7. Violação da dignidade em Estocolmo – A virilidade, uma arma contra o sexismo?

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

O silêncio na Alemanha e na Suécia – que aconteceu em Colónia e em Estocolmo?

7. Violação da dignidade em Estocolmo- A virilidade, uma arma contra o sexismo?

Samuel Piquet, Revista Causeur

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“As vítimas evitaram apresentar queixa e a polícia tudo fez para abafar os factos.” É o diário sueco Dagens Nyheter, reproduzido por Liberation , que revelou o acontecido. No decorrer do mais famoso festival de música na Suécia, centenas de queixas sobre agressões sexuais foram assim classificadas, sem sequência, apesar dos memorandos dos polícias que indicam por exemplo “ jovens que se esfregavam contra raparigas jovens de mais baixa idade”. Pior ainda, apesar de uma queixa por violação no ano passado e apesar da mobilização no ano seguinte, os organizadores foram ultrapassados durante o verão 2015 em que eles chegaram a pensar por momentos em separar as raparigas e os rapazes.
O testemunho anónimo do um dos polícias, que explica que “a direcção quer colocar um pano molhado sobre tudo isto, de forma a não ofender ninguém, ou a evitar encontrar-se no meio de um debate”, é aterrador . Em Colónia como em Estocolmo, preferiu-se deixar mulheres a serem apalpadas por hordas de homens e não reagir do que estigmatizar uma categoria determinada de população. Se se pode estar extremamente chocado com o silêncio dos polícias e de certos jornalistas, o que dizer do silêncio que reclama o primeiro chui da França sobre esta questão quando nos diz “parem de andar a dizer que houve violações”?
Porque o mais importante, explica-nos, é não fazer subir a votação da Frente Nacional. Como se a extrema- direita já não fosse capaz de explorar o silêncio mediático e dele fazer um enorme barulho. Como se, escondendo este tipo de incidente, não se arriscasse de modo algum corroborar as suas teorias de complot e a sua desconfiança no que diz respeito ao poder em exercício. Era necessário, dizem-nos igualmente, evitar estigmatizar certas populações: mas esconder as agressões sexuais com o medo de incentivar o racismo, é um pouco como não condenar um criminoso sob o pretexto que isso poderia dar más ideias aos outros.
É surpreendente que aqueles mesmos que não hesitam em fazer incessantemente paralelos com a segunda guerra mundial, todos estes especialistas “das horas mais sombrias”, não tenham encontrado nada no silêncio cúmplice que acompanhou estes horrores que lhes trouxesse um pouco de água ao seu moinho. É surpreendente que todos os especialistas da indignação tenham podido ouvir todas as informações sem estar a pestanejar e não sido animados de nenhum sentimento de revolta.
“A filosofia não é outra coisa que não seja o esforço do espírito para se dar conta da evidência.” dizia Jules Lagneau. Ao ritmo em que alguns dos nossos meios de comunicação social e políticos andam a filosofar, os violadores têm ainda muitos e belos dias à sua frente.
Para aqueles, é mais importante protegerem-se da acusação de estigmatização do que da agressão. Uma mão no bolso não é nada ao lado de um olhar través. E ficam mais facilmente escandalizados pelos maus pensamentos do que pelas más acções. Porque o sexismo reafirmado é sempre menos grave que o sexismo suspeitado. O delito de pensamento é muito mais perigoso que o crime sexual. É assim que muitas feministas dos dois sexos preferiram indignarem-se pela ausência de mulheres nas listas dos nomeados em Angoulême do que por estas violações.
Sim, por uma vez, podemos legitimamente sentirmo-nos culpados mas não, como é hábito, do que os outros fizeram por nós, porque teríamos atiçado o seu ódio, mas sim pelo nosso silêncio e pela nossa inacção. Enquanto a paridade serve de ecrã à nossa covardia, enquanto nós cobrimos o verdadeiro sexismo com um véu de anti-racismo primário, centenas de mulheres são traumatizadas com a sua agressão sem mesmo a compensação – certamente insuficiente do nosso apoio unânime. Enquanto belas campanhas cheias de bons sentimentos convidam os pais a culpabilizarem-se de terem dado filhas ao mundo , nós deixamo-las serem agredidas na maior das indiferenças. Recusando ao mesmo tempo aos imigrantes, por uma espécie de racismo invertido, o direito de serem tratados como os outros cidadãos.
Mas apesar de tudo continuamos a agitar a paridade como o símbolo último da nossa vitória sobre o sexismo. E os que não recuam na frente de nada estariam mesmo prontos a fazer passar a covardia como sendo pacifismo e a cumplicidade como sendo tolerância.

Contrariamente ao que tentam ensinar-nos a pensar, a virilidade pode, por vezes, ajudar a fazer barreira ao sexismo. A virilidade não é somente uma tara e a nós faltam-nos mesmo muito os homens capazes de impedir que venham até nos nossos braços atacar as nossas filhas e as nossas companheiras. É que a natureza, mesmo que desagrade à fraude intelectual do género -que sob o pretexto falacioso de que devemos apenas falar de estudos e não de teoria do género seria privada de toda a ideologia – não é assim tão mal feita como isso.
Aos que argumentam que é esta mesma virilidade que levou estes homens a agir assim, eu responderia que não se deve confundir impulsos e passagem ao acto. A maior parte dos homens sabe refrear os seus desejos se constatarem que as mulheres não o estão a consentir. Recusar-lhes estas faculdades, é de uma maneira ou de outra estar a desculpá-los. .

Des hommes qui caressent les femmes dans le sens du poil médiatique, il y en a à chaque coin de rue, mais des hommes prêts à les défendre dans les coins de rue, il y en a beaucoup moins.Qui n’est pas capable de mourir pour sa femme ou sa fille n’est pas digne d’être appelé « homme ».

Homens que acariciam as mulheres no sentido do pêlo mediático, há muitos em cada esquina, mas homens prontos a defendê-las nas esquinas das nossas ruas , há mesmo muitos menos . Quem não é capaz de morrer pela sua mulher ou pela sua filha não é digno de se lhe chamar “homem”.
Não sei se terei a coragem de defender desconhecidas no dia onde em que forem atacadas mas do que estou certo, se é que isto não é já agora o caso , pelo menos eu terei vergonha.

 

Samuel Piquet, Revista Causeur, Viol de dignité à Stockholm- La virilité, une arme contre le sexisme? Texto disponível em :
http://www.causeur.fr/viol-stockholm-cologne-migrants-36357.html

 

*Photo: wikicommons. Arild Vågen.

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