
METAMORFOSES DA CASA
Poema de Eugénio de Andrade (in “Ostinato Rigore”, Lisboa: Guimarães Editores, 1964; “Poesia”, 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 125)
Dito pelo autor (in CD “Eugénio de Andrade por Eugénio de Andrade”, Numérica, 1997)
Ergue-se aérea pedra a pedra
a casa que só tenho no poema.
A casa dorme, sonha no vento
a delícia súbita de ser mastro.
Como estremece um torso delicado,
assim a casa, assim um barco.
Uma gaivota passa e outra e outra,
a casa não resiste: também voa.
Ah, um dia a casa será bosque,
à sua sombra encontrarei a fonte
onde um rumor de água é só silêncio.
