As graves questões que se nos deparam no dia a dia, quando abrimos a televisão, lemos os jornais e, sobretudo, quando ouvimos e temos de lidar com os nossos políticos, obrigam a uma reflexão sempre mais atenta sobre o que se passa na vida internacional. Para os portugueses, que, concordando ou não, vêem o seu destino cada vez mais ligado (íamos a dizer atrelado) à Europa e às organizações nela constituídas, a pretexto de reforçar a sua coesão, é forçoso acompanhar permanentemente e ter uma opinião formulada sobre o que se passa no continente onde o seu país, que alguns já chamaram o jardim à beira-mar plantado, vai procurando sobreviver. Uma sobrevivência cada vez mais difícil devido a factores vários. Esses factores ligam-se a questões sobre os quais é preciso ter ideias claras, mesmo quando não permitam grandes optimismos.
Duas questões assumem, neste momento histórico, grande relevância, quando se olha exclusivamente para o continente europeu, abstraindo momentaneamente de encarar grandes questões globais, como as que derivam do esforço do imperialismo norte-americano para se manter na sua posição preponderante ao nível mundial, da ascensão da China, e de outras também de peso significativo, como os acontecimentos na América Latina. Uma das grandes questões europeias é a que resulta da vontade de hegemonia da Alemanha, que, depois de perder duas guerras mundiais, indubitavelmente que procura novamente afirmar-se como uma potência dominante, usando agora, não a força militar (pelo menos ainda não), mas o seu poderio económico e financeiro, e o seu peso estratégico no centro da Europa. Nós, portugueses, habitantes de um pequeno país periférico, temos sentido fortemente os efeitos dessa vontade de hegemonia, e perspectiva-se que vamos continuar assim no futuro, a não ser que surja uma força efectiva capaz de a enfrentar, que necessariamente terá de ser apoiada por forças políticas, movimentos e instituições de vários países.
Outra questão, esta já de carácter mais global, é a dos refugiados. Como é do conhecimento geral, tem raízes políticas e económicas, e deriva de um passado histórico colonial mal assumido, assim como de problemas como as alterações climáticas, cujos efeitos continuam a ser mal compreendidos e pouco ou nada enfrentados. Estes são também agravados por uma atitude de superioridade, patenteada pelos dirigentes europeus e ocidentais em geral em conferências e reuniões internacionais, em que se tem procurado impor soluções a países devastados por guerras, ditaduras e desastres naturais, que têm conduzido a problemas ainda maiores. A grave situação presente só poderá ser superada com grande pragmatismo, que permita aos países de onde vêem os refugiados, afectados pelas guerras e pela miséria, começar a ter outras condições. E mostrar aos próprios europeus, cada vez mais temerosos pelo seu futuro, que há saídas mais positivas do que as que actualmente se antevêem.