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Pequeno manual da decomposição política – por Jacques Sapir II

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Pequeno manual da decomposição política

Jacques Sapir, Le Causeur, 1 de Março de 2016

(conclusão)

O dilema europeu: a deflação ou o desaparecimento

No entanto, a situação é grave. A situação da França só tem como igual a crise que conhece a União europeia. É suficiente ler o que escreve um autor “europeísta”, mas no entanto lúcido, para nos convencermos disto mesmo (8). Porque esta crise que perdura tem uma origem. Esta destruição do conjunto do quadro económico e social que conhecemos na França procede do facto do que o euro favorece ou impõe nos diferentes países-membros. Mas decorre também do quadro político implícito que se põe em prática a propósito do euro nos países da zona euro. Hoje, a maior parte dos Europeus são doravante conscientes dos efeitos negativos sobre a economia que esta moeda implica. Sabe-se o que ela provoca, e que o era desde há quase dez anos (9): um fraco crescimento e a subida do desemprego . A crise da zona euro é doravante uma evidência, mesmo para os ideólogos mais limitados. Nenhum dos problemas fundamentais levantados, e logo desde a origem, não foram resolvidos e os seus efeitos agora acumulam-se. As soluções parciais que foram propostas, e apresentadas como progressos históricos para uma Europa federal, põem realmente bem mais problemas do que aqueles que pretendem resolver. A zona euro deixou de ter outras escolhas que não seja ou o envolver-se cada vez mais numa política de deflação, cujas consequências acumuladas são terríveis para os povos dos países que a compõem , ou então desaparecer.

A atractividade do euro mas também da União europeia está em vias de desaparecer. A culpa é das políticas de austeridade que foram postas em prática para “salvar” o euro, ou seja para resolver a crise das dívidas soberanas. Ora, estas políticas mergulharam os países que as aplicaram em recessões muito profundas (10). Será necessário que muito rapidamente os líderes dos diferentes países ganhem consciência disto mesmo e então ou encontram temas susceptíveis de refazer esta atractividade ou então terão de compreender que não se pode duravelmente fazer viver instituições contra a vontade dos povos.

 

A favor de Comités de acção da revolta social

Os escárnios e os insultos que o presidente da República sofreu na sua visita à Feira da Agricultura na manhã de sábado de 27 de Fevereiro são exemplares quanto à exasperação de uma profissão e, par além disso, dos Franceses. Ora, os problemas da agricultura francesa, cujas fontes são múltiplas e onde o papel da grande distribuição deveria ser assinalado, seriam largamente reduzidos se uma diferença de 40% fosse estabelecida entre o franco reencontrado e o deutsche marco. Isto corresponde ao que dão os cálculos no caso de uma dissolução da zona euro, ou seja uma depreciação de 10% para o franco e uma apreciação de 30% para o DM. Notemos ainda que é a União europeia que se opõe à assinatura de acordos que garantem os preços de compra aos produtores, em nome do sacrossanto respeito “da concorrência livre e não falseada”. O governo francês teria perfeitamente os meios para regular esta crise jogando sobre os preços e não por supressões de contribuições para a Segurança Social que são apenas paliativos temporários.

A subida da exasperação popular é hoje palpável, e sobre todos os planos . É isso que explica a repercussão das manifestações da Feira da Agricultura no dia 27 de Fevereiro. Da desastrosa “lei do Trabalho” à situação dramática dos agricultores, da revolta dos professores contra a reforma do colégio e contra o discurso da Educação nacional à ruptura dos serviços públicos e do espírito público (com o seu corolário, a laicidade) sobre o conjunto do território, é já tempo para que estas diversas cóleras encontrem o seu mercado político. Este mercado não pode ser senão uma posição radicalmente oposta ao euro e implicando que a União Europeia seja imediatamente reformulada. Este mercado deve assumir a forma de uma rejeição imediata dos dois partidos, o P “S “ e os “ Republicanos” cuja co-gestão da França na ideologia europeísta gerou a situação actual. Tudo isto impõe dizer alto e bom som que não votaremos em 2017 nem François Hollande nem Aubry nem em nenhum dos clones que nos irá apresentar esta “esquerda” sem honra, nem Juppé, nem Sarkozy, nem nenhum destes palhaços procedentes da matriz europeísta.

Esta convergência das lutas deve organizar-se, se possível com a ajuda dos sindicatos, o que seria naturalmente desejável mas, se for necessário, que se faça sem eles. Um grande movimento de Comités de acção da revolta social é bem possível. Estes Comités devem ter dois princípios directores: a vontade de fazer convergir as lutas e a rejeição clara e sem ambiguidade do quadro europeu com a vontade reafirmada de querermos reencontrar a nossa solidariedade. Tal poderia ser a melhor saída possível da situação da decomposição política em que nos encontramos actualmente .

Jacques Sapir, Petit précis de décomposition politique-Brexit, loi El Khomri, crise agricole, primaire…Texto re-publicado por Causeur e disponível em :

http://www.causeur.fr/brexit-el-khomri-crise-agricole-primaire-37007.html

Inicialmente disponível em : http://russeurope.hypotheses.org/

  1. Fazi T., « Why The European Periphery Needs A Post-Euro Strategy », 25 février 2016, https://www.socialeurope.eu/2016/02/bleak-times-ahead-for-the-european-periphery/ 
  2. voir J. Bibow, (2007), ‘Global Imbalances, Bretton Woods II and Euroland’s Role in All This’, in J. Bibow et A. Terzi (dir.), Euroland and the World Economy: Global Player or Global Drag?, New York (N. Y.), Palgrave Macmillan, 2007. 
  3. Baum A., Marcos Poplawski-Ribeiro, et Anke Weber, (2012), « Fiscal Multipliers and the State of the Economy », IMF Working papers, WP/12/86, FMI, Washington DC. Blanchard O. et D. Leigh, (2013), « Growth Forecast Errors and Fiscal Multipliers », IMF Working Paper, WP/13/1, FMI, Washington D.C. 

 

Pequeno manual da decomposição política – por Jacques Sapir I

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