VIAGEM COM PASQUALINI- 12– por Sílvio Castro

(Continuação)

 

Ao contrário dos espanhóis, os portugueses não se confrontaram nos primeiros momentos da Conquista com populações que apresentavam uma organização sócio-cultural complexa, semelhante àquela dos aztecas, dos incas, dos maias etc. Também na área portuguesa se tratava de populações igualmente numerosas, mas as correspondentes estruturas culturais menos complexas permitiram, de certa forma, ao Conquistador um relacionamento aparentemente menos conflitual. Na verdade, não se pode comparar o sistema da primeira fase de intensa destruição militar dos indígenas por parte dos europeus no México e no Perú, com o que acontece quase contemporaneamente no Brasil. Uma violenta conflitualidade entre portugueses e indígenas se verifica somente em um segundo tempo, aquele específico da colonização definitivamente organizada. A conflitualidade é diretamente ligada à evolução do status econômico do colono português no Brasil. Quanto mais se desenvolve a atividade dos colonos, tanto mais se verifica o choque entre os interesses deles e a liberdade dos índios. Já antes da metade do Quinhentos este quadro se afirma. A invasão do sertão por parte dos colonos em procura de mão-de-obra escrava conduzirá os conflitos entre portugueses e as tribos indígenas ao máximo de intensidade. Exemplo de tal situação é a guerra entre os Aimorés e os colonos, em 1560, guerra que assola a costa, da Bahia ao Rio de Janeiro. Ao lado dessa violência mais distintamente física, deve-se colocar o processo de violência cultural derivada da evangelização, quase nunca respeitosa dos valores culturais indígenas e muitas vezes geradora do sistema de violência que caracteriza o sistema colonial em geral.

 

                  

O extermínio das tribos indígenas por doenças e epidemias contraídas pelo contacto com os europeus é, no espaço da Conquista portuguesa, como naquele da Conquista hispânica, tão vasto ao ponto de não permitir qualquer tipo de estatística quanto às proporções assumidas.

 

                  

O português se confronta com os indígenas do Brasil mais ou menos com as mesmas características dos castelhanos: a mesma avidez inicial pelo ouro, assim como para com todas as riquezas diretamente materiais; o mesmo radicalismo cultural de aplicação dos valores eurocêntricos. Porém, na sua longa história de navegações e descobertas, em geral Portugal não se preocupou de ser um agente ativo de evangelização. As viagens portuguesas, do séc. XIV ao XVI, revelam sobretudo o ânimo mercantilista que as guiava. Na história de Portugal a evangelização como elemento de colonização se apresenta somente a partir de 1549 com a catequese dos índios do Brasil por parte dos jesuítas. Esta mesma obra de Conquista espiritual dos indígenas brasileiro é um dos fatores fundamentais da diferenciação do Brasil em relação às outras Américas.

 

                  

A catequese jesuítica no Brasil, que implica uma declaração de vontade seja da parte da Igreja, seja também da Coroa portuguesa, se revela imediatamente como um projeto da Companhia de Jesus. Não é por outra razão, certamente, que o primeiro Provincial em terras brasileiras, o Pe. Manuel da Nóbrega, apenas chegado na América em 1549, comunica com grande entusiasmo em uma carta ao seu Superior em Portugal, falando da terra e da gente: «Esta é a nossa empresa». A partir de então, o Brasil e os índios são o grande projeto dos jesuítas empenhados na conquista espiritual, de Nóbrega, a Anchieta, a Vieira. Trata-se de um projeto tão vasto e de faces tão diversas que se ativa não somente em choques com os colonos e atos de diretas oposições a determinados interesses da Coroa portuguesa. [Neste sentido, de grande importância é o texto de Vieira, «Defeza dos Índios»], mas até na assunção e prática de formas de radicalismo integralista no plano religioso, integralismo gerador de formas de violência próprias do período colonial, transformadas em seguida numa herança de continuada presença nas estruturas sócio-políticas do Brasil.

 

                  

O homem brasileiro do séc. XX dificilmente pode fazer suas as razões que orientaram Octavio Paz na definição da atual consciência histórico-cultural do homem mexicano moderno. Os brasileiros não têm, habitualmente, uma visão determinada do mundo pré-cabralino, ou senão, quando a têm, esta se mostra neles como pura representação da natureza, na qual o verdadeiro personagem é quase unicamente a paisagem. Os Índios – se se apresentam figurados nessa visão – quase nunca <superam a dimensão de comparsa em meio a tantas outras comparsas.

 

                  

O brasileiro contemporâneo não convive habitualmente com nenhuma figura do índio. Somente quando sua atenção vem chamada em modo insistente pelo mass-media, ele incorpora ao seu imaginário essa figura. Normalmente, não se preocupa de uma possível relação entre a sua consciência de ser nacional e o passado colonial. Somente em alto nível cultural ele se mede com as raízes, seiscentistas ou setecentistas (o Quinhentos, geralmente, se apresenta como uma zona de sombras na alma brasileira) da sua personalidade histórica. Pode-se dizer, em síntese, que o homem brasileiro vive um tal intenso sentimento do presente a ponto de considerar o passado tão só a partir dos valores dos dias presentes.

 

                  

Por isso o Brasil é por si mesmo uma América. Com aquela (ou aquelas) hispânicas tem em comum certos elementos culturais e determinados valores religiosos originais herdados de um mesmo Catolicismo.

 

                  

Mas, também neste caso o sincretismo cultural da natureza americana do brasileiro se mostra muito diferente do sincretismo da América hispânica. A catolicidade brasileira moderna é o resultado de um sincretismo de várias componentes – inclusa fortemente aquela africana – que se aproxima mais diretamente à natureza e ao homem – ao sacro – que ao ritual. Trata-se de um difusa espiritualidade que valoriza, em certo sentido, uma maior aproximação com o universo americano de origem inglesa, reformista e capitalista. [Devo desde logo acentuar que uma tal conclusão surpreende o próprio autor, mas é tomada qual demonstração de como a evolução dos valores culturais no processo histórico possa conduzir a linhas paralelas determinadas estruturas nacionais partidas de pontos quase antitéticos.]

 

                  

Se a Conquista portuguesa e castelhana é de natureza católica e ligada à evangelização – em certo modo uma retomada do espírito das cruzadas, sendo igualmente invasão de terras habitadas e cultivadas por povos organizados -, a Conquista inglesa protestante da parte mais setentrional do continente é mais especificamente uma invasão. Jennings, já citado, diz: «O continente americano mais que virgem permaneceu viúvo de seu povo. Não é verdade que os Europeus encontraram um deserto; pelo contrário, é verdade que, talvez involuntariamente, criaram um deserto. Jamestown, Plymouth, Salem, Boston, Providence, New Amsterdam, Filadelfia: todas estas cidades foram fundadas em localidades precedentemente ocupadas pelos Indianos. A mesma coisa vale para Quebec, Montreal, Detroit e Chicago. A dita colonização da América foi em verdade uma recolinazação; a segunda ocupação de uma terra desnudada pelas epidemias e pela desmoralização seguida à chegada dos novos colonos».

 

(Continua)

Leave a Reply