BREXIT: UM EXEMPLO DA ENORME NUVEM DE FUMO A PAIRAR SOBRE A REALIDADE EUROPEIA – 17. BREXIT: A PROPAGANDA GROSSEIRA DO TESOURO INGLÊS – ENTREVISTA COM O ECONOMISTA DAVID BLAKE, por DAOUD BOUGHEZALA e GIL MIHAELY

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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Brexit: a propaganda grosseira do Tesouro inglês

Entrevista com o economista David Blake

Boughezala et G. MihaelyBrexit: la propagande grossière du Trésor britannique – Entretien avec l’économiste David Blake

Revista Causeur.fr, 23 de Junho de 2016

Um estudo prospectivo publicado pelo Tesouro britânico anunciou um cataclismo económico no caso de Brexit. O economista David Blake denuncia um trabalho tão partidário quanto parcial.

David Blake é professor em Londres –

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Sipa. Numéro de reportage : AP21905530_000001.

 

Daoud Boughezala et Gil Mihaely. No quadro da campanha do referendo sobre a adesão do Reino Unido à União Europeia, o Ministério britânico da economia estima o custo de uma saída para o Brexit pelo menos em 4 300 libras (5 587 euros) por agregado familiar em 2030. O senhor  está a contestar as conclusões deste estudo, como um perito independente ou como apoiante do Brexit?

David Blake.

Eu critico este estudo como economista. O que me levou a fazê-lo foi a declaração do governo britânico que “todos os economistas com excepção de oito deles estão de acordo com as conclusões do estudo pelo Ministério da economia”. Em quarenta anos na Universidade, eu raramente vi tantos economistas aprovarem a mesma política económica. Uma tal unanimidade é frequentemente um sinal de que os seus defensores não têm razão. Este foi o caso, quando a maioria dos economistas britânicos apoiaram a adesão do Reino Unido ao sistema monetário europeu e, depois, à zona euro. Inicialmente, eu não era a favor da Brexit, mas duas coisas me fizeram mudar de ideias. Primeiro, a verdadeira vigarice que é este estudo publicado pelo governo sobre as consequências económicas de uma saída britânica da UE que tem largamente exagerou os custos de tal eventualidade. E, depois, a intolerável pressão internacional sobre nós, britânicos, para ficarmos na UE: pressão dos Estados Unidos, da China , do Banco Mundial, da Nato e de muitos mais. Esta pressão é muito contraproducente. O défice de democracia na UE preocupa-me. É um fenómeno que empurra os cidadãos para a extrema – direita na Polónia, Hungria e França; e para a extrema-esquerda na Espanha e na Grécia. Em 1975, integrámos o mercado comum e não uma União política. Não é necessário fazer parte de uma União política para beneficiar de trocas económicas favoráveis.

Entremos agora no cerne da questão: que critica então neste estudo do governo sobre as consequências económicas de uma saída britânica da UE?

Este estudo envolve dois modelos: um, de curto prazo, e um outro, de longo prazo. O modelo de avaliação dos custos a longo prazo para um Brexit baseia-se , tal como a física newtoniana, na ideia de que mais um país se aproxima do núcleo da UE, mais é também o seu impacto económico positivo (comércio, investimento, ganhos de produtividade e crescimento). Assim, mais o Reino Unido se afasta do núcleo da UE que são os países membros da zona euro, mais perde economicamente. Mais ainda , o estudo conclui que não há nenhum cenário em que o Reino Unido ganhe com uma tal saída. No entanto, este modelo não explica vários fenómenos:

A parte das exportações britânicas para a UE diminuiu de 54% em 2006 para 44% em 2015, apesar do aprofundamento da integração europeia. Ora, se a proximidade com o núcleo da UE promove o comércio internacional, não poderíamos obter  estes valores.

  • A economia da Gronelândia tem crescido rapidamente desde que o país deixou a Comunidade Económica Europeia em 1985

  • A saída da Irlanda de libra esterlina (e a adopção da libra irlandesa) não levou à degradação da sua balança comercial com o Reino Unido.

O estudo teria previsto que o Reino Unido teria feito melhor em  adoptar o euro, e que todos os países do mundo deveriam fazer o mesmo! De acordo com a mesma lógica, se em 2014, a Escócia decidisse deixar a Grã‑Bretanha, as suas trocas com as outras nações do Reino teriam caído cerca de 80%. Quando se leva em conta três séculos de União económica e política, a geografia, a língua, a moeda e a semelhança dos sistemas jurídicos, quem pode levar um tal estudo a sério?

O estudo exagerou pois e grosseiramente as consequências a longo prazo do Brexit.

Pelo menos a curto prazo, um Brexit seria economicamente aventureiro… é o que quer dizer?

Sim, isso é verdade. De acordo com o Ministério Britânico da economia uma saída da UE imediatamente resultaria numa recessão. Mas o modelo de prospecção utilizado não permite estabelecer relações de causa e efeito entre variáveis. Por exemplo, argumenta que o PIB caiu durante a crise financeira de 2008, quando o “índice do medo” estava no seu pico e os britânicos particularmente pessimistas. O PIB evoluindo mais lentamente que o índice de medo, é difícil estabelecer uma simples relação causal entre os dois.

No entanto, o estudo que eu contesto partilha uma série de pressupostos extremos. Por exemplo, ele supõe que a votação a favor da saída da UE irá criar um choque económico em metade equivalente ao choque causado pela crise de 2008. Lembremo-nos que, em Setembro de 2008, o sistema financeiro global estava à beira da implosão. Pior, o relatório do Tesouro britânico assume que este estado de torpor, devido à extrema incerteza continuará por mais dois anos…

Isto não é uma suposição delirante. Como é que o governo Cameron administraria ele um país isolado dos seus primeiros parceiros económicos e políticos?

Precisamente, o estudo prospectivo não leva em conta nenhuma política pública e pressupõe que o governo britânico iria assistir  à crise como um puro espectador. No entanto, durante a crise de 2008, o Ministro da economia conseguiu gerir muito bem as expectativas dos britânicos e injectou 375 mil milhões de libras na economia de acordo com o princípio “Vamos fazer qualquer coisa» – (« we will do whatever it takes »). E nós sabemos que o actual ministro da economia se prepara para fazer o contrário, aplicando uma política de austeridade bem rigorosa, com cortes nas despesas públicas e aumentos de impostos. Gostaria de acrescentar que o estudo do Tesouro britânico ignora outros relatórios que mostram que uma saída da UE teria pouco ou nenhum impacto sobre a economia britânica.

Boughezala et G. Mihaely, Revista Causeur, Brexit: la propagande grossière du Trésor britannique – Entretien avec l’économiste David Blake. Texto disponível em:

http://www.causeur.fr/brexit-la-propagande-grossiere-du-tresor-britannique-38845.html

 

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