Sorbonne-Qatar: dever de submissão? – a introdução de Júlio Marques Mota

Falareconomia1

por Júlio Marques Mota

 

Nota introdutória ao texto Sorbonne-Qatar: dever de submissão ?

 

 

Em Junho passado escrevi um texto sobre a crise na Europa, texto esse que se destinava a apresentar uma colecção de pequenos textos editados pela revista Causeur.

Nesta apresentação falava-se muito de um livro, Soumission, de Michel Houellebecq, e pela minha parte fiz algumas citações dele relativamente à Universidade em França e à história apresentada pelo narrador do livro. O livro foi visto pela esquerda oficial francesa, no poder, como uma provocação política e associado também ao Je suis ou Je ne se suis pas Charlie. Pessoalmente não o entendeu assim a pessoa que mo ofereceu, um distinto professor da Universidade de Coimbra, pessoalmente não o entendi assim, eu próprio. Gostei do livro. O que disse então foi o seguinte:

“O ponto alto da crise europeia foi deslocado. Dia 5 de Junho não há pagamento da Grécia ao FMI e não há incumprimento da Grécia. Transferiu-se o problema mais uma vez, intensificando-se porém a incerteza, com todos os prejuízos que isto acarreta.

A questão é económica dizem-nos os neoliberais mas, ao sê-lo, é então eminentemente política e não passível de ser encarada apenas como uma questão técnica. Tsipras afirmou-o na peça que publicámos e a Europa reconheceu-o na noite de segunda-feira quando se reuniram até à uma da manhã com Merkel, em Berlim, os pressupostos senhores da Europa, François Hollande, Jean-Claude Juncker, Mario Draghi, Christine Lagarde. Estes, garantidamente irão sobretudo procurar uma solução técnica e não política, o que nestes moldes não existe porque não se pode exigir a alguém que pague de imediato o que não está em condições de poder pagar. Entretanto, verga-se toda a Europa ao dogma que está subjacente a esta exigência, a de que a austeridade gera crescimento, uma vez que as dívidas só são pagáveis com crescimento. Fora disso, só o raciocínio mágico religioso da idade das Trevas tão bem descrito pelos gregos através da figura do pharmakos com múltiplas referências para lá do século V antes de Cristo, pode ser considerado equivalente a esta teoria absurda de que a austeridade é expansionista e em nome da qual tudo o resto deve ser sacrificado. Um universo de dogmas contra um outro universo de rituais mágicos e sangrentos. Porém, nós agora estamos no século XXI.

Mas não será do domínio mágico-religioso pensar-se que em tempo de crise os mercados devem ser soberanos e os Estados soberanos devem-lhes estar subordinados? Mas não será do domínio mágico-religioso pensar-se que em tempo de crise a austeridade de todos gera o crescimento para cada um do conjunto? Mas não será do domínio mágico-religioso pensar-se que qualquer regulação é sempre pior que a desregulação que ela quer evitar, porque enviesa e emite maus sinais aos mercados? O poder aos mercados, é o mandamento único da nova religião, onde os seus templos são as bolsas. Uma anedota diz-me muito desse tipo de pensamento:

Quanto tempo levam cinco alentejanos a colocar uma lâmpada no tecto de uma sala? Uma eternidade, diz-nos a anedota. Um em cima da mesa que coloca a lâmpada e espera que quatro outros alentejanos façam rodar a mesa e assim a lâmpada se vá enroscando… E quanto tempo leva um economista a fazer a mesma tarefa? Nenhum diz-nos a anedota, porque este deixa a tarefa para os mercados.

Acabo de ler um livro supostamente maldito, Soumission, de Michel Houellebecq que nos fala exactamente da miopia política em França e num momento em que a oposição à ascensão do islamismo é apenas feita pela Frente Nacional, enquanto o PSF pela mão de Manuel Valls apanha o comboio do islamismo para não perder totalmente as migalhas que as correias do poder lhe podem dar, coligando-se com os islamitas. As eleições são ganhas pela FN, em segundo lugar ficam os islamitas e em terceiro lugar o PS. A coligação dos dois partidos, o Muçulmano e o PS, tem mais votos que o partido mais votado, a FN, e é pois esta coligação que assume o poder, com os islamitas a assumirem o comando desse poder. Nas negociações para a coligação entre os islamitas e os socialistas, o controlo de um ministério do governo francês é chave para os muçulmanos: o da Educação. E aqui uma figura é trágica, Roger Rediger, um universitário de nível e Presidente das Universidades, que assume uma tarefa, estudada ao milímetro: a de destruir o ensino republicano, espinha dorsal da República Francesa, vergar, comprando-os, os professores universitários de alto gabarito. E consegue ambas as coisas.

O livro é pois uma crónica sobre a subida ao poder em França de um Partido islâmico com o apoio das gentes do PS, contra a Frente Nacional e é também uma crónica sob a falta de espinha dorsal no corpo universitário como um todo. Uma personagem central neste livro, Robert Rediger, é exactamente um universitário de prestígio que assume como principal função a de converter os universitários de alto nível, no quadro de um sistema fundado na desigualdade social, aos valores do Islão. É preciso abafar as vozes de prestígio que possam dizer Não. Como instrumento de base o dinheiro disponível para os calar e como objectivo intermediário a incultura que estes ficariam encarregados de reproduzir, depois de desmantelado o sistema de ensino republicano até aí em vigor. Mas a conversão tem de ser publicamente assumida e nada melhor do que uma das instituições de ensino de maior prestígio de que dispõe a França para ser o palco dessa conversão pública à qual se submetem um a um a maioria dos universitários: a Sorbonne. Deste ponto de vista, trata-se de um texto sublime quanto à decadência do Ocidente, porque é notável a descrição feita pelo autor quanto aos argumentos utilizados e quanto ao número de professores presentes, uma “obra” realizada por Robert Rediger, que vai de “mentor” das Universidades, a Presidente da Sorbonne, a Ministro do Ensino Superior e depois a Ministro dos Negócios Estrangeiros, lugar fundamental no contexto político da situação descrita no livro. Se alterarmos os dados desta alegoria, e se colocarmos em vez de Alá a Confiança Suprema nos mercados, em vez das mesquitas as bolsas, utilizando o mesmo instrumento, a doutrinação pelo ensino, num lado o Alcorão, no outro o neoliberalismo puro e duro, mantemos a estrutura do livro e explicamos uma outra submissão, a submissão actual de todo um continente a uma ideologia, a um pensamento mágico e religioso, a de que a saída da crise está nas políticas de austeridade. E a minha pergunta é então: haverá diferença entre todo o trabalho político de Rediger, também um defensor da desigualdade social como elemento da dinâmica social, no seu trabalho de conversão e na submissão das elites e o texto dos 4 Presidentes Europeus da União Europeia, que expressa a análise que eles fazem sobre a crise, com o título Preparing for Next Steps on Better Economic Governance in the Euro Area – Analytical Note, assinado por Jean-Claude Juncker, Donald Tusk, Jeroen Dijsselbloem e Mario Draghi? Ou ainda aqui mais perto, haverá diferença entre esse trabalho de conversão e de submissão das elites e o de Mário Centeno com o programa Uma década para Portugal ou os textos de Francisco Assis a elogiar Macron e Matteo Renzi? Textos do sistema, a defenderem o sistema, todos eles a serem obra de verdadeiros Leopardos e fundamentais na reprodução social da estrutura de classes vigente, ao assumirem a função de mudar os textos para que os textos possam continuar a representar exactamente a mesma coisa. Não podemos mudar a Europa, aliemo-nos então a ela, dirão todos estes senhores. Dúvidas? Olhe-se então para os 7 anos de crise e para as nossas universidades de Bolonha, olhe-se para a incapacidade das mesmas em discutir a crise e a agonia da Europa. E não nos esquecemos que quem mais destruiu a estrutura do ensino nas Universidades em Portugal foi exactamente o partido Socialista com Mariano Gago. Veja-se que Nuno Crato não tem já que mudar nada, só tem que fazer uma coisa mais: com o argumento de que não há dinheiro, apertar o garrote ainda mais às Universidades. E tem-no feito. Mas a este falta-lhe a classe, a inteligência da personagem Robert Rediger, criada pelo autor de Soumission, até porque em Nuno Crato tudo é primário, primário de mais, para não dizermos que tudo nele é carroceiro.”

Vem tudo isto a propósito do texto que se segue com o titulo Sorbone-Qatar: dever de submissão? O texto fala-nos como no livro Soumission de financiamento das Universidades pelos emires, neste caso do Qatar e para financiar estudantes sírios, ao mesmo tempo que os mesmos emiratos financiam os djihadistas que os expulsam da Síria. Estranho detalhe. Aliás dado o preço elevado de muitas passagens clandestinas, por vezes uma fortuna, ninguém se pergunta de onde vem o dinheiro para essas passagens. A menos que todos sejam ricos! E esse dinheiro não é pouco em valor absoluto quanto mais em valor relativo tendo em conta que serão economias fracamente monetarizadas. Não será assim? Há quem diga que muito do dinheiro investido nessas passagens vem da extrema-direita americana e com a intenção de destruir exactamente a sociedade síria que seria assim atacada pelos dois lados. Depois, será só bombardear os djihadistas, o que se tornaria depois bem mais fácil. Será assim? Não sei, não sei se alguém sabe. Mas, convenhamos,  é   estranho. E é tão estranho como vemos gente a fugir de um país devastado pela guerra desde há vários anos, gente com uma formação de fazer inveja a muitos europeus. Veja-se os discursos, esteja-se atento ao inglês e fica-se com a sensação de que algo   está muito errado neste podere reino da Dinamarca, agora chamado Europa, União Europeia, Zona Euro. Porque então a Síria terá sido um país que funcionou e pelos vistos melhor do que na Europa. Porém, se isto é verdade, porquê então esta guerra altamente destruidora e onde corremos todos o risco de ficarmos envolvidos?

 

Coimbra, 22 de Setembro de 2015

Júlio Marques Mota

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