BISCATES – Três visões de um naufrágio – por Carlos de Matos Gomes

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Uma das grandes obras da cultura portuguesa é a História Trágico-Marítima. A outra é a Peregrinação. Os Lusíadas estão numa categoria única, são um delírio genial.

Voltando à nossa História, ela é uma dramática conjugação da tragédia que nos afunda e da peregrinação que nos leva em fuga de uma terra madrasta. Naufragamos em busca de sabe-se lá o quê. As eleições de 4 de outubro de 2015 são mais um episódio deste existir secular entre a borrasca mandada pela natureza (os eleitores, no caso) e a incompetência dos capitães do navio (os dirigentes políticos, em geral).

Aqui estão três visões de mais um naufrágio que confirmam a nossa má marinharia…

Luís Salgado Matos escreve em O Economista Português: “Há quem diga que ontem (o tal 4 de outubro) ganhou o voto conservador. Se o «conservador» se aplicasse à fórmula governativa, os eleitores teriam reconduzido a coligação PSD-PP com maioria absoluta. Conservador por rejeitar a «aventura» socialista?» Mas esta «aventura» seria por certo mais conservadora do que a política de terra queimada, ontem vencedora, que consiste em dificultar, ou impedir, que haja um governo partidário no nosso país.”

Salgado de Matos defende uma solução desesperada, a mesma que propôs quando se abriu a crise político-financeira, a única que, segundo ele, pode lançar o nosso país no caminho do trabalho e da regeneração: “uma união sagrada de todos os partidos e correntes de opinião a favor do aumento da produção, da justiça social e da esperança, nos quadros de um regime democrático-liberal e de um Estado de Direito. Algo de semelhante à fórmula alemã. Porque ninguém de bom senso duvida das dificuldades que temos pela frente. “

Além da fórmula governativa abrangente a 360 graus, Salgado de Matos propõe que confiemos no bom senso dos portugueses. Ora, o bom senso é em Portugal mais raro que o irídio, ou paládio, metais de que quase só existem vestígios.

O jornal «Le Monde», que já foi mais conceituado, comentou as eleições concluindo que estas deixaram o país num impasse. É apenas mais um, deveria ter adiantado o correspondente do diário francês, se conhecesse um pouco da nossa História. E o jornalista explica aos leitores franceses que o PS não se pode aliar à coligação de direita, porque se confundia com ela e desaparecia. Não se pode aliar com a extrema-esquerda porque “até aqui as clivagens são insuperáveis entre as convicções pro-euro dos socialistas, que apoiam globalmente a redução dos défices públicos e uma extrema-esquerda muito cética sobre a moeda europeia.” Quanto aos comunistas: “O PS foi  punching ball dos comunistas durante a campanha. Seria necessário negociar com o Bloco de Esquerda, se eles fossem como o Syriza. E era necessário que eles não exigissem a saída da OTAN e do euro.”

Concluo eu, o Le Monde já teve melhores dias, como toda a imprensa francesa. A França idem. O patati et patapon que são Sarkozy e Hollande provam que o mundo francês tem horizontes muito rasteiros.

Regressando à intimidade do torrão pátrio:

Viriato Soromenho Marques considera, no DN, “que o próximo governo deve privilegiar o diálogo com a Alemanha, antecipando uma mudança estratégica. O fluxo de refugiados, o desastre económico da VW, em marcha, a inevitável diminuição das exportações alemãs para os mercados emergentes em profunda contração vão criar pressões sobre o défice e o PIB germânicos que revelarão, até para Berlim, a bomba-relógio escondida no Tratado Orçamental. É preciso encorajar a Alemanha a fazer o que é correto. Fortalecer o investimento, o emprego, o consumo e a governação à escala europeia, numa união monetária que avance na integração política, fiscal e orçamental.”

A mim arrepia-me a ideia de encorajar a Alemanha a fazer qualquer coisa. Pior se for o correto. Os alemães têm uma assustadora ideia do «fazer» – machen – e da correção. Prefiro que eles façam asneiras, se possível limitadas à ocktoberfest.

Como se vê por estas três análises não se vislumbra nem a possibilidade de um governo de grande coligação em Portugal. Como propõe Salgado de Matos, nem de aliança do PS com o BE e o PCP, como reconhece o «Le Monde», nem de formação de um governo de Testemunhas de Jeová, ou da Igreja do Senhor dos Últimos dias que converta a Alemanha a uma política de desenvolvimento e anti-austeritária, como gostaria Viriato Soromenho Marques, que adianta: «Seria trágico que o próximo governo de Lisboa ficasse paralisado perante a grandeza do que está em jogo.»

A mim, sinceramente, não me assusta esta tragédia. Estamos tão habituados à tragédia da nossa vida que até lhe demos um nome: é o nosso fado. A canção nacional. A sua grande figura, a Amália, está no Panteão! Quanto à paralisia também temos um remédio: é o milagre, um elemento sempre presente na nossa História, de Ourique, a Fátima.

Mas havemos de escapar, mais uma vez, nem que seja ao pé coxinho e com uma vela na mão!

4 Comments

  1. Você está resignado com a tragédia ? É por isso que não tem fé em nada, nem numa regeneração que acho possível… Quando uma ideia surge , impõe-se tentar de ver se se pode usá-la ! Nem que se tenta aproveitar da fraqueza actual da Alemanha, a braço com muitos problemas que de repente surgiram a sua volta. Milagres não. Sentido prático e oportunista sim.

  2. E que tal construir uma Constituição da República que não prossiga na repetição da velha Magna Carta, esta mesma, já no seu tempo, feita para serviço exclusivo dos possidentes. Temos um Estado de Direito mas precisamos dum Estado de Justiça. CLV

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