Introdução de Júlio Marques Mota
Meu velho e grande amigo
Em 19 de Setembro escrevi um texto em que criticava duramente Alexis Tsipras, e esse texto parece-me actualmente estreitamente ligado ao texto extraordinário que hoje vos quero apresentar, um texto com o título Eleições contra a Democracia de Dimitris Konstantakopoulos.
Na altura foi muito criticado por amigos de longa data, entre os quais tu, velho colega e amigo de muitos anos de trabalho em comum, seja na Universidade, seja noutras lides políticas, criticado por ti, cuja profunda fidelidade aos princípios do socialismo permanece, desde que te conheço, tão sólida e resistente aos muito maus tempos que nos assolam quanto o aço inoxidável de alta qualidade resiste ao passar do tempo: inalterada e mesmo inalterável, direi eu. Dizias-me na resposta ao meu texto de então:
Admiro como te podes enganar com tanta lucidez.
Espantei-me com esta posição. Enganara-me com lucidez, esta afirmação faz-me lembrar um dos paradoxos de Zenão: sou cretense e todos os cretenses são mentirosos. Com efeito se escrevo um texto lucidamente não me posso estar a enganar ou se me estou a enganar no quadro das hipóteses postas então não estou a escrever lucidamente. São, parece-me, os dois termos possíveis da equação. Um outro termo possível seria sair da proposição acima e considerar que alguma das hipóteses de partida sobre as quais se terá raciocinado lucidamente esteja errada.
Passado o texto a pente fino não me parece que nenhuma das hipóteses de partida esteja viciada. Falo do medo, do medo em situação limite que poderá ter levado Tsipras a capitular e creio seguramente que terá sido assim. Do meu ponto de vista, o problema surge com o depois de 12-13 de Julho, em que passou a ser o defensor das teses opostas a tudo o que defendeu durante seis meses de luta heróica e mais, em que agora terá tudo sacrificado em termos de princípios da Democracia para conseguir que a sua capitulação fosse aprovada pela própria Assembleia que é assim levada, também ela, a revogar, extrema humilhação, grande parte das leis aprovadas que vão contra os desígnios do Sr. Schauble e do presidente do Eurogrupo. Diferentemente do caso paralelo que eu apresentava, ou seja, relativamente ao Nuno Álvares Pereira militante do PC e delator na PIDE, a minha leitura quanto a Alexis Tsipras, e com isso respondo aos meus outros amigos que se manifestaram, penso que na hecatombe do que assinou, o contrário de tudo o que ele e o seu povo defendiam, ele se quis salvar como político, considerando portanto que fez o melhor possível, que não havia outra alternativa. E, neste caso, teria chegado ao limite do que podia fazer, dadas as circunstâncias. Do meu ponto de vista, com leituras deste tipo sobre a crise grega estamos a querer branquear a situação, tanto na Grécia como nos outros países onde paira um silêncio sobre a Europa nas campanhas eleitorais. Por outras palavras, porque na defesa da visão que Tsipras quis dar de si próprio, é o futuro da Grécia e não só da Grécia, porque lesou toda a esquerda europeia que defendia os mesmos ideais ou muito próximo deles, que ele compromete de uma forma que consideramos trágica: no caso grego levou a que fosse votada no Parlamento grego a entrega da soberania grega aos interesses alemães, o que significa colectivamente o suicídio de um pais enquanto país. Como se diz no texto de Konstantakopoulos “Tornamo-nos, nós os Gregos, os ratos de uma grande experiência na história europeia: como convencer toda uma nação a suicidar-se, porque é disso que se trata“. Na minha opinião é o que Tsipras agora está a fazer, a convencer…
Há ainda a questão levantada por Marx, em o 18 de Brumário:
“Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado.”
Claramente, no caso grego não estavam reunidas as circunstâncias e a prova de que não estavam é que o povo grego votou em Setembro o contrário de que votou no referendo e mais, não só não estavam reunidas as circunstâncias como, no limite, os próprios lideres não forçaram à criação de novas circunstâncias que permitissem uma verdadeira solução. Culpa de muita gente é certo, fora da Grécia inclusive. Bem se tentou meter Hollande e Renzi, mas estes já estão sob a pata alemã, nada mais fizeram que balbuciar publicamente e seguir, depois, as determinações alemães. Quanto às manifestações de rua de apoio à Grécia, nessa altura por toda a Europa ninguém as viu. Na Grécia, por seu lado, o povo quer continuar no euro e sem austeridade, ou seja quer a resolução da quadratura do círculo. Uma impossibilidade que o próprio Varoufakis só no final de Junho terá compreendido, uma impossibilidade que Tsipras continua a não aceitar. Teve, no limite da pressão extraordinária a que foi submetido, a solução na mão: não está mandatado para querer sair do euro, é certo, mas no respeito do mandato dado pelo referendo de que não se quer mais austeridade, estava mandatado para nunca assinar as condições impostas: os senhores alemães que expulsassem então a Grécia, violando expressamente os Tratados. Curiosamente quem mais perderia seria exactamente a Alemanha, dado o sistema Targets II do Banco Central Europeu, sistema destinado principalmente à execução das operações ligadas à política monetária única e das transferências transnacionais entre instituições de países membros da EU, uma vez que o Bundesbank acaba por estar assente numa montanha de créditos face ao BCE, para com esses créditos garantir a existência da moeda única, do mercado único. Alexis Tsipras teve pois na mão a criação de novas circunstâncias. A sua saída do euro não seria pois uma decisão grega, era sim uma decisão dos senhores imperiais que presidem nos destinos da Europa e dos seus lacaios no Eurogrupo. Continuaria portanto a respeitar o seu mandato. Tsipras teve na mão essa opção, uma opção que levaria à requisição civil de todo o sistema bancário e à ocupação do Banco Central da Grécia, nas mãos dos homens da Troika, levaria rapidamente à emissão mesmo que forçada do Dracma. Teve medo, muito medo, tanto medo que passou agora a defender o contrário! Como se diz no texto de Konstantakopoulos: com a atitude de Tsipras tudo se passa como se numa guerra entre dois países o país vencedor tivesse não só a glória de vencer, mas a glória de levar a que general comandante das tropas vencidas assumisse ele o trabalho sujo de exterminar essas mesmas tropas, já depois de vencidas..
O texto Eleições contra a Democracia de Dimitris Konstantakopoulos pode aqui aparece pois como uma extensão do meu próprio texto e seremos então dois a estarmos lucidamente enganados, meu velho e grande amigo. Disse dois? Poderia dizer três. Num recente texto de um dos mais relevantes críticos internacionais sobre a crise europeia, Bill Mitchell podemos ler alguns excertos:
Alexis Tsipras, à frente de Syriza, está agora a falar em vencer os oligarcas e em ganhar um perdão parcial da dívida consentido pelos seus patrões do Norte da zona euro e. O primeiro objectivo é puramente fantasista, dado que são exactamente os interesses dos oligarcas que a Troika está a defender.
O segundo argumento de Tsipras é na sua maior parte irrelevante, na situação imediata de Grécia, dada a dramática redução actual na despesa e nos rendimentos de que sofre o povo grego. Com as actuais baixas taxas de juro sobre a dívida presente, a questão da relevância da amortização da dívida é uma questão de urgência sobretudo muito discutível.
O grande constrangimento para a Grécia é o pernicioso acordo de resgate e não o pagamento dos juros da dívida.
(…)
Mas a retórica de Alexis Tsipras é totalmente não-convincente (pelo menos para o exterior da Grécia). Totalmente inacreditável. Foi humilhado apenas há alguns meses atrás pelas elites políticas em Europa. Aceitou agora um acordo de resgate que não dá nenhuma esperança de aumentar a prosperidade do povo grego a longo prazo e é mesmo pior do que o que estava na mesa das negociações antes da sua eleição em Janeiro.
(…)
Tsipras está-se a preparar agora para supervisionar o ataque mais violento feito às infra-estruturas da sua nação que qualquer de nós possa imaginar . Eu conheço todos os argumentos, que os gregos não estão tão maus quanto algumas das outras nações não pertencentes à zona euro ( exemplo, a Bulgária) e estão muito à frente de algumas das nações africanas as mais pobres – “ou seja, não têm nada que se andar a queixar”.
(…)
As eleições na Grécia foram realmente uma farsa . Dêem-se as voltas que se queira, tratou-se de uma farsa. Não havia nenhum mandato em disputa – não havia quadros alternativos de políticas a seguir, e as pessoas sabiam que quem quer que fosse eleito esperaria no dia seguinte pelo telefonema da Troika para saber o que devia fazer. .
O programa de resgate que Tsipras aceitou exige rápidas e muito perigosas alterações na política a seguir e que devem ser executadas em Outubro. A ideia que um governo de esquerda supervisione o que faz o regime pernicioso sob a direcção de estrangeiros ( a ” Troika ” ) torna o processo democrático na Grécia totalmente vazio[1].
Meu grande amigo, serei eu e estes dois autores que me acompanham que estamos lucidamente enganados? Será então assim mesmo como me dizias nesse teu comentário ao meu texto anterior contra Tsipras? Será mesmo assim como me diziam outros que defendem igualmente Tsipras com o argumento das circunstâncias? Ou será antes lucidamente verdade o que dizem sobretudo estes dois autores citados?
Nesta questão, cada um que escolha o seu campo, mas a questão é importante. Tanto mais que se o defendemos pelas circunstâncias, porque não dizer o mesmo de Samaras ou de Papandreou? Estes poderão argumentar que também foram as circunstâncias que os não deixaram fazer melhor e porque é que se critica então uns e se defende o outro, este outro que vai aplicar, agora, um programa de austeridade bem mais intenso do que o que foi aplicado por qualquer dos outros dois? Não me dizes então, meu grande e velho amigo? E se o argumento apresentado é o de não ter alternativa, o argumento é então o das circunstâncias, de novo. Porque se defendemos Tsipras em nome das circunstâncias, podemos então defendemos tudo e o seu contrário.
Aliás, não será por isso mesmo, o branqueamento operado pelas circunstâncias a que se tem assistido em Portugal, que Pacheco Pereira acusa o PS de não se assumir em discurso politico e económico como alternativa clara e frontal face à coligação que tem andado nestes quatro anos a vender o país ao desbarato? Não será por isso mesmo que ele nos indica com veemência de que o que é preciso é votar contra o actual poder? E é preciso como imperativo nacional, sublinhe-se. Mas não é isto também trágico que depois da Coligação andar em 4 anos de legislatura a destruir o país e mesmo assim ninguém aparece como alternativa clara e frontal? A ser verdade a leitura feita por Pacheco Pereira no seu artigo É mau, mas quem é que quer saber?, não estaremos antes perante um povo anestesiado? Mas se isto é verdade, somos levados a dizer que isso é devido ao branqueamento de muitas das razões que nos levaram à crise e nela nos mantém, as tais circunstâncias subjacentes à crise e que continuamente a alimentam. Mas se isto também é verdade, não estaremos nós, por responsabilidades de muita gente, antes perante um povo que de nada já quer saber e face ao qual se sente ser necessário e urgente avisar toda a gente de que é imperativo nacional votar sobretudo contra a coligação no poder? Não é trágico que se diga apenas isso? E, seguramente, não é o argumento das circunstâncias que nos ajuda e nos iliba colectivamente, meu velho e grande amigo.
E no momento presente, não é isto em Portugal também já um efeito colateral da capitulação de Alexis Tsipras?
Coimbra, 28 de Setembro de 2015
Júlio Marques Mota
[1] Bill Mitchell, The total Greek election farce – RIP democracy, 24 de Setembro de 2015

