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A crise grega… Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – por Panagiotis Grigoriou II

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 (continuação)

 

Esta tendência então fortemente deslizante “da crise grega”, após… ter sido bem ensaboada e por SYRIZA a partir de cima acabará assim por engolir o governo precedente… assim como o fará com o governo seguinte, esperando a ruptura do choque frontal, sob os efeitos por exemplo da mobilização provável e… física do grande número (suficiente) de cidadãos, excedendo talvez os esquemas políticos procedentes dos partidos, antigos ou mesmo novos. De resto, muito provavelmente o partido ANEL dos Gregos independentes não terá êxito para entrar no Parlamento, engolido como ele se arrisca a ser pelo memorando III, à exacta imagem do LAOS (extrema-direita) e DIMAR (esquerda saída de cisão no SYRIZA), pequenos partidos memorandistas que têm governado à sombra dos grandes partidos… sujeitos à Troika.

Os Tsipriotas interpretam da seguinte forma a sua última comédia, as suas presenças na televisão tornam-se cada vez mais patéticas (sobretudo no que diz respeito aos seus ex- camaradas da Plataforma de Esquerda que se tornaram o novo partido da Unidade popular), o seu cinismo então ultrapassa o pensável, triste teatro e triste espectáculo… excepto para os analistas das sondagens ditas de opinião.

Em frente das urnas. “Quotidien des Rédacteurs” de 24 de Agosto de 2015

Memórias e futuro, Pireu, Agosto de 2015

Aurora Dourada : “Nem com os comunistas nem com os credores usurários ”. Porto do Pireu, Agosto de 2015

Assim, e contrariamente aos resultados “convincentes” procedentes das sondagens, nunca pude encontrar sobre no terreno do dia-a-dia inspiração popular… para este SYRIZA ainda subsistente. Ouço frequentemente pelo contrário os Gregos ironizarem sobre SYRIZA, sobre Alexis Tsipras e mesmo sobre a esquerda em geral, parafraseando o desejo, não sem amargura, o slogan da ex- esquerda radical: “Primeira vez à esquerda”. Uma tendência então geral?

Neste do fim de Agosto, o porto do Pireu foi abarrotado de gente, de regresso. Os gregos puderam assim escapar temporariamente ao destino selado, famílias gregas e turistas viajaram amontoados à bordo dos ferrys de percursos e rotas irregulares, ao sabor das necessidades, no dia-a-dia e às vezes mesmo de acordo com as horas. A bordo de um tal ferry desde as ilhas próximas de Atenas, com destino ao Pireu, um posto de televisão difundia as imagens de uma reunião de Alexis Tsipras… na indiferença total. Ninguém se interessava, contrariamente aos aparecimentos e às outras intervenções do ex-primeiro ministro no momento das negociações com “as instituições”. Uma tendência isolada ou então se não é, é então uma vaga de fundo a prever? Difícil dizer.

Ainda observei o pouco interesse geral pelas discussões políticas pré-eleitorais habituais, habitualmente tão caras aos Gregos em tempo normal. Excepto que o único tempo normal é doravante o da meteorologia, os astros, os animais adéspotas (sem dono ) ou os domesticados (que têm um dono ), e nomeadamente neste momento, o dos famosos ventos etesianos que sopram de maneira quase contínua porque fazem parte da estação.

Locais públicos abandonados pertencentes à administração pública. Atenas, Agosto de 2015

Ideias … sobre o futuro de Atenas, Agosto de 2015

Nas Cyclades, Agosto 2015

E quanto aos ventos da sociedade grega, o desconhecido e a amargura reinam como donos e senhores neste país. São numerosos os gregos que deixarão de ir votar, os meus dois vizinhos o exprimem, o meu primo Kóstas, o meu amigo Théodoros… a lista é longa, o coração está partido e a vontade desapareceu. Mau vento ainda, e no porto do Pireu, os autocolantes estampilhados Aurora Dourada… acolhem os últimos passageiros do verão grego, enquanto que uma certa palavra… nostálgica do tempo dos Coronéis, exprime-se cada vez mais abertamente, incluindo à bordo dos ferrys.

O novo partido da Unidade Popular de Panagiótis Lafazánis e os antigos da Plataforma de esquerda em SYRIZA, beneficiam já da colaboração de Alékos Alavános (antigo líder de SYRIZA e infeliz conselheiro de Alexis Tsípras noutros tempos) e o seu movimento do Plano-b, da mesma maneira que, o alinhamento do antigo ministro Nadia Valaváni, e por último é necessário assinalá-lo, do apoio de Zoé Konstantopoúlou, ex-presidente do Parlamento grego. “Era tempo… mas é talvez demasiado cedo ou demasiado tarde. Lafazánis já deveria ter deixado SYRIZA imediatamente a seguir aos acordos de Fevereiro de 2015” (entre o governo Tsipras e a Troika), considera Makis, um amigo e bom conhecedor… dos fermentos da esquerda grega desde há mais de quarenta anos.

Sabendo que a Unidade Popular de Lafazánis se assemelha-se fortemente a uma cópia de SYRIZA (sem a traição de Syriza e com o dracma a mais), a posição do velho PC grego (KKE) nada muda : “É um SYRIZA bis, e trairá no momento oportuno” martela Dimítris Koutsoúmbas, líder do PC grego, em cada reunião do seu partido. Por conseguinte, não há união de Esquerda à vista; apenas, as condições políticas actuais são efectivamente excepcionais e nem sempre o são as pessoas.

Quotidien du KKE: “Seule la proposition du PC sert les intérêts populaires”. 29 août 2015

O sítio da Unidade Popular em Agosto de 2015

Alékos Alavános e o economista Kóstas Lapavítsas aquando dum meeting da União Popular. Agosto de 2015

Depois de tudo isto, para muitos gregos “é toda a Esquerda que traiu”, na sequência da experiência SYRIZA, toda a esquerda e sem distinção, entre a casta dirigente SYRIZA, os Lafazanistas ou os outros. E às vezes assim e não diferentemente sob a realidade da nossa situação de golpe de Estado europeísta e permanente.. Para o meu amigo Makis : “ esta é mesmo a última cartada da esquerda, antes do seu… desaparecimento, ou face ao surdo e forte crescimento de Aurora dourada”.

Nem toda a gente à esquerda (e não só à esquerda) partilha esta análise, e numerosos são os que recordam o carácter extremamente caricatural da Aurora Dourada, organização assim considerada repugnante e “ nada séria enquanto extrema-direita ”. Contudo, o futuro é mais imprevisível que nunca.

(continua)

Texto publicado pelo site greek crisis e disponível em: http://www.greekcrisis.fr/2015/08/Fr0460.html

A crise grega… Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – por Panagiotis Grigoriou I

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