Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Uma análise social diária da crise grega – Últimas Pseudologias Troikanas II

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão de Maria Cardigos

 

(conclusão)

 

E quanto ao resto do assim tão pobre e vasto mundo, também foi recordado aquando da apresentação desta obra, que as primeiras medidas adoptadas pela administração americana no Iraque (sob Bush), foram muito precisamente, as privatizações, a proibição da acção sindical, bem como a desvalorização interna da moeda como a dos salários. Em suma, todas estas “reformas” as quais têm sido identicamente adoptadas na Grécia, não sob a pressão dos tanques de assalto, e no entanto sob a violência esmagadora (…), dos panzers económicos da Alemanha atual, fazendo assim uso da alavanca bem cómoda da dívida pública.

Um outro grande mito (orquestrado) é por sua vez abolido pelo argumentário de Nadia Valaváni. Trata-se das famosas privatizações dos bens e das empresas do país “para assim fazer diminuir a carga da dívida”. Assim, e quando a referida dívida se avizinhava (ela) dos 300 mil milhões de euros, foi necessário então de vender em saldo empresas públicas por alguns milhares de milhões de euros apenas, quando por exemplo, o título da Empresa pública de electricidade (DEI que “está à venda ”) se afundou e não vale agora mais que 70 cêntimos do euro na Bolsa. Esta prática não resolveu de modo nenhum o problema da dívida e além disso, transformou o Estado (pelas suas práticas), num imenso conglomerado (…), de agências imobiliárias.

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Ladrão e mentiroso , Venizélos et Samarás. Atenas, 19 Janeiro

 

Através e por conseguinte desta mesma (…), parábola, as privatizações conduzir-nos -iam em linha recta para o cumprimento da ética largamente protestante, e que consistiria em fazer recompensar os trabalhadores e não por exemplo (os funcionários) preguiçosos. Já, a Grécia é, de imediato, um caso característico do capitalismo da fraude e as privatizações não são outra coisa senão isso mesmo. Assim e para fazer no concreto, o ministro da Educação da Nova Democracia apoia pela sua presença, a inauguração de um novo grande estabelecimento privado de formação profissional que pertence a um familiar e no dia seguinte, (este mesmo ministro) suprime do ensino público análogo, estas formações doravante propostas no âmbito do ensino privado novamente concebido pelo amigo empresário. Capitalismo então livre e concorrencial, conflitos e sobretudo interesses incluídos. Externos de resto como internos, ao país e a cada país em semelhante situação. Nadia Valaváni por último insistiu sobre um ponto a reexaminar urgentemente na eventualidade de um governo SYRIZA: O TAIPED, “o fundo grego encarregado de vender e valorizar os bens públicos gregos no âmbito do amplo plano de privatização exigido pelos credores da Grécia para fazer entrar o dinheiro nas caixas do Estado”, o qual não terá mais nenhuma razão de ser e assim, este instrumento inventado pelos agiotas internacionais muito simplesmente terá de ser suprimido. Acção pois.

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Figuras do Teatro das Sombras. Atenas, Janeiro de  2015

 

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Samarás, figura do célebre teatro político nas mãos da troika. Imprensa grega, Janeiro de 2015

 

Desde o negócio repetido da governança da Troika através de correios electrónicos dirigidos aos membros do gabinete Samarás, a imprensa grega ironiza ainda e de maneira bem amarga, sobre a marionete que é Antonis Samarás e os outros seus semelhantes. Pensa-se saber por exemplo que o memorando teria sido redigido (direta ou indiretamente) a partir de 2009 pelo banqueiro Stournáras (ainda recentemente ministro das Finanças) e actualmente Governador do Banco da Grécia; sob o ditado dos credores e de outras fontes obrigatoriamente heterónimas. O outro momento acabará por chegar. Enquanto se espera, uma certa doçura está portanto de regresso, às ruas e os lugares de Atenas estão cheios de gente, para grande prazer dos correspondentes internacionais, muito presentes neste momento na Grécia. Triste realidade de belas perspetivas?

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Realidade de Atenas. Janeiro de  2015

 

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Local de Monastiráki. Atenas, Janeiro de 2015

 

Por último, aquando da apresentação do livro de Nadia Valaváni, Panagiótis Lafazánis, porta-voz de SYRIZA e chefe da Ala Esquerda no partido, repetiu a sua vontade de fazer desaparecer o memorando, assim como umas grande parte da dívida grega. Porque esta última é com efeito apenas a arma de destruição (e o pretexto) da guerra feita às sociedades e os países quando não se utilizam os outros meios. É tanto mais verdadeiro, quanto do lado da Nova Democracia é o pânico. Já numerosas vozes na Grécia (e não unicamente os militantes Syriza), se ouvem a exigir no caso de uma verdadeira mudança política através de um renascimento democrático, o julgamento dos responsáveis políticos que têm podido deliberadamente cometer certos crimes potencialmente provados. Fazer sujeitar o essencial dos títulos da dívida grega (e assimilados) ao direito estrangeiro (Inglês) quanto às possibilidades de pagamento, é um deles. Seguidamente, fazer passar os interesses vitais do país (saúde, educação, alimentação, infância, velhice, etc.) para segundo plano, efetivamente atrás dos interesses dos agiotas internacionais pode ser igualmente considerado crime, sem estar já a evocar as violações repetidas da Constituição.

 

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Aqueles que têm medo de ir parar à prisão em caso de vitória de Syriza. Janeiro de 2015.

 

Do lado da Nova Democracia, é na verdade, neste momento o pânico e entre os seus ministros mais emblemáticos, Makis Vorídis, admirador dos Coronéis e próximo de Samarás, não hesita em pretender que a Direita tudo fará não deixar SYRIZA aceder ao poder; subentendido, apesar do voto, como observa o sítio de língua francesa e amigo, Okeanews. No entanto, incluindo no seio da Nova Democracia, estas declarações foram criticadas com vivacidade. Tempo concentrado e historicidade bem (…), em amendoins. No bairro, todos os vizinhos dizem-se agora adeptos de Syriza , o que não contradirá mais as sondagens; todos prevêem a vitória do partido da Esquerda radical. Tempo concentrado e no entanto ainda reclusos.

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Deus, é o amor. Atenas, Janeiro de 2015

 

“Deus, é o amor”, pode-se ler escrito numa parede perto do mercado central de Atenas, enquanto nas últimas notícias, um ator do Teatro nacional se diz ter cometido suicídio anteontem, supostamente por enfrentar certas dificuldades financeiras. Esta última reportagem passou então despercebida sob a onda de outra grande atualidade política, muito densa neste momento. A esperança está a caminho. Por uma vez, o slogan exprime simplesmente a realidade (…), ou quase.

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Atenas, Janeiro de 2015

 

Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Uma análise social diária da crise grega I

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