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Sorbonne-Qatar: dever de submissão? por Daoud Boughezala

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Sorbone-Qatar: dever de submissão ?

O Presidente da Fac não tem petróleo mas tem amigos emires

Daoud Boughezala, Revista Causeur

Ontem à noite uma toupeira que anteriormente terá trabalhado na Sorbone enviou-me um comunicado do seu antigo presidente da universidade. No texto fala-se de imigrantes sírios e de dinheiro do Qatar, mas eu não vou deixar pairar no ar o suspense por muito tempo, veja-se o texto:

“Comunicado do Presidente de 15 set 2015

Acolhimento de refugiados estudantes na Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne

Ao mesmo tempo que o Presidente da República acaba de reafirmar o compromisso da França, terra de asilo, a situação de guerra que conhece o Oriente Médio e a crise humanitária que afecta drasticamente a população civil, torna-se urgente a mobilização de todos.

Fiel aos seus valores de solidariedade e de humanismo, a Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne, os seus estudantes, os seus professores e investigadores, o seu pessoal administrativo e bibliotecário, irão acolher uma centena de estudantes de refugiados. A universidade oferece-lhes percursos adaptados às suas necessidades para poderem aceder às formações de maior graduaçã0 .

Informado desta iniciativa e disposto a contribuir para essa acção humanitária, o Emir do Estado do Qatar propôs ao Presidente da Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne que aceitasse o seu apoiar nestas iniciativas. A sua participação financeira irá contribuir principalmente para as despesas de custo de vida e de habitação dos estudantes refugiados sírios.

O Presidente da Universidade e o Procurador-Geral do Estado do Qatar assinaram segunda – feira, 14 Setembro um memorando de entendimento que especifica as condições para esta parceria para um valor de despesas de € 600.000 por ano, durante três anos.

Ao abrir as suas portas nas suas principais áreas de formação e investigação, direito e ciências políticas, economia e gestão, humanidades e artes, a universidade pretende preparar os quadros de que o Oriente Médio terá necessidade para a sua reconstrução e desenvolvimento no futuro. “

Em resumo, em nome dos “seus valores de solidariedade e humanismo”, a universidade mais prestigiada em França prepara-se para receber centenas de refugiados sírios e para lhes fornecer os meios financeiros para suportar os seus encargos com o estudo e alojamento graças aos dinheiros do Qatar. Não há necessidade de investigar ou de se levantar eu-não-sei que lebre, tudo está escrito preto no branco: o Procurador-Geral do Estado de Qatar comprometeu-se a entregar 1,8 milhões de euros ao longo de três anos. Em suma, se a cidade-Estado não abre as suas portas para qualquer imigrante de Aleppo ou de Raqqa, a dinastia Al-Thani – já mecenas do PSG, do Hotel du Livre e dos djihadistas sírios – irá fornecer os seus subsídios também para o Quartier Latin sem gastar nada em casa própria. Na linguagem islâmica, uma tal caridade é chamado zakat e figura com destaque entre os cinco pilares que cada crente deve respeitar.

Mas Philippe Boutry, o Presidente da Universidade Paris-I, não precisa se os seus extremamente generosos amigos qataris influenciam ou não a sua concepção de liberdade de expressão. Assim, em Março passado, este eminente universitário enviou a polícia a fim de censurar a exposição de seis dos seus estudantes em artes plásticas que tinham tido a estranha ideia de expor um tapete de oração muçulmano sujo por carne ensanguentada e acompanhado do retrato de uma mulher em niqab com a cara marcada e suja igualmente com carne ensanguentada. No total, duas obras – sobre uma vintena de criações – desviavam-se dos códigos islâmicos. No dia 10 de Março de manhã, este material profano foi retirado manu militari, antes de um estudante rebelde apresentar um recurso provisório-liberdade ao tribunal de Paris. Este último deliberou uma vez mais em termos não francamente lisonjeiros para a direcção da faculdade: “o presidente da Universidade Paris 1 Panteão-Sorbona, no exercício dos poderes de polícia que detém com o propósito da segurança dos utentes do serviço público e da gestão das dependências do domínio público, praticou uma infracção grave e manifestamente ilegal à liberdade de expressão dos seis estudantes cujas obras de arte deviam ser expostas”.

Tenho talvez má intenção em insinuar a existência de uma menor ligação qualquer entro este episódio pouco glorioso de censura abortada e o cheque em betão que os Qataris acabam de garantir para a Sorbone. Mas satisfaço-me em recordar factos; a cada um que tire a sua própria conclusão.

Esta acumulação de coincidências recorda uma ficção à volta da qual se faz grande barulho no inverno passado: o romance Soumission de Michel Houellebecq. O seu herói, um professor de Faculdade vê a sua universidade – Paris III – comprada por fundos sauditas, que não olham a despesas, retribuem e concedem apartamentos chorudamente aos quadros que lhes interessam. Tudo isto, através de alguns acordos razoáveis, ou seja com a destituição dos universitários críticos do islamismo e a divulgação de uma visão do viver em conjunto, em sociedade, compatível com a visão dos emires da Arábia saudita. De regresso à universidade de onde foi destituído, o narrador do livro de Houellebecq dá-nos esta descrição que nos enregela :

“Exteriormente, não havia nada de novo na Fac, excepto uma estrela e um crescente de metal dourado, que tinham sido acrescentados ao lado da grande inscrição: “Universidade Sorbona Novo Paris 3 ″ que estava à entrada; mas, no interior das construções administrativas, as transformações eram mais visíveis. Na antecâmara, era-se acolhido por uma fotografia de peregrinos que efectuam a sua circumambulação em redor do Kaaba, e os gabinetes   estavam decorados com cartazes que representam versículos do Alcorão caligrafados; as secretárias tinham mudado, não reconhecia uma só que fosse, e todas estavam de cara velada.”

Falaram em Submissão ?

 

Daoud Boughezala, Revista Causeur, Sorbonne-Qatar: devoir de soumission?

Le président de la fac n’a pas de pétrole mais il a des amis émirs. Publicado em 16 de Setembro de 2015. Texto disponível em :

http://www.causeur.fr/qatar-sorbonne-migrants-houellebecq-soumission-34579.html

 

Sorbonne-Qatar: dever de submissão? – a introdução de Júlio Marques Mota

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