8. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Uma análise social diária da crise grega – Pontes e calçadas I

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão Maria Cardigos

 

Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Uma análise social diária da crise grega

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Sexta-feira dia 13 de Fevereiro de 2015

 

8. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Pontes e calçadas

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Atenas respira melhor, não obstante, entre espera e temporização. Este tempo suspenso não durará por muito tempo . As manifestações populares e singularmente a dos cidadãos, na quarta-feira 11 de Fevereiro, foram enormes. Ambiente novo na Praça da Constituição, sem presença policial. Distingui toda esta sociologia da classe (muito pouco média) dos Indignados de 2011, na ausência provada dos adeptos da Aurora Dourada e dos comunistas do PC grego. Manifesta-se em Atenas desta forma (como se pode fazê-lo tanto em Madrid, Lisboa ou Paris), para… nos fazermos ouvir em Bruxelas.

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Praça da Constituição. Atenas, no dia 12 de Fevereiro

 

À saída do Conselho Europeu (de 12 de Fevereiro), Alexis Tsípras declarou que “a discussão e a evolução de hoje, assinalam uma disposição para um acordo político. Ficou provado que ninguém quer criar condições de ruptura.” A versão dos factos e gestos então… simplesmente optimista, seria a do ministro da Defesa, Panos Kamménos (partido dos Gregos Independentes): “Não veremos mais esta Troika a qual tinha tomado para si-mesma a função de governar o país, esta Instituição não a veremos mais. Todos estes boys que tinham entrado nos nossos ministérios, e que se permitiam dar ordens aos nossos ministros, não os veremos mais”. (Televisão ANT1, Atenas, 13 de Fevereiro). Pode-se contudo temer uma versão mais… embrulhada da nossa historicidade. Resumir-se-ia à paráfrase de certas declarações de um outro tempo: “Uma nova cooperação foi encarada entre nós e os nossos parceiros no seio do Conselho europeu. Aceitamos o princípio”! “O povo é a nossa força” escreveu no entanto sobre a sua conta tweeter Aléxis Tsípras. Dizer que a história se repete serve para nos situarmos no presente, certamente muito difícil de analisar nestes tempos que correm, excepto para os que os sofrem. A história não recomeça certamente, mas no entanto ela participa na construção e na divulgação das representações do futuro. Em todo caso, o governo já nomeou ( dirigindo-se aos cidadãos) este novo programa grego (?), como sendo “um programa-ponte”, antes de chegar à situação seguinte, o pós verão de 2015. A táctica parece boa… esperemo-lo em todo caso, com uma redução presumo da dívida grega até 100 mil milhões (em euros!), para o que deveria ser de prever uma longa e verdadeira preparação do processo para essa redução da dívida.

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Praça da Constituição, Atenas, 11 de Fevereiro de 2015

 

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Nenhum sacrifício pela dívida  ou pelo euro. Ala  esquerda de SYRIZA. Atenas, 11 de Fevereiro  de 2015.

 

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Grécia livre, Europa livre, Povos Livres, Atenas, 11 de Fevereiro de 2015

 

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Aqui, cospe-se (foto de Georges Papandréou). Atenas 11 de Fevereiro de 2015

“Desde que a batalha (naval) de Navarin (1827) definitivamente libertou a Grécia, Nauplie (capital antes de Atenas) tinha ganho o aspecto, na medida do possível, de uma feliz capital. As modas europeias tinham conquistado as esposas e as filhas dos pallikares. Mestres dançarinos tinham vindo da Itália e das Ilhas Iónicas ”. “Os oficiais franceses da força expedicionária e os oficiais dos esquadrões aliados tinham pedido à Capo de Istria a permissão para construir, sobre o bastião do Arsenal, um enorme pavilhão em madeira para dar um baile em honra do Presidente e dos notáveis. A música do vaso almirante russo devia ser disponibilizada pelo almirante Ricord. Capo de Istria autorizou a construção, mas decidiu que o dever de chefe de Estado impunha que lhe fossem primeiramente apresentadas as honras do cargo.” “O primeiro baile oficial de Nauplie foi um acontecimento sensacional. Capo de Istria retirou-se dignamente por volta da meia-noite, mas a festa durou até madrugada avançada, para grande desespero do macambúzio presidente. ”, escreveu o jornalista, homem de letras, poeta e historiador René Puaux (“Revenons en Grèce”, Paris 1932).). Capo de Istria é assassinado a 27 de Setembro (9 de Outubro) 1831 nas escadas de acesso à igreja Santo Spyridon de Nauplie e quanto… aos pallikares, personagens corajosos e dignos, na acepção mais elevada de honra, do tempo da guerra de independência contra os Otomanos (1821), certas representações muito colectivas, quereriam sempre distinguir, precisamente, os seus descendentes… praça da Constituição em 2015.

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Saída do metro.  Praça da Constituição, 11 de Fevereiro

 

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Praça da Constituição, Atenas, 11 de Fevereiro de 2105

 

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Praça da Constituição, Atenas, 11 de Fevereiro de 2105

 

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“Saiamos da União Europeia”. Praça da Constituição, Atenas, 11 de Fevereiro de 2105

 

A história não se repete certamente, no entanto, ela participa na construção e na divulgação das representações do futuro. O momento histórico na Praça da Constituição foi extremamente forte e diria mesmo foi muito rijo, porque os Gregos, depois de cinco anos… de ocupação pela via da dívida têm efectivamente sede de tais momentos. Assim, foram numerosos aqueles que se pronunciavam em prol de uma saída da Grécia da zona euro, ou mesmo da UE. Nas antípodas (quase) da posição (actual) de Alexis Tsípras e SYRIZA… local para quem “o sentido da nossa aventura europeia comum, terminará por nos colocar de acordo” (cito de memória). Para já, SYRIZA do avesso e a praça Syntagma não percebe de acordo com o que vejo , esta aventura como sendo bem… comum. Estranha então esta noitada única, a do 11 de Fevereiro. Um colectivo de anarquistas e de comunistas… filiados, desconhecidos do grande público, davam-se a conhecer pelos seus folhetos: “Apagamento da dívida. Guerra à guerra da UE”. Um cidadão, esmagado … já por esta mesma dívida, dormia no passeio em frente ao hotel Grã-Bretanha, parecia no entanto desligado de tudo, desligado das reivindicações da EU assim como da vida.

(continua)

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