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NÃO CONTEM COM MERKEL – A ESQUERDA ALEMÃ DEVE LUTAR POR UMA SOLUÇÃO PARA A CRISE DO REFUGIADOS QUE NÃO ENVOLVE MAIS CERCAS, GUARDAS FRONTEIRIÇAS OU DEMAGOGIA RACISTA – por LOREN BALHORN – I

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Os fãs de futebol alemães acenam com uma bandeira pró-refugiados num recente jogo de futebol.

Não contem com Merkel

Loren Balhorn, Don’t Count on Merkel – The German left must fight for a solution to the refugee crisis that doesn’t involve more fences, border guards, or racist demagoguery.

site Jacobin, 4 de Setembro de 2015

Os refugiados na Alemanha têm um problema. Ou antes, o povo alemão, como é visível, tem um problema com os refugiados.

As demonstrações xenófobas, os ataques incendiários em abrigos dos que procuram  asilo político e outros incidentes racistas muito maus — como o dos neonazis bêbados a urinaram sobre crianças imigrantes no metro de Berlim no mês passado — suscitaram um largo debate na Alemanha e a nível de outros países sobre a vontade do país e sobre a sua capacidade em receber e cuidar dos imigrantes que fogem da guerra e da pobreza.

As respostas à crise foram mistas: o cerco feito por centenas de extremistas de direita a um abrigo de candidatos a asilo político aterrorizados na cidade de Heidenau na Saxónia  representa talvez o lado o mais desagradável  da resposta da Alemanha até aqui, mas ao mesmo tempo, os milhares de voluntários mostraram a solidariedade e a compaixão, mobilizando uma vasta gama de projectos para acolher e ajudar os novos refugiados.

Isto é realmente uma crise?

O afluxo dos refugiados está a vir principalmente da Síria (cerca de 120.000 na Alemanha e de 300.000 no conjunto da União Europeia, de acordo com as melhores avaliações), do Norte de África, e dos Balcãs. Em números absolutos, o sistema alemão recebeu significativamente mais refugiados em 2014 do que qualquer outro estado europeu, aproximadamente 200.000, e actualmente está face a um dos volumes mais altos de pedidos de asilo individuais no mundo.

Contudo, relativo à população nacional total, a Alemanha não está, nem de longe nem de perto, entre os três principais países europeus que mais refugiados receberam  e o número de refugiados actualmente em Europa empalidece em comparação com o número de refugiados encontrados nos países  do Médio Oriente e do Sul da Ásia, ou seja  20 milhões de pessoas à escala mundial forçadas a fugir das suas casas só  em 2014.

A histeria dominante sobre uma “inundação” de pedidos de asilo que ameaça invadir o sistema social alemão e o europeu no seu conjunto  é apenas isso: a histeria. Face a todas as cenas dramáticas que ocorreram  nas cidades europeias, pode-se dizer que há uma crise de refugiados significativamente maior e que  esta se continua a desenvolver  no Sul Global e desde há muito mais tempo.

Dito isto, o afluxo de refugiados na Alemanha aumentou cinco vezes desde  2008 e, tendo em conta as projecções atuais, continuará a crescer a um ritmo acelerado. Isto representa um desafio significativo para os sistemas que já são insuficientes em acomodar e integrar os requerentes de asilo. O total de pedidos de asilo deste ano já ultrapassou o do ano passado, por isso podemos esperar que vão continuar a aumentar quer a tensão quer as contorções políticas daí decorrentes.

A história principal a partir da perspectiva dos principais meios de comunicação social europeus e ocidentais não é a situação dos próprios refugiados, nem as razões que estão por detrás da crise de refugiados, mas sim a resposta do povo europeu. Para a maioria das primeiras páginas dos jornais neste Verão o crescente sentimento anti-refugiados, particularmente mas não exclusivamente nas províncias orientais da Alemanha, têm dominado as notícias na Alemanha e no resto da Europa.

Manifestações dos extremistas de direita contra os requerentes de asilo tornaram-se uma ocorrência regular no país, especialmente no estado oriental de Saxónia (que teve cinquenta este ano), e os ataques físicos contra os refugiados (ou a pessoas que são vistas como sendo refugiados) estão a aumentar. O mais alarmante, o estado alemão tem registado mais de trinta ataques incendiários contra abrigos desde Janeiro de 2015. Isto é a mais recente onda de ódio e de violência desde há vários anos de crescente sentimento xenófobo, que tem sido alimentado pelos media e pelos políticos.

Durante grande parte do ano, particularmente antes das cenas dramáticas na Grécia, Macedónia, Hungria, e noutros lugares, a situação forçou os políticos alemães a mostrarem um ar de preocupação humanitária, enquanto que a classe política nada fazia nem nada dizia a não ser  puro paleio.

Quando o movimento islamofóbico Pegida começou a organizar manifestações com milhares de pessoas em diversas cidades da Alemanha Oriental no início deste ano, o líder do Partido Social Democrata, Sigmar Gabriel salientou a necessidade de se procurar o diálogo com o movimento, aparecendo mesmo numa mesa redonda organizada pela Pegida em Janeiro. No final de Agosto ele salientou o perigo de que um elevado número de refugiados poderia forçar o sistema social da Alemanha e com isso provocar a ira justificada dos contribuintes.

Enquanto isso, a chanceler alemã Angela Merkel, que anda a ser elogiada pelos media britânicos como um grande líder humanitário da Europa, permaneceu em silêncio, preferindo que fossem os escalões mais baixos do seu partido a lidar com o desastre dos PR (refugiados políticos) (a palavra em calão “à Merkel”, significa  enganar-se ou  evitar tomar medidas, foi recentemente considerada pela juventude alemã como a expressão do ano).

Ambos os partidos da grande coligação envolveram-se num discurso de refugiados “merecedores” e de refugiados “indignos” – os que fogem da guerra e da opressão no Oriente Médio são bem-vindos na Alemanha, ao passo que aqueles que fogem da pobreza na periferia do sudeste da Europa não o são e devem ser deportados logo que seja possível. (O facto de que a maioria dos refugiados dos países dos Balcãs são ciganos, os mais pobres da Europa, os mais oprimidos e são a mais marginalizada das minoria da Europa é geralmente convenientemente ignorado).

Este tipo de argumentos alimenta a suspeita pública sobre os requerentes de asilo e reforça as  atitudes racistas existentes, tornando mais fácil ao mais radical racismo da extrema-direita ganhar uma posição mais importante na sociedade.

Mas este tipo de argumentos também faze sentido no contexto da crescente retórica xenófoba de ambos os lados do establishment político alemão. Foi Thilo Sarrazin, um proeminente social-democrata, cujo livro, um best-seller em 2010, Deutschland schafft  sich ab (A Alemanha a destruir-se a si próprias ) começou a reabilitar o racismo biológico no discurso político das correntes políticas alemãs dominantes. Horst Seehofer, ministro-presidente da Baviera e líder da União Social Cristã, partido irmão de Merkel naquele estado, desenvolve regularmente um populismo racista nos seus discursos públicos (numa conferência de 2011 do partido, Seehofer  prometeu defender o sistema social da Alemanha contra a imigração “até à última bala “).

Assim, apesar de todo  o seu humanismo recente e da  indignação com as cenas horríveis nas cervejarias  das pequenas cidades da Alemanha, foi a grande coligação de social-democratas e de democratas-cristãos que lançou as bases ideológicas para esta mesma explosão.

Durante anos, os políticos alemães utilizaram os imigrantes e os requerentes de asilo como bodes expiatórios públicos para desviar a atenção das verdadeiras causas do declínio dos padrões de vida – ou seja, principalmente dos pacotes de austeridade introduzidos  nos meados da década de 2000 pela coligação governamental dos social-democratas e dos Verdes e que teve a sua continuação com o governo de Merkel desde a crise em 2009.

É apenas no espaço das últimas semanas, com a opinião  pública a ser  inundada com histórias da terrível situação nas fronteiras da “Fortaleza Europa”, que o corpo político alemão mudou de posição e começou a falar num tom mais humanitário. Mesmo o Bild, notório tablóide da direita populista da Alemanha, lançou uma campanha em grande escala para incentivar a população alemã para fazer o possível para ajudar os requerentes de asilo que estão a chegar à Alemanha.

Por comparação com as respostas de muitos outros países da UE, a Alemanha e o seu líder aparecem como uns verdadeiros santos – como dirigentes condutores para que a Europa se torne uma sociedade mais justa, mais humana..

Mas seria um erro ver esta mudança de tom como uma campanha vinda de cima para acolher os milhares de refugiados desesperados à porta da Alemanha. Em vez disso, a classe dominante alemã está a tentar salvar a sua própria pele política, reflectindo e canalizando a onda de apoio que os alemães regularmente iniciaram em resposta à crise, bem como a crescente crítica internacional quanto às políticas do Estado alemão, até agora seguidas.

Por cada imagem terrível de elementos da extrema-direita mais radical que se  opõem ao direito de asilo, há mais casos de alemães comuns que organizam sessões  de boas-vindas para os requerentes de asilo que chegam, dando-lhes alimentos e roupas, e ajudando-os de toda a maneira que podem. Quando as autoridades húngaras deixaram temporariamente de fazer controlos de passaportes e permitiram  que milhares de refugiados alcançassem os comboios para Viena e Munique, os passageiros foram recebidos por centenas de dedicados voluntários, que eventualmente lhes deram muitos alimentos e outros bens e foi tanto que  a apropria  polícia de Munique lhes pediu que parassem de dar  porque a quantidade de produtos oferecidos tornava-se dificilmente de controlar, de gerir.

Estas pessoas são pois o povo alemão – não os oportunistas crassos do parlamento federal – que merecem elogios. Elas confirmaram o que os socialistas já sabem: que, em geral, as pessoas são boas e querem-se ajudar umas às outras. É o sistema capitalista e as suas inúmeras formas de actuar que nos dividem tanto material quanto ideologicamente o que leva a que muitas vezes se faça exactamente o oposto.

Naturalmente, o facto de que muitos alemães rejeitam o racismo anti-imigrante da extrema-direita e estão a organizar-se activamente contra este estado de espírito não nega a existência de um movimento racista bem organizado e perigoso no interior do país, nem é nenhuma garantia de que o clima não pode ou não vai mudar num futuro próximo. Mas serve para contrariar a ideia (também comum entre alguns sectores da esquerda) de que a Alemanha é uma sociedade particularmente racista e intolerante, e abre-nos a possibilidade para uma união pró-asilo e para criar um movimento anti-racista abrangendo amplas camadas não só de gente à Esquerda, mas abrangendo também os sindicatos, as instituições religiosas e a sociedade civil.

Um movimento como este poderia ir além da assistência material concreta para os requerentes de asilo e pode mesmo mudar o debate nacional sobre a questão da imigração (para não mencionar o imperialismo e as consequências sociais resultantes) como um todo.

(continua)

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Ver o original em:

https://www.jacobinmag.com/2015/09/european-union-refugee-crisis-germany/

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