente de 2 por cento, mais do que o dobro do que qualquer outro país já fez. E agora terá que aceitar ainda mais austeridade mas não é claro se qualquer um destes esforços irá facilitar o cepticismo sobre se todo este caso não terá provocado danos irreparáveis no projecto do euro. Até agora, o euro, no seu 15º ano de existência, foi um benefício simbólico para a Europa, mas igualmente tem sido visto que mais do que um punhado dos países tem estado a sofrer recuos económicos significativos.
Na verdade, é bom lembrar que há uma série de países em crise que estão em muito mau estado – mas nenhum deles está pior do que a Grécia, por uma razão bem específica.
Durante o início da crise financeira europeia, que explodiu em 2009 e 2010, houve uma preocupação especial com cinco países – Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha – que eram, talvez, mais conhecidos sob a forma da sigla PIIGS. Todos eles tinham acumulado dívidas maciças – alguns deles dívida pública, alguns deles dívida privada – o que levou as suas economias a contraírem-se acentuadamente quando o sistema financeiro global arrefeceu fortemente após a crise de 2008, crise esta que teve o seu início nos Estados Unidos. E enquanto o crescimento recuperou nos EUA, esses países tiveram maiores problemas “estruturais” – enraizados nas suas próprias leis – que prejudicam de modo muito significativo o crescimento.
O ponto de inflexão, porém, veio em 2010, quando os mercados perceberam de quanto é que esses governos necessitavam então de pedir emprestado para compensar o mau funcionamento das suas economias. A Grécia estava no extremo do espectro, mas até mesmo países que mantiveram as suas finanças públicas em ordem, como a Espanha e a Irlanda, viram-se incapazes de contrair empréstimos a não ser a taxas fortemente punitivas.
Para restaurar a confiança dos mercados e obter ajuda da Europa e do Banco Central Europeu, os países não tiveram nenhuma escolha para além de terem que aplicar rigorosas medidas de austeridade na forma de cortes orçamentais e aumentos de impostos. A Grécia, que em 2009 teve um défice orçamental que foi igual a quase 14 por cento de sua economia (o maior dos cinco), foi o país que mais sofreu. Mas os outros também sofreram contracções significativas no seu respectivo PIB.
Esta pressão orçamental tem funcionado no sentido de reduzir os défices dos respectivos países, mas não tem em conta o facto de que também fez com que os encargos da dívida se tenham degradado ainda mais.
O único país onde a situação tem corrido bem é na Irlanda, onde os cortes nas despesas públicas e um boom de exportações – em parte impulsionado pela queda do euro, o que fez com que bens irlandeses tenham ficado mais baratos no exterior – têm ajudado a transformar o destino do país nos últimos 18 meses. É o suficiente para que a Irlanda seja agora, na verdade, a economia de mais rápido crescimento da Europa, embora ainda tenha uma taxa de 9,7 por cento de desemprego.
Mas na maioria dos casos, a austeridade tem prejudicado a economia e de tal modo que, mesmo os países menos endividados, têm mais dificuldade em pagar o que devem porque as suas economias estão a produzir menos e isso significa que recebem menos receitas fiscais.
A Itália é talvez o exemplo mais gritante desta última situação. Os últimos cinco anos têm sido nada menos do que um desastre para o país, cuja economia está ainda a funcionar a menos 10 por cento do que funcionou em 2008. Por outras palavras, o PIB italiano ainda é de 10% menos que em 2008. E, de facto, os danos que a Itália tem sofrido ao longo da última meia década tem dizimado virtualmente qualquer progresso feito anteriormente. A economia da Itália está agora ao mesmo nível do PIB que alcançou em 2000.
Escusado será dizer que uma década e meia sem qualquer crescimento não é uma coisa muito boa. E não pode ser uma coincidência o facto de que esta estagnação se tenha iniciado quando o euro foi introduzido em 1999. Afinal, a Itália tem tido fortes desafios estruturais, como por exemplo ser difícil despedir trabalhadores ou controlar monopólios, durante há muito tempo. Não é por aqui, como muitos querem fazer crer, que se pode explicar porque é que a Itália não pode crescer agora, quando antes podia.
A realidade é que o euro tem impedido a Itália de encobrir os seus problemas estruturais como ela costumava ser capaz de fazer, quando podia, pelo menos, desvalorizar a sua moeda para ganhar competitividade. Por outras palavras, a lira italiana poderia cair em valor quando a economia não estava em forte actividade, tornando as exportações italianas mais baratas e oferecendo um impulso ao crescimento. Agora a Itália não dispõe do luxo de ter uma lira mais barata, e assim sente-se presa numa armadilha de falta de crescimento e que não apresenta nenhum sinal significativo de que a situação vá mudar.
Mas a Espanha não tem andado muito melhor. Agora, é verdade que sua economia parecia estar muito melhor ao longo dos últimos 18 meses, mas o crescimento de elevado nível, o que os espanhóis esperavam e precisavam, não apareceu. Os salários em Espanha permanecem baixos e o desemprego permanece elevado – cerca de 24 por cento. É o único país cujo mal-estar da força de trabalho parece em quase tudo semelhante à da Grécia (e, durante algum tempo, era mesmo pior).
Portugal, por sua vez, é um enigma económico sem um culpado óbvio. Não havia nenhuma bolha como havia na Grécia ou na Espanha – não havia na habitação nem nos gastos públicos – mas Portugal era o tipo de país que estava um pouco atrás. Não houve nenhum crash, ou seja nenhum rebentamento repentino nos mercados, pura e simplesmente porque não havia nenhuma situação de forte expansão, ou seja de boom. A partir de 2002, o PIB per capita do país, medida que nos mostra a riqueza per capita de que dispõe anualmente o país, tem estado basicamente constante.
As coisas estão melhores agora, mas não muito. Portugal está a crescer, sim, mas ainda muito lentamente. A última vez que foi público o seu crescimento em termos reais ultrapassar os 3 % ao ano foi há 15 anos – em 2000.
A razão pela qual a Grécia se transformou no pior de todos os casos é que, dos cinco países que estavam já à beira do abismo económico, em termos figurados, desde há alguns anos, a Grécia foi o pior tanto na situação em que se encontrava como também na situação da própria retoma, pois é a que mais caiu e a que menos recuperou. O seu défice orçamental quando se ia a caminho da crise excedeu e em muito o de todos os outros individualmente, por isso teve de fazer muito mais austeridade, desde então. Não é surpreendente que o país que mais cortes teve seja o que esteja agora pior.
Como o economista Branko Milanovic aponta, há uma diferença tangível entre a Grécia e, digamos, Portugal, onde o PIB per capita é aproximadamente o mesmo, mas é diferente a forma como se chegou a este valor do PIB. Portugal terá um PIB equivalente ao do ano 2000, e apenas marginalmente um pouco menos do que ele tinha como PIB per capita um pouco antes da recessão. A economia da Grécia, por sua vez, cresceu muito rapidamente e, em seguida, evaporou-se por quase um quarto entre 2009 e 2013. O ajustamento à baixa pode ser muito difícil.
E não vai deixar de ser assim durante muito tempo. A Grécia acaba de assinar fazer mais e mais austeridade durante os próximos três anos, a sua economia caiu em mais de um buraco agora que os seus bancos fecharam, e está prisioneira de uma moeda que para a Grécia é muito cara.
Roberto A. Ferdman e Matt O’Brien,. Washington Post, How Greece became the worst economy in Europe. Texto disponível em: