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Eleições contra a Democracia – por Dimitris Konstantakopoulos II

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

(conclusão)

 

Hoje, o seu governo e ele mesmo, em pessoa, estão de pés e mãos atados, cativos das potências que os “enganaram” ou, para seros mais precisos, que os ajudaram “a enganar-se”. É por isso que o vice-Presidente, Giannis Dragasakis, agradece ao governo dos EUA.

 

Tsipras como arma do memorando

Num ambiente que reenvia ao Processo de Kafka, Tsipras ele mesmo tornou-se o argumento essencial contra o povo grego. É como se, em 1940, se obrigasse Ioannis Metaxas (NdT: primeiro ministro grego que Mussolini pediu deixar passar as suas tropas e, por conseguinte, invadiu a Grécia. Metaxas recusou e foi o início da 2.ª guerra mundial para os Gregos), depois do NÃO e de um mês de guerra, a assinar a capitulação e a explicar como é que a “a ruptura” com Mussolini era impossível e catastrófica. Quse se teria a passado na frente , após tais declarações e ações?

O sinal que “emite” Tsipras, ou seja, os seus conselheiros em comunicação, é :

“Olha o corajoso rapaz. Bateu-se durante seis meses, fez o que podia. É possível que este jovem rapaz sorridente , em que todos nós acreditámos, que todos nós apoiámos , por quem todos nós votámos, se tenha enganado a tal ponto ? Pode ele ser “um traidor “, ele, um homem de esquerda?! Será possível que cheguemos a esta conclusão?! Não. Se Tsipras e Syriza não o conseguiram, se eles não puderem libertar o país das suas amarras,   isto significa que ninguém mais o conseguiria fazer . Seria simplesmente catastrófico se alguém mais o tentasse conseguir. Por conseguinte, devemos baixar r a cabeça e aceitarmos que europeus e americanos nos ditem, tentando fazer as coisas tão bem quanto possível”.

À título secundário, deixa-se entender que é forçado e constrangido que ele permanece no poder, uma história de nos salvar , amaciar os efeitos… nocivos do acordo que ele mesmo aceitou! Deixa-se entender, o mesmo é dizer que, fundamentalmente, em vez de permanecer à Maximou, discutindo com Holande e Merkel, ele preferiria- regressar às tabernas populares de Galatsi (ou, pelo menos, Aos estabelecimentos de Ekali (NdT: “BAIRROS DE LUXO o” de Atenas) do que sofrer para o resto da sua vida o ódio ou o desdém de uma parte não negligenciável do povo grego – porque, naturalmente, todos os sonhos, bons ou maus, têm um fim e, num momento dado, todo a gente se submeteu ao choque, por muito forte que ele   tenha sido . (A ele mesmo, os amigos e conselheiros fatais nos quais confia, dizem-lhe que deve aguentar a barra, que há aqui algo de Mitterrand e De Gaulle. Que ele é o novo “Andréas Papandréou”, como se isto fosse possível, independentemente da ideia que se tenha a propósito de Andréas e do Pasok e do papel enorme, bom e mau para a Grécia, que desempenharam , de os reduzir a uma colecção de truques e de aldrabices bem sucedidas!).

Ainda que o pobre cidadão Grego, que recebe bombardeamentos políticos e comunicacionais sucessivos, antes de receber os tiros económicos do terceiro e pior memorando de sempre , não acredita em nada disso, , que conclusão tirará ele? Que “tudo está perdido”, que nada se pode fazer , por conseguinte, “é necessário sobretudo que eu veja como sobreviver, não tem mesmo sentido ir votar, vamos, votarei no máximo por Leventis (NdT: antigo membro do Pasok, que criou o seu próprio partido e não é muito seriamente considerado desde que há várias décadas, seja muito crítico para com os homens políticos gregos de todos os quadrantes. Tendo o hábito, aquando das suas emissões TV, de beber o seu café frappé e de gritar , era considerado como um comediante da política… agora, pensa-se que fará a sua entrada ao Parlamento…) quem, de repente, se tornou o preferido dos meios de comunicação social dos oligarcas”. É como “o império” é omnipresente e muito potente, sentando provavelmente num qualquer hotel de Atenas, nos escute e reaja ao mais pequeno menor incidente. Lançou-se sobre a Internet a informação errada segundo a qual as eleições são nulas se a participação for inferior à 50%: história de fazer aumentar a abstenção.

 

A comunicação na era do totalitarismo

 

A comunicação de Tsipras e a utilização do homem como sendo a arma mais potente contra o seu próprio partido e a sua nação, é um das maiores realizações jamais alcançadas pela tecnologia política. Sublinhemos que este resultado não podiaser obtido por especialistas gregos de comunicação na Grécia, nem pelos “generais” tipo Flampouraris (NdT: “o mecenas ” espiritual de Tsipras…) e Dragasakis. Obviamente, parece que temos de nos confrontar com o mesmo tipo autores como os de Kastelorizo (NdT: a pequena ilha de Mar Égée, onde Papandréou anunciou que a Grécia ia recorrer ao FMI), como o anúncio de Anastasiadis em Chipre (NdT: o presidente que anuncia o memorando cipriota), e de certos discursos de Samaras (ex-primeiro ministro).

São sucessos, é necessário reconhecê-lo. O dia em que Tsipras regressou de Bruxelas depois de ter capitulado e em que concedeu uma entrevista à ERT, a televisão pública, a filha de um dos meus amigos telefonou à sua mãe dizendo-lhe: “Mamã, convenceu-me. Sei que me enganei. Estou a telefonar-te para que te me expliques porque é que me engano ! ”

O principal “estratagema” da comunicação Tsipras consiste em colocar o inconsciente dos cidadãos em frente do dilema seguinte: “preferem guardar a vossa esperança viva ou preferem naufragar no desespero? ”. (Naturalmente, de modo a que isto funcione, é necessário que falte uma solução alternativa fiável e era essa uma das razões pelas quais as eleições devem ter lugar o mais rapidamente possível antes que os antimemoranda se empenhem   em formar um polo alternativo um pouco mais fiável e antes que as consequências da capitulação se tornem perceptíveis. De facto, se Tsipras pensasse realmente que obteria um acordo satisfatório quanto à dívida, porque não esperava então , para fazer depois as eleições o?)

 

O dilema “euro ou dracma” é um subproduto deste dilema. O inconsciente do cidadão traduz imediatamente este dilema “em fazer em parte de um clube europeu poderoso embora, também, muito duro ou pertencer a um Estado em falência? ” Os adversários deste ponto de vista devem ser uns verdadeiros artistas e consentir muitos esforços para lutar contra isso .

O método utilizado visa conseguir activar o mecanismo clássico no homem que se põe imediatamente a querer lutar contra a angústia, este mecanismo que faz com que cada um de nós desperte quando se tem um pesadelo. Mas, os pesadelos dos Gregos encontram-se na realidade externa e não na sua cabeça. O choque que sofreram é tal, a extensão da derrota e da traição é tal que não querem sequer enfrentá-las, sobre o plano intelectual, e que também não são capazes de gerir no plano afectivo. Ainda menos são capazes de reagir. Em tais casos, os homens recorrem frequentemente à táctica da avestruz, ou seja, eles rejeitam a realidade enquanto tal. Contam-se   histórias a si-mesmos para não ficarem loucos.

É mais ou menos o mesmo truque que utilizam nas suas campanhas publicitárias as indústrias mais inteligentes do tabaco. Todos os fumadores sabem que, detrás do sorriso dos fumadores da publicidade, dissimulam-se muito provavelmente o S. Pedro e o cemitério. A primeira coisa que eles fazem, se tal ideia se apronta para se lhes atravessar no caminho, é afastá-la e acender um cigarro.

É este o mecanismo fundamental que causa e mantém os comportamentos auto-destrutivos do homem, como o síndroma de Estocolmo[1], a dependência de substâncias, “o suicídio passivo” em casos extremos, a atracção da prostituta pelo que a explora, e dos Gregos pelos seus partidos!

Tornamo-nos, nós os Gregos, os ratos de uma grande experiência na história europeia: “como convencer toda uma nação a suicidar-se ”, porque é disso que se trata .

Se é isto,   grosso modo, o método de guerra psicológica, como podemos nós reagir, quais são as iniciativas políticas ou outras que nos podem ajudar? Qual é o antídoto? Partilharemos algumas das nossas ideias com os leitores num artigo próximo.

Dimitris Konstantakopoulos, Okeanews.fr, ÉLECTIONS CONTRE DÉMOCRATIE. Texto disponível em : http://www.okeanews.fr/20150901-elections-contre-democratie

[1] No sitio Info escolas de endereço http://www.infoescola.com/doencas/sindrome-de-estocolmo/

podemos ler:

 

A síndrome de Estocolmo é um estado psicológico particular desenvolvida por uma vítima de sequestro.

O nome desse distúrbio é oriundo do famoso assalto de Norrmalmstorg do Kredibanken em Norrmalmstorg, em Estocolmo, que durou do dia 23 a 28 de agosto de 1973. Nesse assalto, as vítimas normalmente defendiam os sequestradores, mesmo após os seis dias de sequestro terem chegado ao fim e apresentaram comportamento reservado durante os processos judiciais do caso. O termo foi assinalado pelo criminólogo e psicólogo Nils Bejerot, que auxiliou a polícia no período do assalto.

As vítimas passam a identificar-se emocionalmente com os criminosos, inicialmente como modo de defesa, por medo de retaliação e/ou violência por parte deles. Um mínimo gesto de gentileza dos raptores normalmente é ampliado, pois, do ponto de vista das vítimas, é extremamente difícil, ou até impossível, obter uma visão clara da realidade nessas situações e obter uma mensuração do perigo real. Deste modo, as tentativas de libertação são tidas como uma ameaça, pois a vítima pode correr o risco de ser magoada. É importante salientar que os sintomas resultam de um estresse físico e mental (emocional) extremo. O complexo e comportamento duplo de afetividade e ódio concomitantes junto aos raptores é considerado como uma estratégia de sobrevivência por parte dos reféns.

 

Nota da Redacção :

Dimitris Konstantakopoulos

 

Dimitris Konstantakopoulos estudou Física à Universidade de Atenas e obteve o DEA “em tratamento da informação” da Universidade de Renas, na França. Trabalhou como investigador no Centro Nacional de Estudo das Telecomunicações (CNET) da França e junto da multinacional Schlumberger. Foi aconselhar do secretário de Estado para a Defesa na Grécia, sobre temas que têm ligações aos fornecimentos gregos das forças armadas.

Entre 1985 e 1988 foi colaborador especial do primeiro-ministro Andréas Papandréou, tendo por principal objectivo as relações Leste-Oeste, o controlo dos armamentos e as iniciativas de desarmamento. De 1989 à 1998, trabalhou em Moscovo como correspondente do Deutsche Welle, da Agência de imprensa de Atenas e de jornais como Néa e, depois, Eleftherotypia. Vários dos seus artigos sobre os desenvolvimentos na Rússia e ao nível internacional foram publicados em revistas gregas, russas e francesas.

Publicou uma colecção de textos que se referem à Grécia, baseados nos arquivos pessoais de Georgi Dimitrov, a entrevista onde os filhos de Nikos Zachariadis revelaram as circunstâncias nas quais morreu o líder histórico do Partido comunista da Grécia (KKE), bem como uma entrevista de Valentin Berezkov, intérprete pessoal de Estaline aquando das negociações com Churchill sobre a Grécia, em 1944, e de Molotov, aquando das negociações com Ribbentrop, em 1939.

Desde 1998, trabalha como redactor político e diplomático. Publicou entrevistas com a quase totalidade dos principais protagonistas da questão de Chipre (Tasos Papadopoulos, Henri Kissinger, Richard Hallbrook, Ismaïl Gem, Dimitris Christofias, Gevgeni Primakov, Dominique de Villepin, e muitos outros.

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