28. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Resistir por todos os meios II

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão Flávio Nunes

 

(conclusão)

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“Quotidien des Rédacteurs”, julho 2015

“Os negociadores, procedentes do governo grego, fizeram aparecer à luz do dia , as facetas da crise política latente na zona euro. Esta última vai certamente agravar-se, porque precisamente, na sequência da vitória bárbara da Alemanha contra nós, as suas exigências serão alargadas a outros países, e isso com a mesma arrogância.”

“Penso que assistimos finalmente atualmente, ao início do declínio da dominação alemã na Europa, processo de duração histórica contudo desconhecida. O que é certo, tem a ver com o agravamento das contradições políticas bem singulares entre os Estados-Membros”.

“É através destas contradições que encontraremos inclusive o nosso caminho. E quanto ao governo grego, depois de ter colocado a sua derrota na prateleira do que é temporário, deve explorar se possível esta crise nascente na zona euro, todavia com firmeza e constância, e não como neste momento, à maneira de um rapaz simpático. Ou, sejamos claros, a luta contínua”; “Diário dos Editores” do 16 de Julho.

 

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‘NÃO’, nem um só passo atrás. Atenas, Julho 2015

O meu confrade historiador Pétros Pizánias tem razão, salvo que a história humana tem muitas vezes como “ triunfo” o irracional. “Tinha sobrestimado a força do justo direito de um povo” declarou Alexis Tsípras, entrevistado pelos jornalistas da televisão pública ERT, na terça-feira 14 de julho.

O meu tio Chrístos que já não faz parte deste mundo, resistente de 1941-1944 já o sabia. “Não acontecerá nada, e nada acontecerá facilmente. É tudo uma questão de força , de poder e não de direito. A Grécia esperará ela esperará mais de uma década”, dizia-nos em 2012, sem ter estado a ler uma só uma linha de Thucydide. Não tinha necessidade, contrariamente aos nossos Tsipriotas.

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O meu tio Chrístos em 2012

Sobre o seu blog, Dimitri Konstantakópoulos, conta a discussão que teve com Alexis Tsípras em 2012. “Um dia do verão 2012, tive a ocasião de discutir esta ideia (a Grécia laboratório de uma Ordem Nova ) com Alexis Tsípras, de trocar pontos de vista com ele sobre o tipo de forças adversas contra as quais nos deveríamos confrontar, dada a natureza tão radical da sua política. Dizia-lhe por conseguinte que sofremos na Grécia e neste momento, esta transição neoliberal do capitalismo do desastre. (Mais tarde, ele adotou esta noção num seu discurso, mas o problema é que, frequentemente, a adoção de uma noção, não significa que tenha sido assimilada tal como quanto à sua análise e como quanto às consequências que implica).”

“Tsípras, é de resto mais um partidário de cinema, do que das análises de Marx,, por conseguinte tive de recorrer a um filme que tivesse visto, “o Eyes Wide Shut” (“os olhos grandes fechados” baseado na novela “Traumnovelle” de Arthur Schnitzler publicada em 1926). A última obra-prima, Stanley Kubrick, mostra-nos então o retrato horripilante dos indivíduos que realmente dirigem a cena do nosso mundo. Um mundo pós-moderno que prepara a vinda final do totalitarismo. E isso, não tem nada a ver com o mundo de Roosevelt, Kennedy, de Gaulle, etc.”

“Olhou-me com um ar incrédulo. Não podia acreditar ou compreender porque é que poderia haver forças na Europa as quais poderiam querer destruir o seu país e de utilizar mesmo a sua destruição. Ao menos, o destino trágico deve servir-lhe de advertência. A ilusão sobre a realidade e quanto aos riscos com os quais nos confrontamos pode revelar-se fatal!”

 

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Atenas, 2015

Este verão grego será escaldante. A desestabilização do país (e não somente do seu governo) começou já. Para já, os Coronéis Tsipriotea puderam cometer um enorme erro político, se é que não é mesmo um crime. Evocam frequentemente o Golpe de Estado de Bruxelas e de Berlim; salvo que há também o deles.

Este último, organizado no estrangeiro, seguido até aos seus últimos detalhes desde o estrangeiro, procura inverter a vontade do povo grego, como foi expressa pelo referendo de 5 de Julho passado. Porque os resultados de um referendo não podem ser invertidos, nem pelas decisões do governo, nem pelo Parlamento, mesmo de maneira maioritária. Para passar para além dele, é necessário que outro referendo decide de outro modo. Por conseguinte, este teatro de sombras no Parlamento é muito largamente anticonstitucional, bem aquém dos procedimento e das maneiras instituídas. Mas estamos guerra, como noutros lugares ou como em Junho de 1940.

Esta linha de argumentação é raríssima aquando dos debates que se realizam neste momento na Grécia. A Esquerda esquece-a, a Direita ignora-a. No entanto, os antepassados políticos de Alexis Tsípras lutaram nos anos 60, sob o slogan “114”, o atual artigo “120” da nossa Constituição:

“O respeito da Constituição e das leis que lhe estão conformes, bem como a devoção à Pátria e à República constituem um dever fundamental dos Helenos. A usurpação, seja de que modo for, da soberania popular e dos poderes que dela decorrem deve ser combatida a partir do restabelecimento do poder legítimo, a partir do qual começa a correr a prescrição destes crimes. A observação da Constituição é confiada ao patriotismo dos Helenos que têm o direito e o dever de se resistirem por todos os meios a quem quer que seja que a queira abolir pela violência”

 

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Allégories entre l’Attique et Salamine. 2010-2015

Por fim, o memorando III, tanto ou mesmo mais, diria eu, que os dois precedentes, é o produto da pressão política e económica, da chantagem e da violência (incluindo a violência psicológica exercida diretamente sobre Alexis Tsípras e sobre os negociadores da Grécia).

Uma forma de negociações internacionais e uma maneira que é proibida parece-me pela Convenção internacional de Viena de 1969, este “ Tratado dos tratados” que é a base de todo o sistema do direito internacional. É a primeira vez na história da UE que um Estado-Membro é assim tratado :

“Artigo 51.  CONSTRANGIMENTO EXERCIDO SOBRE O REPRESENTANTE DE UM ESTADO.
A expressão do consentimento de um Estado ligado por um tratado que foi obtido pelo constrangimento exercido sobre o seu representante através de ato ou ameaças dirigidos contra ele, é desprovida de qualquer efeito jurídico.

Artigo 52. CONSTRANGIMENTO EXERCIDO SOBRE um ESTADO pela AMEAÇA ou pelo EMPREGO da FORÇA.
É nulo todo o tratado cuja conclusão seja obtida pela ameaça ou pelo emprego da força em violação dos princípios de direito internacional incorporados na Carta das Nações Unidas.”

 

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Costas Arvanítis, radio 105.5 em Atenas.

Acredito estar a sonhar ou antes a ter pesadelos. Esta linha de argumentos é quase ausente, aqui incluindo desde os micros da rádio 105,5. Os meus amigos digamos politicamente próximos também não a utilizam Estranha surdez e um silêncio bem mais do estranho. Aparentemente a minha melhor amiga política permanece e permanecerá a nossa Constituição!
Acessoriamente, é também por esta mesma razão que a argumentação (sincera, certamente) de Alexis Tsípras, de querer “combater os baronias e os nepotismos do país apesar do memorando III” quanto à continuação da sua ação governamental, é moral e por conseguinte politicamente caduca. Além disso, é o partido da Esquerda radical que chegou a este ponto. Uma tragédia, a qual nos fará, mais cedo ou mais tarde, ultrapassar a bancocracia histórico e histérico e assim nos libertarmos.

Encaminhar-nos-íamos para as legislativas antecipadas no outono. A direita no seio de SYRIZA (Dragasákis, Stathákis), sonha poder continuar a sua aventura do poder, no caso de ser necessário, ajudada por eleições pelos Palatinos e outros Sith dos partidos parasitas e europeístas. Demasiado rapido, demasiado longe!
Os incêndios doe hoje já fizeram as suas primeiras mortes de acordo com as reportagens. O medo, a morte, o Estado de urgência a eternizar-se sem Constituição e as ilusões… de Esquerda como da Direita se considerarmos o testemunho de Anna. Grécia, tempos de cão.

A parte do jogo termina-se. A próxima parte ainda dever-se-á mas esta vez-CI, sê-lo-á a favor de todos. Os Italianos, os Espanhóis, os Portugueses, os Franceses… ou mesmo os Alemães, ou seja outros todos os povos “da moeda europeia” sabem algo doravante.

Esta partida do jogo termina. A próxima partida será ainda mais dura mas, desta vez, sê-lo-á para toda a gente. Os Italianos, os Espanhóis, os Portugueses, os Franceses… ou mesmo os Alemães, ou seja outros todos os povos “da moeda europeia” ficam a saber alguma coisa a partir de agora.

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Grèce, temps de chien, 2015
Uma série de Panagiotis Grigoriou
Tradução Júlio Marques Mota
Revisão Flávio Nunes
Texto original publicado pelo sítio greek crisis
Panagiotis Grigoriou, Carnet de notes d’un ethnologue en Grèce, une analyse sociale journalière de la crise grecque. Texto disponível no site greekcrisis, cujo endereço é : http://www.greekcrisis.fr/

28. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Resistir por todos os meios I

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