Como é que a Grécia se transformou na pior economia da Europa – por Roberto A. Ferdman e Matt O’Brien

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

 

Como é que a Grécia se transformou na pior economia da Europa

Roberto A. Ferdman e Matt O’Brien, Washington Post

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Like it or not, austerity is here to stay. (Petros Karadjias/AP)

 

Os próximos meses serão meses muito difíceis para as economias que estão em situação mais difícil na Europa. A Grécia, numa forma um pouco extraordinária, concordou em aceitar uma longa lista de reformas altamente punitivas depois de um impasse de mais de uma semana que tinha forçado os seus bancos a fecharem e a sua economia a ficar paralisada. O acordo foi concluído em troca de um pacote de ajuda, que poderia chegar aos $100 mil milhões, e de um prolongamento da sua permanência como um membro da zona Euro.

As reformas não serão nada bonitas. A Grécia tem resistido contra mais austeridade e mais que qualquer outra economia europeia economicamente agitada, deslocou-se de um défice de 18 por cento para um excedente de 2 por cento, mais do que o dobro do que qualquer outro país já fez. E agora terá que aceitar ainda mais austeridade mas não é claro se qualquer um destes esforços irá facilitar o cepticismo sobre se todo este caso não terá provocado danos irreparáveis no projecto do euro. Até agora, o euro, no seu 15º ano de existência, foi um benefício simbólico para a Europa, mas igualmente tem sido visto que mais do que um punhado dos países tem estado a sofrer recuos económicos significativos.

Na verdade, é bom lembrar que há uma série de países em crise que estão em muito mau estado – mas nenhum deles está pior do que a Grécia, por uma razão bem específica.

Durante o início da crise financeira europeia, que explodiu em 2009 e 2010, houve uma preocupação especial com cinco países – Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha – que eram, talvez, mais conhecidos sob a forma da sigla PIIGS. Todos eles tinham acumulado dívidas maciças – alguns deles dívida pública, alguns deles dívida privada – o que levou as suas economias a contraírem-se acentuadamente quando o sistema financeiro global arrefeceu fortemente após a crise de 2008, crise esta que teve o seu início nos Estados Unidos. E enquanto o crescimento recuperou nos EUA, esses países tiveram maiores problemas “estruturais” – enraizados nas suas próprias leis – que prejudicam de modo muito significativo o crescimento.

O ponto de inflexão, porém, veio em 2010, quando os mercados perceberam de quanto é que esses governos necessitavam então de pedir emprestado para compensar o mau funcionamento das suas economias. A Grécia estava no extremo do espectro, mas até mesmo países que mantiveram as suas finanças públicas em ordem, como a Espanha e a Irlanda, viram-se incapazes de contrair empréstimos a não ser a taxas fortemente punitivas.

Para restaurar a confiança dos mercados e obter ajuda da Europa e do Banco Central Europeu, os países não tiveram nenhuma escolha para além de terem que aplicar rigorosas medidas de austeridade na forma de cortes orçamentais e aumentos de impostos. A Grécia, que em 2009 teve um défice orçamental que foi igual a quase 14 por cento de sua economia (o maior dos cinco), foi o país que mais sofreu. Mas os outros também sofreram contracções significativas no seu respectivo PIB.

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Esta pressão orçamental tem funcionado no sentido de reduzir os défices dos respectivos países, mas não tem em conta o facto de que também fez com que os encargos da dívida se tenham degradado ainda mais.

O único país onde a situação tem corrido bem é na Irlanda, onde os cortes nas despesas públicas e um boom de exportações – em parte impulsionado pela queda do euro, o que fez com que bens irlandeses tenham ficado mais baratos no exterior – têm ajudado a transformar o destino do país nos últimos 18 meses. É o suficiente para que a Irlanda seja agora, na verdade, a economia de mais rápido crescimento da Europa, embora ainda tenha uma taxa de 9,7 por cento de desemprego.

Mas na maioria dos casos, a austeridade tem prejudicado a economia e de tal modo que, mesmo os países menos endividados, têm mais dificuldade em pagar o que devem porque as suas economias estão a produzir menos e isso significa que recebem menos receitas fiscais.

A Itália é talvez o exemplo mais gritante desta última situação. Os últimos cinco anos têm sido nada menos do que um desastre para o país, cuja economia está ainda a funcionar a menos 10 por cento do que funcionou em 2008. Por outras palavras, o PIB italiano ainda é de 10% menos que em 2008. E, de facto, os danos que a Itália tem sofrido ao longo da última meia década tem dizimado virtualmente qualquer progresso feito anteriormente. A economia da Itália está agora ao mesmo nível do PIB que alcançou em 2000.

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Escusado será dizer que uma década e meia sem qualquer crescimento não é uma coisa muito boa. E não pode ser uma coincidência o facto de que esta estagnação se tenha iniciado quando o euro foi introduzido em 1999. Afinal, a Itália tem tido fortes desafios estruturais, como por exemplo ser difícil despedir trabalhadores ou controlar monopólios, durante há muito tempo. Não é por aqui, como muitos querem fazer crer, que se pode explicar porque é que a Itália não pode crescer agora, quando antes podia.

A realidade é que o euro tem impedido a Itália de encobrir os seus problemas estruturais como ela costumava ser capaz de fazer, quando podia, pelo menos, desvalorizar a sua moeda para ganhar competitividade. Por outras palavras, a lira italiana poderia cair em valor quando a economia não estava em forte actividade, tornando as exportações italianas mais baratas e oferecendo um impulso ao crescimento. Agora a Itália não dispõe do luxo de ter uma lira mais barata, e assim sente-se presa numa armadilha de falta de crescimento e que não apresenta nenhum sinal significativo de que a situação vá mudar.

Mas a Espanha não tem andado muito melhor. Agora, é verdade que sua economia parecia estar muito melhor ao longo dos últimos 18 meses, mas o crescimento de elevado nível, o que os espanhóis esperavam e precisavam, não apareceu. Os salários em Espanha permanecem baixos e o desemprego permanece elevado – cerca de 24 por cento. É o único país cujo mal-estar da força de trabalho parece em quase tudo semelhante à da Grécia (e, durante algum tempo, era mesmo pior).

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Portugal, por sua vez, é um enigma económico sem um culpado óbvio. Não havia nenhuma bolha como havia na Grécia ou na Espanha – não havia na habitação nem nos gastos públicos – mas Portugal era o tipo de país que estava um pouco atrás. Não houve nenhum crash, ou seja nenhum rebentamento repentino nos mercados, pura e simplesmente porque não havia nenhuma situação de forte expansão, ou seja de boom. A partir de 2002, o PIB per capita do país, medida que nos mostra a riqueza per capita de que dispõe anualmente o país, tem estado basicamente constante.

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As coisas estão melhores agora, mas não muito. Portugal está a crescer, sim, mas ainda muito lentamente. A última vez que foi público o seu crescimento em termos reais ultrapassar os 3 % ao ano foi há 15 anos – em 2000.

A razão pela qual a Grécia se transformou no pior de todos os casos é que, dos cinco países que estavam já à beira do abismo económico, em termos figurados, desde há alguns anos, a Grécia foi o pior tanto na situação em que se encontrava como também na situação da própria retoma, pois é a que mais caiu e a que menos recuperou. O seu défice orçamental quando se ia a caminho da crise excedeu e em muito o de todos os outros individualmente, por isso teve de fazer muito mais austeridade, desde então. Não é surpreendente que o país que mais cortes teve seja o que esteja agora pior.

Como o economista Branko Milanovic aponta, há uma diferença tangível entre a Grécia e, digamos, Portugal, onde o PIB per capita é aproximadamente o mesmo, mas é diferente a forma como se chegou a este valor do PIB. Portugal terá um PIB equivalente ao do ano 2000, e apenas marginalmente um pouco menos do que ele tinha como PIB per capita um pouco antes da recessão. A economia da Grécia, por sua vez, cresceu muito rapidamente e, em seguida, evaporou-se por quase um quarto entre 2009 e 2013. O ajustamento à baixa pode ser muito difícil.

E não vai deixar de ser assim durante muito tempo. A Grécia acaba de assinar fazer mais e mais austeridade durante os próximos três anos, a sua economia caiu em mais de um buraco agora que os seus bancos fecharam, e está prisioneira de uma moeda que para a Grécia é muito cara.

Roberto A. Ferdman e Matt O’Brien,. Washington Post, How Greece became the worst economy in Europe. Texto disponível em:

http://www.washingtonpost.com/blogs/wonkblog/wp/2015/07/13/why-europe-is-in-shambles-but-greece-is-most-doomed/

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