Os céus da Europa estão carregados de nuvens bem escuras, sejam elas vistas a partir da Ucrânia ou de qualquer país da União Europeia, dada a vaga de migrantes que a percorre neste momento e dadas as movimentações políticas que estas podem gerar. Vivemos numa profunda crise na Europa, dita crise das dívidas soberanas, onde em vários casos se transformou primeiro dívida privada em pública, Grécia, Portugal, Irlanda, ou se ignora a dívida privada pura e simplesmente, caso de Portugal, Holanda, Dinamarca, etc, O que importa é falar do que é publico, o resto é para esquecer. A partir desta ideia, é um ataque à Europa social que com dificuldade se foi criando ao longo de décadas. Os milhões de europeus que desempregados a percorrem à procura de emprego, muitos deles já sem nenhuns direitos enquanto trabalhadores, os ataques sucessivos ao Estado nação e consequentemente ao Estado Providência onde este ainda existe, são exemplos claros de uma Europa que está de costas virada para a Democracia.
Neste contexto, a situação agora criada com as vagas de migrantes torna o céu europeu ainda mais escuro e aumenta a probabilidade de tempestades de efeitos incontroláveis. É é tanto mais assim quanto mais é notória a falta de líderes com capacidade de perspectivar uma Europa futura mais humana, mais solidária…e, por isso, com a crise dos migrantes a “invadir” a Europa, poderão desencadear-se fenómenos xenófobos bem perigosos, exactamente a extrema-direita poderá incentivar os milhões de precários que a União Europeia conscientemente criou a tomarem esses mesmos migrantes como seus adversários de classe!
Um terreno emocionalmente perigoso, um terreno em que a esquerda deve reflectir e em profundidade. Não é uma tarefa fácil, porque não basta situarmo-nos no plano dos princípios abstractos mas sim de nos colocarmos no terreno e face às múltiplas contradições em que cada Estado-Nação se encontra enredado. Nesse sentido apresentamos aqui alguns textos que nos apontam para as origens da crise global que agora se atravessa, uns que nos levantam imediatamente a nossa adesão como por exemplo o texto de Slobodan Despot Migrantes: pornografia mórbida e manipulação, publicado pela revista Causeur, o texto de Loren Balhorn Não contem com Merkel, publicado pelo site Jacobin, e textos outros publicados por revistas de esquerda, Boulevard Voltaire e revista Metamag, que julgo de leitura obrigatória mas de que me distancio. Destes, distancio-me, não pelo tom mas sim pelas posições que ou me parecem claramente à direita, como é o caso dois textos do escritor Pierre-Emile Blairon com os textos Passadores e clandestinos -A máfia política está no poder e sobretudo com o texto Ajuda aos « migrantes » : compaixão ou colaboração, ou me parecem um pouco fantasistas ou simplistas como é o caso do texto CLANDESTINOS, IMIGRADOS, MIGRANTES, REFUGIADOS. NÃO… de Michel Lhomme, um autor de que habitualmente gosto muito.
São textos que penso nos poderão ajudar a reflectir sobre a crise presente, sendo certo que há um fio comum a todos eles: o que se passa tem a ver com a globalização ou melhor com a postura de cada país face a ela e face às subserviências que por isso mesmo se sente levado a assumir, com o facto de que essa subserviência é acompanhada por um aprofundamento da degradação da nossa classe política, submetida ao reino do domínio do grande capital à escala planetária.