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7. Caderno de notas de um etnólogo – Uma análise social diária da crise grega – Noites de Atenas I

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão de Maria Cardigos

 

Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Uma análise social diária da crise grega

Sexta-feira, 6 Fevereiro de 2015 7.

 

Caderno de notas de um etnólogo – Noites de Atenas

Certos momentos graves podem, por vezes, serem igualmente belos. O sol brilhante de Atenas… saúda desta forma a última decisão do BCE, não sem um sorriso. Seguidamente, uma noite muito suave na Praça da Constituição onde o povo já  se manifestou dando o seu apoio ao governo grego na noite de 5 de Fevereiro.

Antes da abertura da nova sessao parlamentar, Athenas, 5 de Fevereiro

 

Foi uma primeira manifestação quase espontânea e com muita gente a dizer “NÃO ao ultimato”. Um grande ajuntamento de pessoas sem cartazes dos partidos, grave e digno ao mesmo tempo, parece ser o prelúdio da grande manifestação prevista para o dia 11 de Fevereiro, momento do Eurogrupo. Entre os cartazes desta quinta-feira em todo caso, podia-se por exemplo ler: “Schäuble – Merkel, vocês dão ordens, ameaçam, roubam e matam. E isso é bem sabido desde 1941-1945. Não temos medo de vocês”. Simples… e extremamente esclarecedor. Maria e o seu marido que encontrei num café na outra extremidade de Atenas, a oeste , já não podiam conter as suas lágrimas ao descobrir estas imagens na televisão. “ Terminou, e isto está então adquirido nas nossas cabeças. Nós resistiremos se necessário até à morte. A nossa dignidade está reencontrada, e não é de vingança que se trata … mas muito simplesmente desta justiça enfim feita … aos nossos mortos da crise assim como aos nossos filhos que deixaram o país aos milhares a emigrarem” .

Praça da Constituição, 5 Fevereiro

 

Schäuble – Merkel… Atenas,  5 Fevereiro .

 

Na Alemanha, a 5 Fevereiro

 

Salvo que, contrariamente ao que pensam numerosos Gregos, o espírito alemão não se resume à visão de Angela Merkel ou do seu campo político. Na Alemanha também, há as gentes do partido Die Linke, e estes manifestaram-se em apoio à Grécia e pela defesa de uma outra Europa. História então muito presente e magnificamente incerta. Nestes últimos dias, a árvore junto à qual o farmacêutico Dimitri Christoúlas se suicidou, em Abril de 2012, voltou a florescer. A repercussão deste suicídio ( meteu uma bola na cabeça) foi enorme. Eu também lá estava. Dimitri, farmacêutico na reforma tinha deixado também uma mensagem designando “os governantes traidores e vendidos aos Alemães como responsáveis e apelava à resistência”. Finalmente e para sermos diretos, diria que o financeirismo das elites e o funcionamento germânico da UE terão tudo feito para despertar por toda a parte na Europa os sentimentos nacionais. Por conseguinte o futuro estaria … ainda a caminho.

O corpo de Dimitri Christoúlas. Praça da Constituição, Abril de 2012

 

Mesmo local, Fevereiro de 2015

 

Em todo caso, nesta quinta-feira 5 de Fevereiro, por uma vez festejamos a abertura da nova sessão parlamentar. Aqui diz-se “o juramento do novo Parlamento”… enfim, grego, desde esta… grande noite das urnas e do 25 de Janeiro. O lado reverso … do outro muro de Berlim (e de Frankfurt), o BCE acaba de anunciar que passará a não aceitar as obrigações de Estado gregas como colateral para empréstimos dos bancos gregos. Que belo mundo! O primeiro ultimato europeísta acaba pois de acontecer e enfrentá-lo-emos. A União europeia Merkelocromo (a única realmente existente neste momento) excedeu os limites da Híbris antidemocrata e acabará por sofrer as consequências, simbólicas mas sobretudo políticas. Tanto quanto nós, salvo que já está feito.

O voto grego em Bruxelas . “Quotidien des Rédacteurs” 5 de Fevereiro .

Reencontro… entre Schäuble et Varoufákis. Berlim, 5 de Fevereiro

 

(continua)

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