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BISCATES – Entre a muralha e o abismo: a fábula da insensatez das galinhas – por Carlos de Matos Gomes

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Num curto apontamento de há um ano, uma amiga relatava uma conversa com uma outra amiga: “concluímos que o bom senso ficou sem abrigo em Portugal nos últimos anos, pelo que teve de emigrar.”

Hoje, essa amiga referindo-se às eleições de domingo passado perguntava, surpreendida: E não é que emigrou mesmo? Não tem razão.

Na realidade, o bom senso nunca emigrou porque nunca teve abrigo em Portugal. Portugal é uma incubadora de insensatos, e também um abrigo. E não pode ser outra coisa, por puro darwinismo. As espécies animais e vegetais desenvolvem características que lhes permitem adaptar-se e sobreviver no meio onde lhes calhou nascer ou onde aportaram. Nós definhamos com a nossa sensatez, que é uma designação tão boa como outra qualquer para a nossa insensata resignação e temor, enquanto características da nossa sociedade.

Nós, os portugueses, somos descendentes de restos de sociedades que vieram escorraçadas do norte, do leste, do sul e que se acantonaram neste território poeticamente designado por jardim à beira-mar plantado. De facto, uma armadilha, com uma escarpa feita de inimigos nas nossas costas e tendo à frente o abismo que era o oceano desconhecido. Nem tínhamos (nem temos) armas para vencer os que nos empurraram, nem sabíamos (nem sabemos) nadar. O único lampejo de sensatez foi alguns construírem barcos e saírem daqui. Os sensatos fizeram-no. Restaram os insensatos. Os que permaneceram, que não emigraram. Nós descendemos dos que ficaram na capoeira.

Os insensatos são os maiores fabricantes e clientes dos deuses, cristalizados nas fórmulas canónicas do deus dará, e do é a fé que nos salva. A fé constitui a forma requintada de conjugar inconsciência, preguiça e esperança. A nossa trilogia de insensatos.

Domingo passado, os portugueses comprovaram mais uma vez os méritos da sua falsa sensatez. Reconhecendo que não há como sair do beco em que estão metidos, escolheram para os governar quem prometeu não lhes exigir o esforço e o sacrifício de tentar uma escapadela. O sensato silêncio do programa da coligação vencedora conseguiu que os portugueses acreditassem que escaparão ao seu triste destino fazendo de mortos, como até aqui. A proposta da coligassem é que os portugueses se agachem de modo a que Portugal não seja visto. É um programa de camuflagem e de black out. Luzes apagadas, conversas em voz baixa. Aqui não se passa nada. Uma estratégia de imobilidade contra os predadores.

As galinhas começaram por tentar sobreviver assim – permaneciam imóveis no campo e esperavam não serem apanhadas. Os homens engaiolaram-nas para as terem de reserva alimentar. As poucas perdizes que ainda andam à solta fazem o mesmo, imobilizam-se e aguardam que não as detetem. Os temerosos galos e os perdigões sem penas que os bandos de sensatos escolheram para os chefiaram, desconhecem que chega sempre o dia em que alguém os caça facilmente, porque, entretanto, desaprenderam de voar, amoleceram o bico e perderam as garras. Desconhecem que chegará o dia em que serão matéria prima para os aviários e os restaurantes. Chegará o dia em que já não poderão arrepender-se da maldita sensatez!

Não quis fazer graças com nomes, mas onde se lê galinhas e perdizes podia ler-se coelhos.

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