SAÍDA DO EURO – A RESPOSTA DE JACQUES SAPIR – I

Formulação da pergunta e tradução da resposta por Júlio Marques Mota 

À pergunta formulada

Eis pois a questão que levanto aqui e agora,  uma vez que Portugal se recusa viver em autarcia como um país pequeno que é,   uma vez que a saída da zona euro unilateral é também ela inaceitável, uma vez que a saída apoiada pela UE é , por seu lado, impraticável, e tendo ainda em conta o conjunto,  caracterizado pela ignorância, ganância e maldade,  destes que nos governam,  seja  a nível regional seja  a nível nacional, então o que fazer para não se morrer, mesmo que lentamente (!)  com estas políticas que estão e estão mesmo para durar e  talvez mais de dez anos, de acordo com as declarações de Jens Weidmann ao Wall Street Journal

aqui vos deixamos a resposta de Jacques Sapir a partir de um texto complementar ao  seu debate televisivo, precedido de uma nota de redacção da cadeia de televisão.

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A 4 de Julho uma cadeia de televisão francesa organizou um debate e de uma extrema importância sobre a dissolução ou não da zona euro e com a presença de duas figuras altamente representativas em França, a de Jacques Sapir, que defende a dissolução do euro, e a de Jean-Luc Mélenchon que defende outra política que não a da senhora Merkel mas dentro do quadro do euro, e onde a depreciação do euro seria uma peça importante.

Um debate que se insere na linha do que com os nossos fracos recursos temos vindo a organizar no blog A Viagem dos Argonautas. Por isso contactámos Jacques Sapir que nos autoriza a publicar o texto que se segue, e adicionalmente pedimos-lhe  um comentário à  nossa pergunta, mas  aqui francamente duvidamos  que  haja resposta até face ao texto em presença.

Apresentamos igualmente uma síntese do debate, escrito pela redacção da cadeia de televisão que organizou o debate e a seguir publicamos o texto de Jacques Sapir.

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A dissolução da zona euro? Um debate tabu, ausente dos media dominantes, o ‘mainstream’, uma questão armadilhada pelos partidos nacionalistas que dela fizeram o centro do seu programa. No entanto, merece alguma atenção. @si deseja abrir à sua maneira o debate europeu do ano que vem: tratar sem tabus uma questão tabu.

@rrêt sur images, émission le 04/07/2013 Pela redacção. Apresentação de Daniel Schneidermann.

 

” O VERDADEIRO TABU É QUE A ALEMANHA ESTÁ A BLOQUEAR TUDO “

 

Sair do euro? Sapir e Melenchon em debate

Para debater a saída ou não do euro, exactamente isso, dois convidados: o economista Jacques Sapir, acérrimo defensor de uma saída do euro como ele escreve insistentemente no seu blog Russeurope e Jean-Luc Mélenchon, co-presidente do partido da esquerda, para quem o euro não é o problema e não o impediria de pôr em marcha uma outra política .

Sair do euro, um debate tabu? É verdade que os media, seja na televisão, seja nos jornais sérios, dificilmente abordam o problema. Além disso, qualquer político responsável ou economista especialista que se atreva a defender um retorno às moedas nacionais é imediatamente desqualificado pelos meios de comunicação dominantes. A um ano das eleições europeias, parece-nos que precisamos de fazer viver este debate mantendo-nos imparciais, a não defender nem uma posição nem outra, relativamente ao fim da moeda única. Para discutir este tema, precisamente, temos dois convidados: o economista Jacques Sapir, um acérrimo defensor de se abandonar  o euro como ele escreve frequentemente no seu blog Russeurope, e Mélenchon, co-presidente do Partido de Esquerda, para quem o euro não é o problema e não impediria de se implementar uma outra política.

A emissão televisiva é apresentada por Daniel Schneidermann, preparada por Anne-Sophie Jacques e Yaël Caux, sendo co-realizada por Mireille Campourcy et François Rose.

A emissão dura duas horas.

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 Making of por Jacques de Anne-Sophie

Em directo? Sim, em directo. Pela primeira vez na história da televisão sobre @si, decidimos uma transmissão ao vivo e grátis. E que emissão! Para nós, no plateau, nada muda, porque trabalhamos sempre nas mesmas condições que em directo, não temos o direito de cometer erros, nenhum corte será feito, porque não se faz televisão em @si, faz-se é uma outra coisa. E sobre este assunto, sobre a hipótese de uma saída do euro, esta forma encaixa-se perfeitamente. Nós iremos desenvolver esta questão: que futuro para a zona euro? Nós iremos ver. Cozinhar. Passá-la para a frigideira. Sem tabu. Sem os grandes olhos de quem está irritado.

A emissão em directo não muda nada, mas bom, depois de várias semanas de trabalho sobre a questão, nem vos falamos da pressão. À medida que desbravávamos o tema eu entendia melhor porque é que a saída do euro é um assunto a que as pessoas se esquivam. Muito complexo. Encontramos-nos perante um quadro com milhares de botões. Logo que se carrega num botão doze luzes começam-se  a apagar e a acender. Desvalorizar? Sim, mas. A inflação? Nenhuma pergunta ou então sob determinadas condições. É bom, mas para quem ? Os países do Sul. Mas, novamente, mesmo aí a questão não é tão simples. A complexidade da análise económica choca frontalmente com os parâmetros políticos e às geopolíticas. E é este conluio que é posto em cena durante as duas horas de emissão.

Porque levantar a questão, afinal? Porque após dois anos de viagem em economia, a evidência impõe-se: a convergência das economias tão desejada, tão apregoada durante a criação da moeda única não se realizou. Pior: as economias divergem e divergem mesmo muito. Vê-se bem sobre os gráficos apresentados por Jacques Sapir no início da emissão: essas linhas aparecem para os nossos leitores talvez um pouco difíceis – podem-se ver agora mais de perto, pois os gráficos estão ao fundo deste artigo, mas não importa, o importante é o movimento. E neste movimento as economias não convergem, elas divergem. Os movimentos opõem-se. E essa oposição cria tensões, necessariamente. Basta ter o olho arrebitado sobre as notícias dos telejornais relativamente a Espanha, Itália, Portugal, sem mencionar a Grécia ou Chipre para se entender que a situação vai se transformar em água bem suja, imprópria  para consumo, perigosa mesmo.

(continua)

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