REFLEXÕES EM TORNO DO MASSACRE DE PARIS, EM TORNO DO CINISMO DA POLÍTICA OCIDENTAL – ATENTADOS DE PARIS: UM TERRORISMO DE PROXIMIDADE – DESTA VEZ, OS GRIGRIS DO GOVERNO NÃO IRÃO FUNCIONAR

Nueill
*Photo: Sipa. Numéro de reportage : 00730539_000015.

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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Atentados de Paris: um terrorismo de proximidade

Desta vez, os grigris do governo não irão funcionar

Alain Nueil, Attentats de Paris: un terrorisme de proximité – Cette fois, les grigris du gouvernement ne fonctionneront pas

Revista Causeur.fr, 14 de Novembro de 2015

Publicação autorizada

Desde o início desta triste e  cinzenta  manhã de sábado 14 de Novembro de 2015, os comentários nervosamente expressos  nas   diversas cadeias de informação parecem-me feridos de dois erros graves. O primeiro é o de  sublinhar o grande profissionalismo dos assassinos. Pela primeira vez, não são amadores cujas kalachnikov se encravam,  como no comboio Thalys ou que  disparam uma bala  no pé antes de chamar o serviço de urgência.  São ases  do terrorismo, que terão passado  muito tempo nos campos de treino, depois,  sobre o próprio solo de Daech. Realmente  passámos para uma outra etapa, estamos doravante numa guerra efectuada por verdadeiros soldados, etc., etc.

Falsas, muito falsas, estas afirmações.  Os dois djihadistes do Stade de France erraram completamente o seu golpe e fizeram   explodir as suas cinturas no mau  momento e no mau local.  Mau para eles, certamente, e bom  para todas as vidas poupadas pela sua falsa manobra.  Os comandos em automóvel que metralharam as esplanadas dos cafés  nos 10º e no 11º bairro  não fizeram prova extrema de nenhuma  sofisticação tecnológica. Um deles está ao volante   e circula devagar ao longo das ruas, outro utiliza o seu telefone portátil para se coordenar   com os outros automóveis dos assassinos, o terceiro arrasa   com a sua   kalach os calmos consumidores do pequeno Cambodja, e tudo está feito.  Onde é que está o sucesso de elevada tecnologia djihadista? Mesmo eu, pobre pessoa já um pouco fatigada com a idade  poderia fazer aquilo com uns amigos numa noite de grande bebedeira, contra as bonitas esplanadas  dos cafés de Brantôme ou de Périgueux. Deus me livre.

Os assaltantes da sala   Bataclan tiveram muito sangue frio  e sobretudo muita sorte.  Se os comentadores  de televisão fossem um pouquinho mais cultos  não teriam deixado de  ver o último filme de Woody Allen L’homme irrationnel e de rever  Match Point. Os dois filmes dizem-nos a mesma coisa: o azar tem   um papel excessivo e escandaloso no destino humano. Os infelizes espectadores de Bataclan  tiraram a má carta  aquela em que   ninguém não pôde parar ou vencer a equipa dos assassinos, aquela em que  nenhuma marinha americana se apresentou com atraso  para  o espectáculo e que lhes poderia partir a cara, aquela em que  as armas não se encravaram

É tudo, mas é muito. Isto  quer dizer que a vida diária dos Franceses vai doravante desenrolar-se numa atmosfera de roleta russa  e que viverão na dependência de qualquer banda de   amigos tocados pelo haschich e desejosos de armarem uma grande bronca na cidade.

Segundo erro grave dos nossos comentadores a quente nas  cadeias de televisão: na sequência do governo, todos dizem e repetem que os massacres de Paris são comanditados desde o Médio Oriente, que são a obra de um comando internacional vindo da Síria, que somos a presa de uma guerra de civilização total, etc., etc. “Os jovens”, nas poucas frases que disseram aos infelizes reféns do Bataclan  falavam um excelente francês e com boa pronúncia, como não se fala lá para os lados  de Raqqa ou de Mossoul. A reivindicação escrita de Daech é redigida em excelente francês, o que tranquilizará o nosso amigo Brighelli sobre a qualidade dos cursos leccionados nas escolas públicas das periferias nos subúrbios (perdão por estar a utilizar  uma graçola  particularmente abjecta e deslocada).

Corrija-se,  “subúrbio”! Não ouvi  esta palavra uma só  vez durante toda a minha manhã a ver televisão.  O politicamente correcto é responsável de muitos erros e de  cegueiras, mas desta vez não o criticarei. É a realidade que é demasiado aterradora, é o seu pavoroso sol que não se pode olhar de frente. Os comentadores dizem não importa o quê, falam do planeta inteiro, do apoio que nos traz   Barack Obama, dos grandes desafios estratégicos na África e no Médio Oriente para não ver a insustentável simplicidade de que acaba de se passar: o subúrbio está  montado em  Paris para fazer tiro ao alvo.  A França inventou o terrorismo de proximidade. Genial.

Não direi “não há amálgama”, a expressão está  de tal modo gasta  que ninguém a  pronunciou esta manhã. Mas tenho um pensamento comovido para todas as pessoas corajosas dos subúrbios, muçulmanos simplesmente culturais ou crentes sinceros, que vão viver doravante num labirinto de questões  dolorosas. ” O meu filho vai deixar-se tentar um destes dias? Tem-me dito  que gosta   de viagens, mas como na  Córsega, como no verão passado  com os seus amigos, ou então mais longe? “Haverá lágrimas, rangidos de dentes, pesadelos de mãe, soluços no escuro da noite, na cama. E até onde irá a reacção dos franceses não  muçulmanos? Patrões que contratarão menos que nunca ao verem o nome no CV? Velhos amigos cristãos que se convidavam no Ramadão  e que deixarão de telefonar? De todos estes rostos que se cruzam no metro e que desviarão imediatamente?

Desta vez, os grigris e encantações  do governo não funcionarão. Falta de  união nacional? A união entre os irresponsáveis  que deixaram um outro povo constituir-se no hexágono e os lançadores de alertas que tem sido arrastados  na lama desde há anos? A união sagrada entre Finkielkraut e Joffrin quando este  insulta o primeiro  quase que dia a dia  no seu jornal? Serão necessárias respostas políticas de outro modo bem fortes, talvez um Estado autoritário que corte necessariamente nas liberdades.

Em contrapartida, só se  pode  aprovar um comentário que saiu esta manhã de quase   todas as bocas. Os admiradores da morte, os  Viva la  muerte desta sinistra  sexta-feira 13 quiseram-se atirar contra a  doçura de se  viver à francesa, esta presença comum das mulheres e dos homens que conversam alegremente nas esplanadas dos  cafés ou num estádio, aplaudindo juntos um efeito de bateria particularmente bem conseguido na sala Bataclan . Gostaria efectivamente  que a famosa expressão  “ infelizes os povos  que não sabem que a história é trágica” se revele como falsa,  por uma vez, por esta vez.

Alain Nueil,  Revista Causeur, Attentats de Paris: un terrorisme de proximité -Cette fois, les grigris du gouvernement ne fonctionneront pas. Texto disponível em :

http://www.causeur.fr/attentats-de-paris-un-terrorisme-de-proximite-35404.html

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