Site icon A Viagem dos Argonautas

A noite dos estúpidos, uma noite que dura há já cinco anos – por Christine II

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

 (continuação)

 

Plano B? Disse “plano B”? Como é estranho… recentemente soube-se que o grande perito da teoria dos jogos estava a conceber um plano no seu cantinho (com o acordo de Primeiro ministro)… um plano digno de James Bond o mais louco que se possa imaginar, com os maus e tudo e tudo… com pirataria sobre os computadores do secretariado geral das receitas publicas … porque o ministério já não pertence à Grécia, como o declarou alguns dias mais tarde … não compreendi quase nada do seu plano. Uma história de sistema de pagamentos paralelos, por via electrónica… e depois ? A economia, do ponto de vista etimológico, quer dizer “ gerir o orçamento familiar ”… é necessário mais que números sobre um computador para gerir um lar …quanto mais para gerir todo um país…

Então, o que fazer? Mas, bom sangue, é certamente! Um referendo!!! Como é não se tinha pensado mais cedo nisso?! Então, vai-se votar para responder a uma pergunta cuja metade era redigida em inglês. Mas, enfim, pouco importa! A pergunta era clara para todos: “querem prosseguir com toda esta austeridade ou não?” Qualquer pessoa sã de espírito rapidamente responderia OXI à esta pergunta, não é? E, apesar do terrorismo (Uma vez não são vezes) interno e externo, apesar dos bancos fechados e de se passar horas na fila de espera em frente dos distribuidores de notas, apesar do medo do desconhecido (nenhum debate sério é efectuado para se conhecerem as alternativas à austeridade e o que elas implicam), o povo responde OXI em quase 62%, enquanto que todas as sondagens previam uma vitória do sim… (mas bem, as sondagens estão aí para se manipular e CRIAR opiniões e não para as fazer conhecer, esta é efectivamente a lição que se aprendeu na Grécia…) As pessoas são como os anjos! “Há, este golpe, Alexis tem a sua arma, perto de dois terços do povo quer acabar com a austeridade, “os parceiros” não poderão fazer mais nada do que se submeterem à vox populi! “.

Par Georgopalis

 

E aí está Alexis que se apresenta na televisão depois do resultado do referendo. E pensa-se que não se ouviu bem o que disse… pensa-se que não se compreendeu bem o que disse … … “Não, Alexis… votámos OXI! Não se disse para ires discutir com todos os chefes políticos e com o presidente da República para transformar o NÃO em SIM!”

Oups, demasiado tarde! Está feito… é-se simplesmente imbecil que não se tivesse compreendido bem e seguidamente, de toda a maneira, sabe-se, o povo é como as mulheres, quando diz “não” com efeito isso significa “sim”…

E aí está o povo violado, não há nada a dizer, é culpa sua … não se tem a ideia de passear   na Europa arvorando os seus valores e a sua dignidade… é provocante…

E as negociações recomeçam… De indefinição em indefinição e de acordo prévio em acordo prévio, chegamos “às coisas sérias”. O mundo tem razão em gritar “ Isto é um jogo ” e “Alexis protege-te já ”, ele passa a noite em Bruxelas de que Manneken-Pior não deve estar muito orgulhoso. Oh, mesmo assim conseguiu-se que o fundo constituído pelos activos mais preciosos do país não esteja sediado no Luxemburgo mas sim em Atenas! Oh, como nos sabe bem saber se a montra da loja onde o nosso país será vendido se encontra-se em Atenas ou noutro lugar!

Alexis sofre eventualmente a noite em branco com aqueles que continua a chamar de “parceiros” e “instituições”. Apanhou um herpes… (a palavra grega vem do verbo “έρπω” que quer dizer “eu arrasto-me”… como os répteis que, em grego, se chamam “erpeta”…). Tsipras arranca um acordo… “está-se de acordo que se irá estar de acordo mas para se venha a estar de acordo os gregos devem mostrar que se está de acordo! Passem-nos por conseguinte esses projectos de lei rapidamente e voltem para nos vermos, meus caros …”…

Passa-se ao Parlamento os “pré-requisitos ” que mostrarão que o país é sério e que quer negociar seriamente. Assim, numa noite, o código de procedimento civil é mudado … enquanto que tinha sido rejeitado por quase 90% dos advogados gregos e que o governo precedente não tinha sequer ousado insistir… mas, aí está, Syriza está aqui e pode fazer passar tudo … um enorme projecto de lei, cerca de um milhar de páginas, que ninguém não tem o tempo sequer de ler e que, no entanto, é adoptado. O turismo é atabalhoado, com o IVA que aumenta. As ilhas do mar Égée pagarão o IVA como toda a gente (ainda que não tenham direito aos mesmos serviços que toda a gente , até porque muito frequentemente encontram-se sem água, sem médico, sem farmacêutico, sem escola, sem hospital e, além disso, acolhem de boa ou má vontade, milhares de refugiados que fogem da Síria, do Paquistão e dos outros países infelizes…)

E, assim, chegamos ao dia 13 de Agosto. “Os parceiros”, que, doravante são em número de quatro e que já não se podem chamar de “Troika”, são sempre “as instituições” e tornam-se “um quarteto”… e negoceia-se nas salas climatizados de hotéis de luxo de Atenas, para saber com que molho os Gregos e o seu país serão pincelados , desta vez …

Um novo projecto de lei, de cerca de 400 páginas, é apresentado ao Parlamento que devia ser encerrado até ao 16 de Agosto e enquanto que o Primeiro-ministro tinha assegurado à presidente do Parlamento de que “não haveria nenhuma surpresa”…

Zoé sente-se enganada e fá-lo saber. O colégio dos presidentes das comissões competentes do Parlamento reúne-se. Ela preside. “Recebemos do governo um projecto de lei e um pedido de reunir o Parlamento para que este projecto-lei seja aprovado urgentemente. Trata-se de 380 páginas que foram apresentadas ontem durante a tarde. Os serviços do Parlamento passaram a noite a tratá-lo de modo que todos disponham de um exemplar hoje…” É crítica para com o governo que não honrou a sua promessa (não haverá surpresa no mês de Agosto…) e que a obriga a participar num circo… “É a mesma coisa que dar o selo do Parlamento ao senhor Schäuble de modo que este o coloque onde muito bem lhe parecer, na próxima vez”, dirá ela mais tarde, numa reunião do Parlamento que começará às 2 horas da manhã!

Acompanho os debates do colégio dos presidentes desde o meio-dia. Digo a mim mesma que não é possível … Zoé quer que o Parlamento se reúna na parte da amanhã, que os deputados já partiram tenham tempo de voltar a Atenas (o 15 de agosto, em dois dias, é uma festa tão importante como o Natal ou a Páscoa, para os Gregos…) para que eles tenham o tempo necessário para ler este projecto de lei “urgente”… e, depois, porque é que é urgente? Ela colocou a questão ao primeiro-ministro e ao novo ministro das finanças, Euclide mas este foi impossível de alcançar e, então, reúnem-se para definir a ordem do dia da Assembleia que se deve reunir na urgência mas não se sabe sequer porque é que é tão urgente!

(Entretanto, observo o colégio, essencialmente composto por homens e de que grande parte são agressivos com Zoé… logo que ela abre a boca, fazem chacota, fazem comentários, tudo isto a enerva, morde a sua esferográfica, mexe no seu telemóvel… sim, é verdade, Zoé fala muito e claramente, explica ao mais pequeno detalhe – é louco o que pude aprender com ela sobre o funcionamento do Parlamento! … É verdade também que lhe acontece muito frequentemente corrigir o seu interlocutor quando este erra na utilização de uma ou outra palavra ou de uma expressão… então, pense bem, Euclides já passou por isto, com o seu grego muito frágil, porque cresceu na Inglaterra…)

Zoé esforça-se em manter o seu sangue-frio   face a este teatro do absurdo e digo-me que ela se assemelha um pouco à Grécia que se esforça em permanecer de pé, para com e contra todos os que a atacam com “argumentos” tão “políticos” do tipo : “mas onde é que está o seu marido? Não foi capaz de a controlar ?” Sim, leu-se isto num jornal… e ouviram-se deste tipo de comentários a seu propósito… é exactamente como se fosse necessário tê-la mas é mandado lavar a louça, (como os homens têm o hábito de dizer às mulheres que conduzem o carro prudentemente).

A caixa jornalística de kontra news de 15 de Agosto : “Ela não tem mãe nem pai que a pudessem levar ao médico depois do seu delírio no Parlamento ontem? O seu marido não é capaz de a segurar ? “

Duas alterações chegam no último momento… vão ser recebidas ou não? Devem ser tratadas pela comissão competente antes de ser introduzidas na assembleia para adopção. Mas não, não é o tempo de fazer chichi, as alterações serão introduzidos mas apresentam problemas de compatibilidade com a Constituição. Estas trazem mudanças no regime das pensões dos funcionários (com excepção para o pessoal do Banco da Grécia que dependem, eles, do BCE… e que sorte para eles!) e este tipo de coisas deve fazer parte de um projecto de lei que seja isoladamente apresentado. .

Felizmente, o anticonstitucionalista de serviço, o Sr. Venizélos, encontrará a solução na sessão que se desenrola (na Assembleia): basta mudar os títulos das alterações. E isso passará como uma carta nos correios! E os deputados de Syriza aceitam isso! Lafazanis diz que não sabe se dever estar triste ou furioso, em face de um espectáculo e de um tal cozinhado … (mas, verdade seja dita, ele nunca sabe se dever permanecer ou deixar Syriza, de colocar a sua “plataforma” de esquerda debaixo do braço e ir procurar outros horizontes, ou continuar “a apoiar o governo votando contra”.

Numa canoa, “Os refugiados de uma plataforma de esquerda “, enquanto que o avião ( o memorando)  bombardeia a ilha “guerra civil SYRIZA”. Par Georgopalis

Depois de nove horas de debates entre os diversos presidentes, decide-se que a assembleia ir-se-á reunir hoje, na madrugada de 14 de Agosto…. A duração? De acordo com o regulamento, os debates devem durar dez horas… mas vai-se abreviar, não é assim? Contas feitas, não é realmente necessário que os deputados falem… que poderiam eles dizer, de resto? Haverá os porta-vozes dos partidos que se irão exprimir , certos ministros, bem como os presidentes… haverá alguns comentários e respostas aos comentários… e seguidamente votar-se-á… e a questão fica resolvida…

A sessão começa pelas 2 horas da manhã… um único ponto na ordem do dia: debate e adopção do projecto de lei “ratificação do acordo do plano de ajuda do Mecanismo Europeu de Estabilidade e disposições para aplicar o acordo de financiamento”… Zoé apresenta uma síntese aos deputados sobre que se passou durante nestas nove horas de conferência… eles impacientam-se… que isto acabe !

Euclide explicar-nos -á porque é que a questão é urgente : a Grécia deve reembolsar mais de três mil milhões ao BCE, mas não tem esse dinheiro. A adopção deste projecto de lei abrirá as torneiras e os euros chegarão (para voltarem a sair e imediatamente… uma vez não faz um costume mas faz já cinco anos que vivemos neste tormento : dão-nos números sobre um computador e os credores são reembolsados em moeda sonante, que podem sentir nas mãos, palpitante de sangue, suor, sofrimento, de pacientes que não são tratados, de crianças que não comem para matar a sua fome, de pais que andam a correr todo o dia para ganhar uns cobres …)

O discurso é “espantosamente” similar aos que já ouvimos desde há mais de cinco anos. Para uns: “é terrível, vocês estão a vender o país! ” (para o Partido Comunista e Aurora Dourada bem como para membros do Syriza), os outros dizem: “Apoiamos o acordo!” (a maioria de Syriza, os Helenos Independentes, a Nova Democracia, Pasok, Potami). Quem o teria acreditado, que Syriza governaria por actos de conteúdo legislativo (por conseguinte, através de textos com força de lei porque simplesmente assinados pelo Primeiro ministro e pelo ministro competente) e com o apoio dos que criaram o desastre que estamos actualmente a viver, a antiga direita e os antigos sociais? E contudo! Hoje, isto é coisa feita…

(continua)

A noite dos estúpidos, uma noite que dura há já cinco anos – por Christine, I

Texto original: http://www.okeanews.fr/20150817-grece-la-nuit-des-dupes-une-nuit-qui-dure-depuis-cinq-ans-et-demi

 

 

Exit mobile version