EM COMBATE – 164 – por José Brandão

4ª Companhia de Comandos

MOÇAMBIQUE

1966-1968

As acções da Frelimo directamente contra as forças militares portuguesas aumentaram constantemente desde 1964, levando o comando português a comentar que a situação «revelava progressivo aumento do estado de aliciamento e do grau de apoio conferido pelas populações nas áreas da subversão violenta».

Em 1966, a Frelimo realizou 1174 acções, exercendo o seu esforço militar no Niassa, com 59 por cento das acções, das quais 71 por cento foram de fogo e 28 por cento de emprego de minas.

Em 1967, o esforço exerceu-se já em Cabo Delgado/Mueda, onde o movimento realizou 54 por cento das 1304 acções levadas a efeito durante o ano. Destas, 49 por cento foram de fogo e 45 por cento de emprego de minas. Mas em Cabo Delgado, com 696 acções, a implantação de 332 minas superou as acções de fogo, aspecto que caracterizou a guerra nessa zona.

Nas acções de fogo, a Frelimo, nomeadamente nas emboscadas, empregou, a partir de 1967, efectivos cada vez maiores, chegando a utilizar, em Cabo Delgado, grupos de sessenta a cem elementos.

Em Cabo Delgado, a Frelimo tinha uma base provincial, Base Moçambique, com o efectivo de cento e oitenta homens, uma sub-base provincial, na serra do Mapé, uma base de artilharia, Base ou Batalhão Gungunhana, e as seguintes bases operacionais: Angola, António Enes, Gaza, Inhambane, Limpopo, Lúrio, Manica, Maputo-Macomia, Marrupa, Nampula e Beira. Dispunha ainda de um hospital central (Base Zambézia) e instalou um cemitério dos combatentes na zona de Mueda.

Operação Marte

A 4.ª Companhia de Comandos executou, em Abril de 1968, na região do Niassa, um golpe de mão à Base Provincial Gungunhana, aproveitando informações recolhidas durante a Operação Corvo III.

Nesta acção, tinha sido feito prisioneiro o chefe distrital de reconhecimento (Sereco) e abatido o comandante da Base do Unango, que transportava uma pasta com documentos.

As declarações do prisioneiro permitiram referenciar a localização da Base Gungunhana e o estudo dos documentos revelou estar marcada pelo chefe provincial, Sebastião Mabote, uma reunião dos chefes militares da Frelimo no Niassa, na base, para discutir as acções a realizar nas regiões de Cantina Dias e Vila Cabral.

Devido ao valor excepcional da informação, à possibilidade de surpreender uma reunião de líderes da Frelimo e ainda de se dispor de um prisioneiro importante, foi decidido realizar uma operação no maior segredo, empenhando efectivos reduzidos, mas escolhidos.

A 4.ª Companhia de Comandos recebeu essa missão, apesar de quatro dos seus cinco oficiais estarem feridos ou convalescentes, incluindo o seu comandante, que, no entanto, se apresentou para comandar a operação. Esta companhia recebeu ainda a colaboração do grupo de milícias do Niassa, do chefe Roxo.

A força ficou constituída por três grupos de comandos de dezanove homens e um grupo de milícias com vinte e seis homens. O planeamento da operação envolveu um restrito conjunto de oficiais, o reconhecimento aéreo feito sobre a zona do objectivo aproveitou um voo de reabastecimento, para não levantar suspeitas, e os pormenores da cooperação aero terrestre foram acordados com o comandante do Aeródromo 61 (Vila Cabral).

Depois do transporte de Vila Cabral para Metangula e de um acidente com uma Berliet, que causou vários feridos, a companhia de Comandos atingiu, em 27 de Março, a localidade de Nova Coimbra, onde se encontrava aquartelada uma unidade de caçadores e que seria a base de partida para a operação.

No dia 28, de manhã, a 4.ª Companhia saiu de Nova Coimbra, a pé, para o Lunho, e daqui para Miandica, a corta-mato. Em 31 de Março, iniciou-se a fase de aproximação à Base Gungunhana, sendo percorrido durante sete horas um itinerário muito acidentado nos montes Chissindo. A zona onde as populações de camponeses trabalhavam as suas machambas e apoiavam os guerrilheiros, demorou quatro horas a ser atravessada, para evitar que eles detectassem a presença dos militares, que pernoitaram a cerca de três horas da base e reiniciaram a marcha às cinco horas, de 1 de Abril.

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