
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Atentados de Paris: nem amálgama nem recusa
Nós estamos guerra, ao que parece, mas contra quem?
Samuel Piquet, Attentats de Paris: ni amalgame ni déni – Nous sommes en guerre, paraît-il, mais contre qui?
Revista Causeur.fr, 17 de Novembro de 2015
“O horror da barbárie exprimiu-se e nada mais que isso. Não eram nem muçulmanos, nem católicos, nem árabes, nem ocidentais” declarou ontem, no sítio de Mediapart, Pierre-Adrien Marciset, num artigo intitulado “não deixemos que se instale o espírito de guerra”. Assim mesmo? Quem nos atacou , então? Fantasmas? Não, foi “a barbárie terrorista” explica pelo seu lado Laurent Joffrin.
Seja assim, mas de onde vem? “Discursos políticos de vistas curtas e de fraco nível (sobre o Islão, nomeadamente, com este repelente termo de matriz colonial de “assimilação”)” explica por outro lado Edwy Plenel, antes de acrescentar que é necessário “defender a nossa França, a nossa França arco-íris, forte da sua diversidade e da sua pluralidade, esta França capaz de fazer causa comum na recusa das amálgamas e dos bodes expiatórios ”. Porque não? Mas contra quem? Não se saberá .
É arrasador verificar até que ponto, perto de um ano depois dos atentados de Janeiro, as reacções são sempre as mesmas. De um lado os que acusam os estrangeiros, os muçulmanos como um todo, e do outro os que recusam nomear o inimigo, à custa de sinuosidades por vezes grotescas.
É assim que o mesmo Pierre-Adrien Marciset ataca: “Se alguém aplaudir os discursos islamofóbicos incentivando o ostracização dos muçulmanos sem distinção dos indivíduos, esse alguém é culpado.” Certamente, ostracizar os muçulmanos é desagradável, mas os terroristas por conseguinte teriam sido incentivados unicamente por uma pretensa “islamofobia ” francesa?
Seguidamente este mesmo indivíduo explica-nos: “Quem nos agrediu ontem não chega a lado nenhum: convidamo-lo no nosso mundo. O nosso país é uma república embebida de si própria, saturada do seu bom direito de tudo exercer, brutal e insolente que caminha politicamente sobre a exacerbação das diferenças, a França é um país de guerra civil sem armas de fogo, sem segmentações, sem ódios e sem divisões.” Interessante verificar que os mesmos que acusam os outros de declinismo são frequentemente os maiores inimigos da França.
“Protege os muçulmanos de França como não soubemos proteger os judeus de França, outrora” conclui ele. Certamente, os muçulmanos de França não são menos franceses que os outros e é necessário protegê-los. Mas o paralelo com os judeus de antes da segunda guerra mundial, para além de que parece altamente contestável, não nos informa nada quanto à identidade do nosso inimigo.
Como fazer bloco contra o inimigo, se este não for o mesmo para cada um de entre nós? Se alguns continuarem a pensar, enquanto os civis se fazem abater por dezenas pelos islamitas, que o inimigo número 1 é a islamofobia. A este ritmo, vão tentar de novo fazer-nos acreditar, como pela altura das manifestações do 11 de Janeiro, que marchamos contra a Frente Nacional. A FN é evidentemente um perigo, mas não queiram fazer acreditar que se trata actualmente do perigo número 1. É necessário pelo menos ser-se um discípulo de Edwy Plenel para praticar uma tal recusa do real.
Não, tudo isto não teria nada a ver com a religião, parece, porque a maioria dos muçulmanos seriam moderados. Certamente, e é feliz que assim seja, mas em que é que este argumento nos permitiria retirar a dimensão religiosa ao problema? Desde quando é que a religião não teria nada a ver com a política? Quem ousaria pretender que a Inquisição não teria nada a ver com o catolicismo? Infelizmente, os jornalistas continuam a confundir fé e religião.
Sim, os terroristas são fanáticos, mas que agem assim em nome da religião. Sim, a interpretação que fazem os islamitas do Alcorão é literal, arcaica e inumana, mas não é um facto totalmente isolado. Não, o Islão que preconizam não é o Islão autêntico mas existe efectivamente este Islão capaz de matar as pessoas suspeitas de apostasia, que lapida as mulheres adúlteras ou mesmo as mulheres violadas. O que autoriza a matar os infiéis, cuja multidão veio assistir a um concerto suposto de idolatria como igualmente as gentes que estavam nas esplanadas dos cafés parisienses. É o Islão que põe em marcha a charia mais rigorosa na Arábia Saudita, no Iémen, na Indonésia ou o Paquistão
Pelo contrário, isto tem muito a ver com a religião. Os terroristas fazem o que fizeram muitos outros antes deles: utilizam as crenças de toda uma franja da população para legitimar os seus actos e para alargar e assentar o seu poder. Aliás, eles utilizam o facto de que não se ousa criticar em demasia a religião em questão para obter o nosso silêncio.
O nosso inimigo tem por conseguinte um nome: islamismo. E há valores a opor-lhe, nomeadamente o humanismo, as Luzes, a escola republicana. Da mesma maneira que a laicidade e a coragem de a aplicar. A liberdade com efeito também faz parte. Mas não uma liberdade que serviria a uns e apenas para saciarem os seus impulsos de consumidores e aos outros apenas a liberdade de ver os primeiros a comportarem-se desta forma, a saciarem-se. Não se faz a guerra para guardar o seu smartphone intacto.
Para fazer a guerra, é necessário ser movido por aspirações que nos ultrapassam: a pátria, o nosso património cultural, a laicidade fazem parte destas aspirações. E mesmo que alguns nos queiram fazer acreditar que são palavras vis, a velocidade a que as bandeiras azul-branco-vermelho se espalharam pela Internet mostra à evidência que é muito difícil negar totalmente o sentimento de pertença a uma nação. E, embora a Europa e a globalização tentem desde há bastantes anos dissolve-las na expressão “cidadão do mundo”, tudo isto fará sem dúvida com que Montesquieu queira saltar do seu túmulo! .
Que isto não desagrade a Edwy Plenel, “a pluralidade e a diversidade desta nossa França”, “sociedade de liberdades individuais e de direitos colectivos” como ele o diz tão bem, não será suficiente para fazer a guerra ao islamismo. Pensamos pelo contrário, com Boualem Sansal, que só uma França laica pode combater o islamismo.
Enquanto não se nomear o nosso inimigo, enquanto se responder à sua crueldade com o silêncio, não o venceremos. Enquanto nos calarmos, enquanto os que ousarem falar não forem mais além do que criticar o Islão como um todo ou dizerem que a religião não tem nada a ver com tudo isto, dois campos continuarão a opôr-se, dois campos que se enganam no seu combate.
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Ver o original em:
http://www.causeur.fr/terrorisme-islam-plenel-mediapart-35444.html

