
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Revisão de Maria Cardigos
Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Uma análise social diária da crise grega
Terça-feira, dia 20 de Janeiro de 2015
3. Caderno de notas – Últimas Pseudologias troikanas
A esperança está a caminho. Por uma só vez esta expressão exprime simplesmente a realidade. O partido da Esquerda radical instalou pois o seu grande quiosque no centro da cidade de Atenas com as cores da esperança. A imagem é forte, Alexis Tsípras, um sol então brilhante, além do (…), sem-abrigo que está ao canto, de cabeça baixa (…), sentado no entanto tão perto da esperança e da sua estrada e, contudo, tão longe. Quase toda a Grécia do momento está contida nesta imagem.
A esperança está a caminho. Acontecimento SYRIZA em Paris. Janeiro de 2015. Fonte: Internet
A nossa historicidade Syrisiana tornar-se-ia uma questão de todos e sobretudo dos outro. É o momento oportuno ou nunca, e todos sabem quanto a distância é curta, entre uma vitória SYRIZA “simples” e já adquirida, e o seu sucesso a permitir-lhe, enfim, governar dispondo de uma maioria de eleitos ao Parlamento. Ora, acontece que a resposta à esta última questão se fabrica neste mesmo momento nas ruas e nos bairros de Atenas e do país (…), neurónio após neurónio. Influxo nervoso da vitória SYRIZA (relativa ou absoluta) concretiza-se, tanto quanto a sua sociologia, é mais ampla que nunca. O jornal madrileno El Pais de 16 de Janeiro escrevia: “ A mudança na Europa começa pelos países do Sul O 25 de Janeiro fechará a porta do passado. A vitória de Syriza é a esperança na mudança para o mundo do trabalho e da cultura europeia. Desde a obscuridade da austeridade e do autoritarismo, a luz da democracia, da solidariedade e do desenvolvimento sustentado. Para a Grécia é apenas o início da mudança que vem pelo sul da Europa. Em breve esperemos que chegue a Espanha. A derrota dos defensores políticos da austeridade, da insegurança e do medo, da corrupção e dos escândalos começa nos nossos países. Os nossos povos têm o futuro nas suas mãos para abrir a porta da manhã a governantes incorruptíveis.” O contexto, é pois ao mesmo tempo grave e feliz. A abertura repentina, para além do previsível imposto pelas políticas criminosas da banda conhecida dos usurpadores meta-democratas, é extremamente perceptível. Excepto, que esta se realiza sobretudo através de um impulso relativamente mudo, sem demasiados mimodramas por parte dos lugares e dos Deuses gregos. Estes últimos estão cansados e para dizê-lo francamente estão todos mortificados. E é então um caso de estudo como o facto de estar a observar quanto o vigarista (político) Antonis Samarás desde há muito tempo que não toma contato com a realidade quando declara por exemplo que “SYRIZA no poder, será sinónimo da destruição da classe média”. Os Gregos riem. Samarás então ainda em atividade política (e nos negócios) por muito pouco tempo, e em que os serviços do gabinete do Primeiro ministro, vêm de fazer uma encomenda (a três semanas das eleições), de um destruidor de documentos (reportagem da rádio 105,5 “Sto Kókkino”, a 20 de Janeiro). Urgências de tal forma certas (…), a fazerem passar em faixas, e ao mesmo tempo, contudo, certas gesticulações que mais parecem “mafiosas” da sua governança, a menos de cinco dias das eleições.
Samarás: “Eu estou (…), em seco. Hebdomadaire “To Pontíki”, 15 de janeiro
Os gregos estão perdoados, 26 Janeiro de 2015. “Quotidien des Rédacteurs” du 19 janvier
É assim que Níkos Tagarás, více-ministro (…), de transição ao Ambiente e deputado de Nova Democracia do distrito de Corinto, ordena, e isso, para além das suas competências, aos funcionários do município de Aristotélis (região Chalkidiki ao norte da Grécia), de concederem urgentemente, uma licença para construir à sociedade “Or Grec ” em Skouriés, relativa a certos edifícios e locais. Um desenvolvimento que acontece somente alguns dias depois de terem sido proferidos directamente ameaças por certos quadros desta empresa, na semana passada, contra o agente responsável à planificação e das licenças de construção. De acordo com a reportagem disponível, este pobre agente deveria dobrar-se às exigências da empresa antes das eleições, se não, seria “denunciado” ao Procurador que se encarrega dos negócios de corrupção da região. Samarás, os seus e as suas práticas (…), todo um programa.
O rapto da Grécia. Livro de Nadia Valaváni. Janeiro de 2015
Nadia Valaváni aquando da apresentação do seu livro. Atenas, 19 Janeiro de 2105
Um programa então rico em práticas que alguns qualificam de mafiosas, quanto a um certo nível de crime organizado, tanto interno como externo. É a este ponto, que o livro de Nadia Valaváni “o Rapto da Grécia”, resumindo o seu trabalho de deputado SYRIZA, apresentado segunda-feira 19 de Janeiro em Atenas é de uma actualidade mais que escaldante. Os termos do debate foram os seguintes: O livro desfaz da maneira mais que evidente, toda a… pseudologia dos apóstolos do memorando, de todos os criminosos presumidos, como Samaras, Venizélos e Papandréou, tristes políticos que têm violado conscientemente a soberania nacional e popular, pondo em saldo o país unicamente para proveito das aves de rapina financeiras internacionais (e de certas oligarquias de Atenas), para os quais trabalham de resto e desde há muito tempo. Tudo isto, com a finalidade evidente de instaurar na Grécia um regime de feudalidade pós-industrial e de criar para este triste fim, a mecânica social necessária para a submissão ao regime (…), neoliberal avançado pela Troika (regime consubstancial, repito-o, às orientações da UE). Nomeadamente: produção destinada à exportação e/ou turismo que pratica remunerações de tipo asiático, o todo, depois de se ter abolido o quadro regulador preexistente e nomeadamente, as convenções colectivas e os direitos dos assalariados.
Panagiótis Lafazánis, porta-voz de SYRIZA. Atenas, 19 Janeiro
De acordo com Nadia Valaváni (e de acordo com numerosos analistas e pensadores do nosso tempo), o capitalismo do século XXI, torna a ser o do puro rapto e do roubo então muito violento: usurpação dos bens, seres, liberdades e países, como doravante (desde então no Ocidente dado que isso é muito praticado desde sempre noutros lugares, através do planeta), sendo a sua única maneira de dar sequência à sua… perda e se isso não muda, também à nossa. Uma primeira experimentação do modelo actual da Troika na Europa foi, como o sublinha Nadia no seu livro, a experimentação tão tragicamente introduzida outrora no dia 11 de Setembro (1973) no Chile.
(continua)

