A peça AVisita da Velha Senhora, do escritor suíço Friederich Dürrenmatt (1921-1990), é um clássico do teatro mundial.. A ideia central da peça, semelhante a O Rinoceronte de Ionesco, é simples – Gullen, pequena cidade da Europa Central, é afectada por uma terrível crise económica. Até os comboios deixaram de ter paragem em Gullen. Porém, um dia as coisas mudam – Clara Zahanasian, uma das mulheres mais ricas do mundo, nascida na cidade, regressa. Prepara-se-lhe uma recepção triunfal – forças vivas, criancinhas das escolas, banda de música, o habitual.
Trinta anos antes Clara fora expulsa da cidade pelo homem que amava. Regressa, portanto, para se vingar. Oferece ajuda aos habitantes, se deixarem de ser amigos do seu ex- amante,,Alfredo Shill, o homem mais popular e estimado da cidade. Na encenação de Luca de Tena, os que se vendem. aparecem calçando sapatos amarelos. A velha selava o acordo obrigando-os a calçar os tais sapatos. Até que Alfredo fica sozinho…
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Em Abril de 1974 expulsámos a ditadura e com ela quisemos expulsar também os privilégios de classe. Tivemos a ilusão de que tudo ia mudar. E, ébrios de liberdade, cometemos excessos, fizemos disparates… Sobretudo pregámos um cagaço de todo o tamanho aos amigos da velha senhora. Foram 18 meses de bebedeira. O coração não nos cabia no peito, pois tinha agora o tamanho e o fogo de um sol. A «normalidade», voltou em Novembro de 1975. Normalidade é o apelido preferido da velha Senhora. Todos calçámos os malditos sapatos oferecidos pela velha.
Por que motivo a prática dos partidos obedece a um pragmatismo que atropela princípios básicos daquilo que se entende por política de esquerda? Porque esses princípios muitas vezes não são compatíveis com a ânsia de obtenção de votos e constituem empecilho ao seu funcionamento. Partidos e sindicatos que se opõem ao actual governo pretendem desgastar a sua credibilidade (embora pareça difícil desgastar algo que não existe), e substituí-lo por outro que, com outras pessoas, continuará na mesma senda de desonestidade, desbaratamento do erário público, favorecimentos ilícitos, corrupção …
O que é prioritário é lutar pela criação de uma sociedade livre de corrupção e de oportunismo. Lutar contra o PSD, claro, mas sem esquecer que o PS é um gémeo e que substituir um pelo outro é nada mudar. Ambos, têm de ser combatidos em bloco como se fossem um só (e para muitos efeitos, são-no). Quem define como prioritária a queda do PSD, visa a perpetuação do sistema. A ausência de pensamento crítico, levou-nos durante 50 anos a aceitar uma ditadura fascista e leva agora pessoas inteligentes a aceitar como normais todas as anormalidades que transformam a nossa democracia representativa num novo fascismo – ou seja, numa oligarquia em que dando aos cidadãos o direito de escolher o faz segundo o princípio de Henry Ford – Os clientes podem escolher um automóvel de qualquer cor, desde que seja preto”. Nós podemos escolher o governo que quisermos, desde que escolhamos entre a pior gente do PS ou do PSD, os empregados dos grandes grupos económicos e dos interesses do grande capital. É uma nova ditadura. A velha senhora expulsa em 1974, quer vingar-se das afrontas e dita as suas leis. Adoptou um apelido – Democracia – «querem sobreviver e salvar a democracia? Esqueçam os princípios democráticos»