Depois da Livraria Portugal e da Barateira, prepara-se para encerrar as suas portas a Sá da Costa, que acaba de comemorar o seu centenário. A assembleia de credores realizada na segunda-feira passada não aprovou o plano de viabilização e decretou a liquidação. Amanhã, sábado, às 21 horas, vai ser lançado o Manifesto contra o desastroso encerramento das livrarias da Cidade de Lisboa no centenário da Livraria Sá da Costa, que já contará com numerosas adesões. Quem quiser saber mais detalhes poderá ver:
http://www.publico.pt/local/noticia/livraria-sa-da-costa-fecha-no-ano-do-centenario-1600656
ou
http://www.dn.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=3330345&seccao=Livros
Claro que o encerramento da livraria, que estará previsto já para a próxima segunda-feira, dia 22, é o desenlace de um longo processo, que incluiu uma ordem de venda judicial e uma ida a leilão imposta pelas Finanças, que não deram resultados. Perguntarão alguns mais pragmáticos, numa fase de fortíssima recessão e de concentração capitalista muito acentuada e imposta ao mais alto nível, do que estavam à espera? Que as pessoas que integram a chamada classe média, que era quem ainda tinha rendimentos para comprar livros, deixassem de comer e pagar a água e a luz para, uma vez por mês, passar no Chiado, dar uma volta aos escaparates, espreitar as oportunidades e comprar um livro? Pois … Deixar de comprar livros, de ir ao cinema e ao teatro, estão entre as primeiras coisas por que a maioria opta, nestas alturas.
Entretanto as entidades oficiais, portanto, as senhoras e os senhores que estão no governo, na câmara, etc., deviam pensar mais no seguinte: em zonas como o Chiado os elementos culturais desempenham um papel decisivo, mesmo sob o ponto de vista económico, pois são a principal atracção para quem visita uma cidade, e mesmo para os seus habitantes constituem um incentivo para se deslocarem a estas zonas. Os teatros, os cinemas, as livrarias são fundamentais para fixar o comércio e a pequena indústria.
Numa época em que abundam, e bem, na maior parte dos casos, as declarações de interesses nacional e mundial para valores culturais e paisagísticos, seria de promover a declaração de interesse municipal, pelo menos, das livrarias de Lisboa. Em particular as da Baixa, do Chiado e do Bairro Alto, sem excluir as que operam noutras zonas, têm dado um contributo muito especial para o espírito da cidade. Para além da função essencial de pôr os livros ao alcance da mão (da bolsa, nem sempre, mas aí também não seria impossível intervir), têm servido de ponto de encontro para inúmeras figuras de relevo da nossa cultura, de sede de autênticas tertúlias que contribuíram muito mais para a salvaguarda da identidade nacional que outros que andam por aí engatando folhas de excel, e sonhando com o dia que consigam emprego em Bruxelas ou Berlim.

