EDITORIAL – OS DRAMAS EUROPEUS

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As graves questões que se nos deparam todos os dias, quando abrimos a televisão, lemos os jornais e, sobretudo, quando ouvimos e temos de lidar com os nossos políticos, obrigam a uma reflexão mais atenta sobre o que se passa na vida internacional. Os portugueses, concordem ou não, vêem o seu destino cada vez mais ligado (íamos a dizer atrelado) à Europa e às organizações que nela foram constituídas, a pretexto de reforçar a sua coesão. É forçoso acompanhar permanentemente e ter uma opinião minimamente fundamentada sobre o que se passa no continente onde o seu país, que alguns chamam o jardim à beira-mar plantado, vai procurando sobreviver. Uma sobrevivência cada vez mais difícil devido a factores vários. Esses factores ligam-se a questões sobre as quais é preciso ter ideias claras, mesmo quando não permitam grandes optimismos.

E duas questões, neste momento histórico, assumem grande relevância para os europeus, quando se olha directamente para o nosso continente. Abstraindo momentaneamente de encarar grandes questões globais, como são as que derivam do esforço do imperialismo norte-americano para se manter na sua posição preponderante ao nível mundial, da ascensão da China, e de outras, também de peso significativo, como os acontecimentos na América Latina temos que uma das grandes questões europeias, senão a maior é a que resulta da vontade de hegemonia da Alemanha, que, depois de perder duas guerras mundiais, procura novamente afirmar-se como uma potência dominante, usando agora, não a força militar (pelo menos por enquanto), mas o seu poderio económico e financeiro, e o peso estratégico derivado de ser o país mais rico e populoso do centro da Europa. Tendo a ex-Alemanha Federal alinhado incondicionalmente no chamado campo ocidental (alguns diriam com o imperialismo norte-americano) e com a NATO, o colapso da URSS e o fim do pacto de Varsóvia, a partir de 1989, permitiram que as linhas do conflito leste-oeste se deslocassem mais para oriente. E assim os governantes alemães, apoiados pela maioria do seu povo e da direita europeia, puderam aumentar extraordinariamente a influência do seu país. Entretanto questões como a da Ucrânia e do escudo antimíssil põem a claro, por um lado, o recrudescimento da reacção russa ao estado de coisas, por outro lado que os Estados Unidos não desistiram de controlar política e militarmente a Europa. Como se irá posicionar o nacionalismo alemão, agora novamente em crescimento, e aspirando a conduzir pelo menos grande parte dos povos europeus,  em relação  ao choque entre a Rússia e  os Estados Unidos? Quanto a esta questão, cabe dizer em primeiro lugar que, com certeza, nenhum dos outros povos europeus deu mandato ao alemão (algumas individualidades que se passeiam pela comunicação social não representam obviamente os povos a que pertencem por nascimento) para o representar nestas grandes demandas. E é duvidoso que o próprio povo alemão sufrague conscientemente grande parte dos desvarios de Merkel e de Schäuble. Contudo, a história mostra que a clareza de espírito e o conhecimento aprofundado das situações não têm sido predominantes na história das nações, incluindo as nações europeias.

Nós, portugueses, habitantes de um pequeno país periférico, temos sentido fortemente os efeitos da vontade dos alemães de exercer hegemonia sobre os outros países, e perspectiva-se que vamos continuar assim no futuro, a não ser que surja uma força oposta efectiva capaz de a enfrentar, que necessariamente terá de ser apoiada por forças políticas, movimentos e instituições de vários países.

Outra questão, esta de carácter mais global, é a dos refugiados. Como é do conhecimento geral, tem raízes políticas e económicas num passado histórico colonial mal assumido (por todos os lados), e deriva também de problemas como as alterações climáticas, cujos efeitos igualmente continuam a ser mal compreendidos e pouco ou nada enfrentados. Esta questão também é agravada por uma atitude de superioridade, patenteada pelos dirigentes europeus e ocidentais em geral, em conferências e reuniões internacionais, em que se tem procurado impor soluções a países devastados por guerras, ditaduras e desastres naturais, soluções estas que por vezes têm conduzido a problemas ainda maiores. A grave situação presente só poderá ser superada com grande pragmatismo, de modo a permitir aos países de onde vêem os refugiados, afectados pelas guerras, pela miséria e por desastres naturais, começarem a ter outras condições de vida, com mais tranquilidade e estabilidade. E mostrar aos próprios europeus, cada vez mais temerosos pelo seu futuro, que há saídas mais positivas do que as que actualmente se antevêem. Contudo, em primeiro lugar, há que desmascarar atitudes políticas diversas, assumidas por governos de diferentes quadrantes, que vão desde o nacionalismo extremista, como em países da Europa Central,  até posições oportunistas. Nestas últimas há a distinguir a de Angela Merkel, que já de derivou de paladina dos refugiados para o securitarismo completo. E também a do governo Passos/Portas, entre procurar fazer crer que o assunto não era connosco até afirmações de disponibilidade e compreensão, sob óbvias pressões diplomáticas (talvez não muito diplomáticas). Claro que Portugal não pode alhear-se do assunto, embora a situação político-económica que nos foi imposta tenha obrigado tanta gente a emigrar.

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