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A GALIZA COMO TAREFA – irritar – Ernesto V. Souza

É, sem dúvida o caráter extremo da alienação “colonial” das pessoas naturais de comunidades negadas ou minorizadas que fazem parte dos estados europeus o que concede precisamente a capacidade de “irritar”, de quebrar a expectativa da “normalidade” mesmo quando esta normalidade é o que se pretende conseguir ou à que se aspira.

O “indígena”, o “provincial”, o “regional”, enerva o cidadão, cada vez que é apanhado, por causa do seu linguajar, dos seus hábitos, costumes, jeitos, por causa da cor da sua pele, pelo seu vestir, provincialismo ou hábitos alimentares, cada vez que é percebido como uma incómoda “singularidade”.

Ao mesmo tempo, como parte desse fenómeno, a ambivalência ou hibridação dos indivíduos e dos seus atos, nega-lhes a percepção consciente tanto dessa capacidade de irritar propositadamente como também da própria noção de indivíduo.

Mas ter a capacidade de encolerizar não passa de “circunstância”, mesmo quando é percebido como uma potência, a questão é a capacidade de dar sentido a essa capacidade de irritar, não apenas para provocar, ou para definir um protesto ou uma reivindicação, quanto para construir a própria identidade.

E isto com toda a sua complexidade é assim porque o “indivíduo consciente” na sociedade europeia, é por causa de um processo histórico muito particular e moderno, o “cidadão”: o indivídup  consciente da “sua” co-identidade com os outros cidadãos. E, o cidadão é, claro, um indivíduo com passaporte e ao dia com os deveres, obrigas e leis do dito Estado.

Mas o que acontece quando o indivíduo, ou um grupo de indivíduos toma consciência do seu particular problema de alienação cultural? que acontece quando toma consciência e começa a ler, refletir e narrar o repertório de fatos sociais e históricos que dão conta dos conflitos e se toma consciência dos contrastes, do papel nos conflitos, da subalternidade aceite, ou combatida?

Que acontece quando não se aceita a descrição do sujeito como “colonizado” que vem definido desde “fora” e quando não se aceita o programa agendado de “civilização”: assimilação, linguística, cultural, mesmo religiosa e racial?

À tomada de consciência nacional, apresenta paralelos notáveis com a de cor, gênero e classe, e pode seguir a esta um processo de re-construção dos conhecimentos, costumes, crenças, artes, moral, e com eles de hábitos e de comportamento.

A cultura, a língua espelham mundos, fantasias, tradições potencialmente desafiantes que questionam radicalmente a formação tanto da autoridade individual como da social na forma canônica, que se desenvolve como programa educativo e formação do espírito de grupo desde o Estado.

Com elas, as virtudes sociais, os conceitos do que é bom e mau, a cortesia, a narrativa da história, a coesão cultural e étnica, a consciência da identidade grupal conformam uma proximidade imediata, utópica, com os sujeitos aos quais se confere uma mesma identidade.

E, como a consciência da identidade grupal reforça e retro-alimenta a noção de indivíduo cidadão, o resultado é o conflito procurado, a reivindicação, o protesto e em função da capacidade para articular-se uma reivindicação política capaz de transformar-se num movimento, num partido, numa legislação autonômica, ou mesmo num novo Estado .

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